Abaixo-assinado por CPI contra STF ultrapassa 300 mil assinaturas

Crime não é aquilo que as pessoas acham que é, mas aquilo que está tipificado na lei
Professor de Direito Constitucional questiona autorizações de quebra de sigilo sem evidências claras de crime.
Mark

O que levou o Partido Novo a lançar essa campanha agora, especificamente?

Mimi

A cassação do Deltan Dallagnol foi o estopim imediato, mas a frustração vinha se acumulando. As decisões do Supremo — especialmente os monitoramentos e quebras de sigilo — estavam alimentando uma sensação de que havia algo errado acontecendo.

Mark

Mas por que 171 assinaturas? Esse número é arbitrário?

Mimi

Não. É o quórum necessário no Congresso para instalar uma CPI. É uma barreira institucional. Eles já tinham 143, então estavam perto.

Mark

Os juristas que você cita parecem concordar que houve abuso. Mas qual é exatamente o problema legal?

Mimi

O problema é que para quebrar sigilo, você precisa de evidências de que um crime foi cometido. Não é suficiente suspeitar. Não é suficiente achar que algo é errado politicamente. Tem que haver crime tipificado na lei.

Mark

E Alexandre de Moraes autorizou essas quebras sem essas evidências?

Mimi

Segundo os juristas ouvidos, sim. Ele autorizou monitoramentos do gabinete de Bolsonaro sem que houvesse crime claro sendo investigado. Isso é o que eles chamam de ativismo judicial.

Mark

Então a CPI seria uma forma de investigar se o Supremo abusou de seu próprio poder?

Mimi

Exatamente. É uma tentativa de criar um mecanismo de accountability. O Congresso investigando o Judiciário. É raro, mas é possível.

  • A cassação unânime do mandato de Deltan Dallagnol pelo TSE acendeu a faísca que transformou insatisfações difusas em mobilização organizada.
  • Com 143 parlamentares já signatários e apenas 28 assinaturas faltando para instalar a CPI, a pressão sobre o Congresso cresce a cada hora.
  • Revelações de que o gabinete do ex-presidente Bolsonaro foi monitorado com quebras de sigilo autorizadas pelo ministro Alexandre de Moraes alimentam o questionamento sobre a legalidade das práticas do STF.
  • Juristas dividem-se: para alguns, autorizar escutas sem evidências claras de crime configura abuso; para outros, o debate ainda carece de provas concretas de ilegalidade.
  • A petição digital, com mais de 300 mil assinaturas, transforma o embate jurídico em pressão popular, ampliando o alcance do conflito para além dos corredores do poder.

Em um país onde os limites entre os poderes se tornam cada vez mais contestados, mais de 300 mil cidadãos assinaram uma petição pedindo ao Congresso que investigue supostos abusos de autoridade do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral. Liderado pelo Partido Novo, o movimento ganhou força após a cassação do mandato do deputado Deltan Dallagnol e revelações sobre monitoramentos autorizados por ministros da corte. A iniciativa reflete uma tensão mais profunda sobre os limites do ativismo judicial em uma democracia que ainda busca definir onde termina a autoridade e começa o arbítrio.

Na manhã do dia 20 de maio, o abaixo-assinado criado pelo Partido Novo ultrapassou 300 mil assinaturas. A petição pedia ao Congresso a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar supostos abusos de autoridade do STF e do TSE. À frente do movimento, o deputado Marcel van Hattem conduzia os esforços no plenário.

O estopim havia sido a cassação do mandato do deputado Deltan Dallagnol, aprovada por unanimidade — sete a zero — pelo TSE. Mas o episódio era apenas a face mais visível de um desconforto acumulado: nos meses anteriores, decisões do Supremo vinham sendo contestadas por políticos e juristas, especialmente após revelações sobre monitoramentos e quebras de sigilo autorizados por ministros da corte, entre eles Alexandre de Moraes.

Para instalar a CPI, eram necessárias 171 assinaturas de parlamentares. Com 143 já confirmadas, faltavam apenas 28. Van Hattem foi direto em suas declarações: citou a cassação de Dallagnol, acusações de censura e inquéritos que considerava ilegais, conclamando a população a pressionar seus representantes.

Juristas ouvidos pela reportagem questionaram a legalidade das práticas reveladas. O professor Nuno Rebelo apontou abuso do Judiciário ao decretar escutas sem iminência de crime, lembrando que crime é aquilo tipificado em lei, não o que se supõe. O advogado Fábio Tavares Sobreira reforçou que, por ser medida excepcional, cabe ao solicitante demonstrar prévia e exaustivamente a necessidade daquele meio de prova antes de qualquer autorização judicial.

Enquanto a petição seguia acumulando assinaturas, o debate sobre os limites do poder judiciário ganhava corpo — e urgência — em todo o país.

Na manhã de sábado, 20 de maio, uma petição digital criada pelo Partido Novo havia ultrapassado a marca de 300 mil assinaturas. O abaixo-assinado pedia ao Congresso Nacional que instalasse uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o que seus proponentes chamavam de abusos de autoridade cometidos pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Tribunal Superior Eleitoral. A campanha tinha rosto: o deputado federal Marcel van Hattem, do Novo-RS, liderava o esforço no plenário.

O gatilho para a mobilização havia sido a cassação do mandato do deputado Deltan Dallagnol, do Podemos-PR. O Tribunal Superior Eleitoral votou por unanimidade — sete a zero — para remover Dallagnol do cargo. O ministro Benedito Gonçalves relatou a decisão, acompanhado pelos colegas Raul Araújo, Sérgio Banhos, Carlos Horbach, Cármen Lúcia, Nunes Marques e Alexandre de Moraes. Mas o episódio era apenas a ponta de um iceberg político maior. Nos meses anteriores, as decisões do Supremo vinham sendo questionadas por políticos e juristas em todo o país, alimentadas por revelações de monitoramentos, quebras de sigilo e operações policiais autorizadas por ministros da corte.

Para que a CPI fosse criada, eram necessárias 171 assinaturas de parlamentares. Até o momento da reportagem, 143 deles já haviam aderido ao requerimento — faltavam apenas 28 para atingir a meta. A página oficial do Partido Novo dedicada à campanha listava publicamente os nomes dos congressistas que já haviam assinado, ao mesmo tempo que convocava a população a pressionar seus representantes a aderir.

Van Hattem, em declaração à imprensa, foi direto ao ponto. Citou a cassação de Dallagnol, acusações de censura e inquéritos que considerava ilegais. "Chega. Não é possível continuar desse jeito", disse, pedindo apoio para divulgar o abaixo-assinado e instando os parlamentares a assinarem o requerimento da CPI sobre abuso de autoridade.

O pano de fundo da mobilização era mais amplo. Recentemente, havia sido revelado que a rotina do gabinete do ex-presidente Jair Bolsonaro havia sido monitorada com quebras de sigilo autorizadas pelo ministro Alexandre de Moraes. Juristas consultados pela reportagem questionaram a legalidade da prática. Segundo os advogados ouvidos, mesmo com pedido do Ministério Público ou da Polícia Federal, um ministro do Supremo só poderia autorizar a quebra de sigilo se houvesse evidências claras de que um crime havia sido cometido — e que esse crime resultaria na prisão do alvo investigado.

Nuno Rebelo, professor de Direito Constitucional da Uninassau-BH, foi crítico. Apontou que, conforme o noticiário identificado, havia abuso do Judiciário ao decretar escutas e quebras de sigilo sem que houvesse iminência de prática criminosa. Ressalvou que crime não é aquilo que as pessoas acham que é, mas aquilo que está tipificado na legislação.

Fábio Tavares Sobreira, advogado e professor de Direito Constitucional e Militar, foi mais específico sobre o ônus probatório. Afirmou que o ministro tem a obrigação de demonstrar indícios razoáveis de que o investigado participou de uma infração penal. Por ser uma medida excepcional, continuou, cabe ao solicitante — delegado ou Ministério Público — demonstrar prévia e exaustivamente ao magistrado a estrita necessidade daquele meio de prova.

A petição seguia colhendo assinaturas enquanto o debate sobre os limites do poder judiciário ganhava corpo no país.

Cassação de Deltan Dallagnol, censura, inquéritos ilegais. Chega. Não é possível continuar desse jeito.
— Marcel van Hattem, deputado federal do Novo-RS
Há um abuso do Judiciário ao decretar escutas e quebras de sigilo sem a iminência da prática de crime
— Nuno Rebelo, professor de Direito Constitucional da Uninassau-BH
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