Na Faixa de Gaza, milhares de famílias vivem suspensas entre o luto e a esperança — sem saber se seus entes queridos jazem sob os escombros ou sobrevivem em alguma prisão israelense sem acusação formal. A Cruz Vermelha registra mais de 5 mil pedidos de localização, enquanto a Defesa Civil estima que o número real de desaparecidos ultrapasse 8 mil. É uma das formas mais antigas e cruéis de sofrimento humano: a ausência sem resposta, a ferida que não cicatriza por falta de uma verdade, qualquer que seja ela.
A agonia dos desaparecidos: milhares de famílias em Gaza buscam respostas
É uma ferida aberta. Ela não cicatriza.
Por que a incerteza é tão devastadora para essas famílias?
Porque a morte, por mais terrível que seja, oferece um ponto final. A incerteza não oferece nada. Você não consegue chorar completamente, não consegue enterrar, não consegue seguir em frente. Fica suspenso.
E quando surge uma fotografia como a que Aida viu?
É uma faca de dois gumes. Há alívio em saber que talvez ele esteja vivo. Mas há também humilhação — ver seu filho naquele estado, vendado, amarrado, nas mãos de soldados. E ainda assim, uma foto não é certeza.
Por que Israel não notifica as famílias sobre as detenções?
As autoridades israelenses dizem que é por razões de segurança relacionadas à guerra. Mas o efeito é que milhares de pessoas vivem em um vazio, sem saber se procurar nos hospitais, nas prisões, ou nos escombros.
Quantas pessoas estamos falando?
Mais de 5 mil pedidos de localização registrados na Cruz Vermelha. A Defesa Civil acredita que sejam mais de 8 mil desaparecidos. E a cada dia, mais corpos são encontrados sob os destroços.
E os que foram liberados — o que aconteceu com eles?
Mais de 5 mil foram soltos sem acusações formais. Mas alguns nunca voltaram para casa. Alguns desapareceram. E os que voltaram frequentemente carregam traumas que ninguém está tratando.
Qual é o obstáculo maior para encontrá-los?
A destruição é tão completa que nem conseguem escavar. E mesmo quando encontram restos mortais, não têm testes de DNA suficientes porque Israel restringe quais materiais podem entrar na Faixa de Gaza. É como se o conflito continuasse mesmo depois que as armas param.
O Pulso
- Mais de 5 mil pedidos de localização chegaram à Cruz Vermelha, e a Defesa Civil de Gaza acredita que o número real de desaparecidos supere 8 mil pessoas — muitas delas ainda soterradas sob toneladas de escombros.
- Israel deteve cerca de 7 mil palestinos de Gaza ao longo de quase três anos de guerra; aproximadamente 1,3 mil permanecem presos sem acusação formal, e as famílias frequentemente não são notificadas sobre o paradeiro de seus entes queridos.
- A identificação dos corpos recuperados é travada pela falta de escavadeiras e pela escassez de testes de DNA, resultado direto das restrições israelenses sobre materiais que podem entrar no território.
- Famílias como as de Ahmed e Mahmoud dependem de ONGs, advogados e até de fotografias circuladas nas redes sociais para tentar descobrir se seus filhos estão vivos — uma busca que pode durar meses ou anos sem resposta.
Na Faixa de Gaza, milhares de famílias vivem suspensas entre o luto e a esperança — sem saber se seus entes queridos jazem sob os escombros ou sobrevivem em alguma prisão israelense sem acusação formal. A Cruz Vermelha registra mais de 5 mil pedidos de localização, enquanto a Defesa Civil estima que o número real de desaparecidos ultrapasse 8 mil. É uma das formas mais antigas e cruéis de sofrimento humano: a ausência sem resposta, a ferida que não cicatriza por falta de uma verdade, qualquer que seja ela.
Na cidade de Gaza, Majdiya guarda no celular vídeos do filho Ahmed: ele abraçando um gatinho, mergulhando numa piscina, sorrindo. Ahmed tinha síndrome de Down e era querido por todos. Em maio de 2025, saiu para uma loja perto de casa e nunca mais voltou. Majdiya não sabe se ele foi morto num bombardeio ou detido. "Não perdi a esperança", diz ela, "mas só quando o encontrarem, vivo ou morto, poderei ficar em paz."
Desde o início da campanha militar israelense em Gaza, mais de 73 mil pessoas morreram no território — número que não inclui os corpos ainda soterrados sob os escombros. A Cruz Vermelha recebeu mais de 5 mil pedidos de localização de desaparecidos, e a Defesa Civil de Gaza estima que esse total ultrapasse 8 mil. A recuperação dos corpos é lenta e difícil: faltam escavadeiras, e as restrições israelenses sobre materiais que podem entrar no território limitam severamente a realização de testes de DNA para identificação.
Há ainda outra possibilidade que assombra as famílias. Ao longo de quase três anos de guerra, Israel deteve cerca de 7 mil palestinos de Gaza. Mais de 5 mil foram liberados sem acusação formal. Cerca de 1,3 mil permanecem presos, segundo a organização israelense de direitos humanos HaMoked. Em muitos casos, as famílias não foram notificadas sobre a detenção ou o paradeiro de seus entes queridos, sendo obrigadas a recorrer a ONGs e advogados para tentar localizá-los.
Aida al Drimli, do bairro de Sabra, mostra uma fotografia do filho Mahmoud — um rapaz de rosto jovem envolto numa kufiya. Ele desapareceu em 2024. No verão de 2026, surgiu nas redes sociais uma imagem de dois soldados israelenses posando ao lado de um prisioneiro palestino com os olhos vendados e as mãos amarradas. Aida está convencida de que é Mahmoud. "Pelos seus traços, sua fronte, sua boca, suas mãos", explica ela. Mas uma única fotografia não basta para ter certeza. "Fiquei aliviada e, ao mesmo tempo, partiu meu coração", recorda ela. "Foi humilhante."
O Serviço Penitenciário de Israel afirmou à BBC não ter registro da detenção de nenhum dos dois jovens. O exército israelense, que também gerencia prisões e centros de detenção, não respondeu até a publicação da reportagem. Para especialistas em direitos humanos, o mais cruel é a incerteza prolongada: "É uma ferida aberta. Ela não cicatriza" — uma condição psicológica que pode se estender por meses e até anos.
Na cidade de Gaza, Majdiya guarda vídeos no celular de seu filho Ahmed al Madhoun. Em um deles, ele abraça um gatinho e solta gritos de alegria. Em outro, mergulha de barriga em uma piscina e emerge sorrindo. Ahmed tinha síndrome de Down, era baixo, travesso, querido por todos. Em maio de 2025, saiu para uma loja perto de casa e nunca voltou. Naquela época, a guerra entre Hamas e Israel estava no auge. Houve ataques israelenses naquele dia. Majdiya não sabe se seu filho foi morto nos bombardeios ou se foi detido. "Meu Deus, não tenho paz", ela diz à BBC. "Não perdi a esperança, mas só quando o encontrarem, vivo ou morto, enterrado sob os escombros, poderei ficar em paz."
Majdiya não está sozinha. Desde que Israel lançou sua campanha militar na Faixa de Gaza, mais de 73 mil pessoas morreram no território. Esse número inclui cerca de 1,2 mil mortos desde o cessar-fogo anunciado em outubro passado, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. A ONU considera esses números confiáveis, e a imprensa israelense noticiou que fontes de segurança israelenses afirmam que o exército considera os dados precisos. Mas o número real de palestinos mortos pode ser consideravelmente maior. O balanço do Ministério da Saúde não inclui os corpos ainda enterrados sob os escombros — muitas pessoas desaparecidas simplesmente não fazem parte dessa contagem.
A Cruz Vermelha recebeu mais de 5 mil pedidos de localização de pessoas desaparecidas que podem estar sepultadas nos destroços. A Defesa Civil de Gaza acredita que o número de desaparecidos ultrapasse 8 mil pessoas. A cada dia, mais corpos são descobertos. No início deste mês, um funeral coletivo foi realizado na cidade de Gaza para mais de uma centena de pessoas mortas em um ataque israelense ocorrido em 2023. Seus restos foram recuperados e identificados apenas recentemente, permitindo o sepultamento. A Cruz Vermelha destaca que a recuperação de corpos é extremamente difícil pela gravidade da destruição e pela falta de escavadeiras. Identificar os restos mortais é outro desafio: as pessoas morreram há muito tempo e há falta de testes de DNA, devido às restrições israelenses sobre quais materiais podem entrar na Faixa de Gaza.
Mas há outra possibilidade que assombra as famílias. Ao longo de quase três anos de guerra, as forças de Israel detiveram cerca de 7 mil palestinos de Gaza. Destes, mais de 5 mil foram liberados posteriormente, sem serem formalmente acusados de nenhum delito, segundo o Comitê Público contra a Tortura, sediado em Israel. Neste mês, cerca de 1,3 mil detidos procedentes de Gaza permaneciam em prisões de Israel, sem acusações nem julgamento, segundo a organização israelense de direitos humanos HaMoked. Esses números não incluem pessoas de Gaza detidas diretamente pelo exército de Israel. A HaMoked e outras entidades defensoras dos direitos humanos afirmam que, em muitos casos, Israel não notificou as famílias palestinas sobre a detenção ou o paradeiro dos seus entes queridos, obrigando-as a depender de ONGs e advogados para tentar localizá-los.
Aida al Drimli, moradora do bairro de Sabra na cidade de Gaza, mostra uma fotografia de seu filho Mahmoud, um rapaz com rosto jovem envolvido em uma kufiya. "Ele era um jovem calmo de boas maneiras", conta a mãe. "Ele amava a todos e todos o amavam." Mahmoud desapareceu em 2024 e sua família temia que tivesse sido morto em um ataque de Israel. "Seu pai ia aos hospitais e verificava os corpos", segundo ela. "Mas eu não conseguia. Estava totalmente devastada." No verão de 2026, surgiu nas redes sociais uma fotografia de dois soldados israelenses posando ao lado de um prisioneiro palestino, com os olhos vendados e as mãos amarradas. Aida al Drimli está convencida de que se trata de seu filho Mahmoud. "Pelos seus traços, pela sua fronte, sua boca, seu nariz, a forma como está sentado, a forma em que fecha a boca, suas mãos, suas pernas", explica ela. "Ele tem exatamente os mesmos traços do meu filho." Mas ela sabe que, com uma única fotografia, não é possível ter certeza. "Quando meu marido se sentou e me mostrou a foto, fiquei aliviada", relembra ela. "Mas, ao mesmo tempo, me senti muito mal e partiu meu coração ver meu filho naquele estado. Foi humilhante."
As famílias al Drimli e al Madhoun afirmam que nem eles, nem seus filhos, possuem afiliação ao Hamas ou a nenhum dos grupos armados da Faixa de Gaza. A BBC perguntou ao Serviço Penitenciário de Israel sobre os dois jovens. O organismo respondeu que não tem registro da detenção de nenhum dos dois. A mesma questão foi apresentada ao exército israelense, que também gerencia prisões e centros de detenção, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem. Para as famílias, o mais difícil é a incerteza. "É uma ferida aberta. Ela não cicatriza. Eles não têm descanso porque sequer sabem se seu familiar está vivo ou morto", segundo especialistas em direitos humanos. Nos últimos três anos, Israel dificultou ainda mais a localização de possíveis detidos palestinos. Para aqueles que não sabem onde estão seus familiares, isso traz mais sofrimento para uma situação que já é dolorosa — uma situação psicológica muito difícil, que pode se prolongar por meses e até anos.
Citações Notáveis
Não perdi a esperança, mas só quando o encontrarem, vivo ou morto, enterrado sob os escombros, poderei ficar em paz.— Majdiya, mãe de Ahmed al Madhoun
Quando meu marido se sentou e me mostrou a foto, fiquei aliviada. Mas, ao mesmo tempo, me senti muito mal e partiu meu coração ver meu filho naquele estado. Foi humilhante.— Aida al Drimli, mãe de Mahmoud