Em democracias maduras, o equilíbrio entre os poderes não é uma conquista permanente, mas uma negociação contínua. No Brasil de maio de 2023, mais de 300 mil cidadãos assinaram um abaixo-assinado liderado pelo Partido Novo pedindo a criação de uma CPI para investigar supostos abusos de autoridade do STF e do TSE — movimento catalisado pela cassação do mandato do deputado Deltan Dallagnol e por questionamentos sobre quebras de sigilo autorizadas por ministros da corte. A iniciativa, que já conta com 143 dos 171 parlamentares necessários, coloca em cena uma tensão antiga e essencial: quem vigia
Abaixo-assinado por CPI contra STF e TSE ultrapassa 300 mil assinaturas
Crime não é aquilo que as pessoas acham que é, mas aquilo que está tipificado na legislação
Por que essa campanha ganhou tanta força tão rapidamente? Trezentas mil assinaturas é um número expressivo.
Porque toca em algo que vai além da política partidária. As pessoas estão vendo revelações sobre monitoramento de gabinetes, quebras de sigilo, operações policiais autorizadas por um único ministro. Não é abstrato — é concreto, é sobre vigilância.
Mas o Supremo não tem o direito de investigar crimes? Por que isso seria abuso?
Tem, claro. Mas há um limite. Os juristas que consultamos dizem que você não pode quebrar sigilo só porque acha que alguém fez algo errado. Precisa de evidências claras de que um crime específico foi cometido. Sem isso, é excepcional demais.
E a cassação de Deltan Dallagnol? Isso não foi uma decisão legítima do TSE?
Foi unânime, sete a zero. Mas o timing importa. A campanha pela CPI começou logo depois, como se fosse a gota d'água. As pessoas estão conectando os pontos — cassação, monitoramentos, quebras de sigilo — e vendo um padrão.
Qual é o risco real se essa CPI for criada?
Depende de como ela funcionar. Se investigar de verdade, pode estabelecer limites claros sobre o que o Judiciário pode fazer. Se virar apenas ferramenta política, piora a polarização. O que está em jogo é a confiança nas instituições.
Le Pouls
- A cassação unânime do mandato de Deltan Dallagnol pelo TSE acendeu a faísca que transformou uma insatisfação difusa em mobilização organizada.
- Em poucos dias, a campanha do Partido Novo cruzou a marca de 300 mil assinaturas, revelando que o desconforto com o Judiciário vai muito além dos círculos políticos.
- Juristas alertam que quebras de sigilo autorizadas sem indícios claros de crime configuram abuso de autoridade, colocando em xeque a legalidade de práticas recentes do STF.
- Com 143 dos 171 parlamentares necessários já aderindo, a CPI está a menos de 30 assinaturas de se tornar uma realidade legislativa concreta.
- A estratégia do Partido Novo — listar publicamente quem assinou e quem não assinou — transforma cada parlamentar omisso em alvo direto da pressão popular.
Em democracias maduras, o equilíbrio entre os poderes não é uma conquista permanente, mas uma negociação contínua. No Brasil de maio de 2023, mais de 300 mil cidadãos assinaram um abaixo-assinado liderado pelo Partido Novo pedindo a criação de uma CPI para investigar supostos abusos de autoridade do STF e do TSE — movimento catalisado pela cassação do mandato do deputado Deltan Dallagnol e por questionamentos sobre quebras de sigilo autorizadas por ministros da corte. A iniciativa, que já conta com 143 dos 171 parlamentares necessários, coloca em cena uma tensão antiga e essencial: quem vigia os vigilantes?
Uma campanha do Partido Novo para pressionar o Congresso a instalar uma CPI contra o STF e o TSE ultrapassou 300 mil assinaturas em maio de 2023. O movimento, liderado na Câmara pelo deputado Marcel van Hattem, acusa as duas cortes de abusos de autoridade e oferece transparência total sobre quais parlamentares já aderiram ao requerimento — permitindo que cidadãos identifiquem e pressionem diretamente seus representantes.
O gatilho imediato foi a cassação do mandato de Deltan Dallagnol, aprovada por unanimidade pelos sete ministros do TSE, incluindo Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Nunes Marques. Van Hattem aproveitou a repercussão para amplificar o apelo e acelerar a coleta de assinaturas. Para que a comissão seja criada, são necessários 171 parlamentares; até a última atualização, 143 já haviam assinado.
O debate ganhou camadas jurídicas quando professores de direito foram consultados sobre a legalidade das quebras de sigilo autorizadas por ministros do STF. Nuno Rebelo, da Uninassau-BH, afirmou que tais medidas só são legítimas quando há evidências claras de crime — e que, com base nas informações disponíveis, há indícios de que estão sendo decretadas sem essa comprovação. Fabio Tavares Sobreira reforçou que o solicitante deve demonstrar, de forma prévia e exaustiva, a estrita necessidade da prova; sem isso, configura-se abuso de autoridade.
O caso mais emblemático citado foi o monitoramento da rotina do gabinete do ex-presidente Jair Bolsonaro, com quebras de sigilo ordenadas pelo ministro Alexandre de Moraes. A campanha, ao reunir 300 mil assinaturas, sinaliza que a preocupação com os limites do poder judiciário deixou de ser pauta exclusiva de juristas e políticos para alcançar uma fatia expressiva da população brasileira. O desfecho dependerá das próximas adesões parlamentares e da disposição do Congresso em enfrentar o tema.
Uma campanha lançada pelo Partido Novo para pressionar o Congresso Nacional a instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito ultrapassou 300 mil assinaturas até o sábado pela manhã. O movimento busca investigar o que seus proponentes caracterizam como abusos de autoridade cometidos pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Tribunal Superior Eleitoral. Na Câmara, o deputado Marcel van Hattem lidera a iniciativa, que conta com uma página oficial listando os nomes dos parlamentares que já aderiram ao pedido.
A campanha ganhou força após a cassação do mandato do deputado Deltan Dallagnol, que perdeu seu cargo em decisão unânime do Tribunal Superior Eleitoral. Os sete ministros da corte votaram a favor da perda do mandato, incluindo o relator Benedito Gonçalves e os ministros Raul Araújo, Sérgio Banhos, Carlos Horbach, Cármen Lúcia, Nunes Marques e Alexandre de Moraes. Van Hattem usou a ocasião para amplificar o apelo, pedindo que a população pressionasse congressistas a assinarem o requerimento da CPI.
Para que a comissão seja criada, são necessárias 171 assinaturas de parlamentares. Até o momento em que a página foi atualizada, 143 deles já haviam aderido ao pedido. O Partido Novo oferece transparência total sobre quem assinou e quem ainda não o fez, permitindo que cidadãos identifiquem seus representantes e os pressionem diretamente. A estratégia combina mobilização popular com pressão legislativa direta.
O movimento reflete crescente questionamento sobre decisões recentes do Supremo Tribunal Federal. Juristas e agentes políticos em todo o país têm apontado o que descrevem como ativismo judicial e abuso de poder, particularmente em relação a monitoramentos com quebras de sigilo, mandados de prisão e operações da Polícia Federal autorizadas por ministros da corte. O caso mais recente envolveu a revelação de que a rotina do gabinete do ex-presidente Jair Bolsonaro foi monitorada com quebras de sigilo ordenadas pelo ministro Alexandre de Moraes.
Professores de direito consultados sobre a legalidade dessas práticas apontam preocupações significativas. Segundo Nuno Rebelo, professor de Direito Constitucional da Uninassau-BH, mesmo quando solicitadas pelo Ministério Público ou pela Polícia Federal, um ministro do Supremo só pode autorizar quebras de sigilo se houver evidências claras de que um crime foi cometido. Ele observou que, com base na cobertura jornalística, há indicações de que essas medidas estão sendo decretadas sem que haja iminência de prática criminosa. Rebelo ressaltou que crime não é aquilo que as pessoas acham que é, mas aquilo que está tipificado na legislação.
Fabio Tavares Sobreira, advogado e professor de Direito Constitucional e Militar, foi mais específico sobre os requisitos legais. Segundo ele, o ministro que autoriza uma quebra de sigilo deve demonstrar indícios razoáveis de que o alvo participou de uma infração penal. Como se trata de uma medida excepcional, cabe ao solicitante — delegado ou Ministério Público — demonstrar de forma prévia e exaustiva ao magistrado a estrita necessidade da prova em questão. A ausência dessa demonstração, segundo os juristas, configura abuso de autoridade.
O debate que emerge dessa campanha toca em questões fundamentais sobre os limites do poder judiciário em uma democracia. A coleta de 300 mil assinaturas sugere que a preocupação com essas práticas não se restringe a círculos políticos ou jurídicos, mas alcança parcelas significativas da população. O resultado final dependerá de quantos parlamentares adicionais assinarem o requerimento nos próximos dias e de como o Congresso responderá à pressão.
Citations marquantes
Cassação de Deltan Dallagnol, censura, inquéritos ilegais. Chega. Não é possível continuar desse jeito.— Marcel van Hattem, deputado federal (Novo-RS)
Há um abuso do Judiciário sendo decretadas as escutas e as quebras de sigilo, sem a iminência da prática de crime.— Nuno Rebelo, professor de Direito Constitucional da Uninassau-BH