A agonia de milhares de famílias que buscam desaparecidos em Gaza

Milhares de palestinos desaparecidos em Gaza, muitos presumivelmente mortos ou detidos sem informação às famílias, causando sofrimento psicológico prolongado e impossibilidade de luto adequado.
É uma ferida aberta. Ela não cicatriza.
Tal Steiner, da HaMoked, sobre o sofrimento psicológico das famílias de desaparecidos.
Mark

Por que a incerteza é tão devastadora para essas famílias?

Mimi

Porque a incerteza impede o luto. Se você soubesse que seu filho estava morto, poderia chorar, enterrá-lo, começar a processar a perda. Mas quando não sabe se está vivo, detido, ou sob os escombros, fica preso em um limbo psicológico. A ferida não cicatriza.

Mark

E por que Israel não fornece informações sobre os detidos?

Mimi

As autoridades israelenses dizem que é por razões de segurança relacionadas à guerra. Mas o efeito prático é que famílias inteiras vivem sem saber o paradeiro de seus entes queridos. A Cruz Vermelha, que normalmente teria acesso a registros penitenciários, foi proibida de visitar as prisões.

Mark

Quantas pessoas estamos falando?

Mimi

Mais de cinco mil pedidos de localização chegaram à Cruz Vermelha. A Defesa Civil de Gaza acredita que o número real ultrapassa oito mil. Alguns podem estar mortos sob os escombros, outros podem estar detidos. Ninguém sabe ao certo.

Mark

E os corpos? Por que não conseguem recuperá-los?

Mimi

A destruição é tão massiva que faltam escavadeiras. Quando conseguem recuperar um corpo, identificá-lo é outro problema — falta DNA, faltam registros. Um funeral coletivo em agosto foi para pessoas mortas em 2023. Levou três anos para encontrá-las e identificá-las.

Mark

Essas famílias têm alguma esperança?

Mimi

Algumas, sim. Aida al Drimli viu uma fotografia que acredita ser seu filho. Mas é apenas uma fotografia, e ela sabe disso. É um vislumbre de esperança misturado com horror — ver seu filho naquele estado, vendado, amarrado, humilhado. Não é repouso. É apenas mais sofrimento.

  • Cruz Vermelha recebeu mais de 5 mil pedidos de localização; Defesa Civil de Gaza estima 8 mil desaparecidos
  • Israel deteve cerca de 7 mil palestinos em três anos; 1,3 mil permanecem presos sem acusações formais
  • Mais de 73 mil palestinos morreram desde o início da campanha militar israelense
  • Ahmed al Madhoun desapareceu em maio de 2025; Mahmoud al Drimli desapareceu em 2024

A Cruz Vermelha recebeu mais de 5 mil pedidos de localização; Defesa Civil de Gaza estima 8 mil desaparecidos, muitos sob escombros. Israel deteve cerca de 7 mil palestinos em três anos; 1,3 mil permanecem presos sem acusações formais, com famílias frequentemente sem notificação.

Mais de 5 mil pessoas permanecem desaparecidas na Faixa de Gaza, possivelmente mortas em ataques ou detidas por Israel. Famílias enfrentam incerteza prolongada sem acesso a informações sobre seus entes queridos.

Na cidade de Gaza, Majdiya guarda vídeos no celular de seu filho Ahmed al Madhoun. Em um deles, ele abraça um gatinho e solta gritos de alegria. Em outro, pula de barriga em uma piscina e emerge sorrindo. Ahmed tinha síndrome de Down, era baixo, travesso, amado por todos. Em maio de 2025, saiu de casa por um momento para ir a uma loja próxima. Nunca voltou. Naquela época, a guerra entre Hamas e Israel estava no auge, e houve ataques israelenses na região. Majdiya não sabe se seu filho de 21 anos foi morto no bombardeio ou se foi detido. "Meu Deus, não tenho paz", ela diz. "Não perdi a esperança, mas só quando o encontrarem, vivo ou morto, enterrado sob os escombros, poderei ficar em paz."

Ahmed é um entre milhares. A Cruz Vermelha recebeu mais de cinco mil pedidos de localização de pessoas desaparecidas na Faixa de Gaza. A Defesa Civil local acredita que o número real ultrapassa oito mil. Desde que Israel lançou sua campanha militar, mais de 73 mil palestinos morreram no território. Mas este número, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, não inclui os corpos ainda sepultados sob os escombros — muitos dos desaparecidos não constam sequer nas contagens oficiais. A ONU considera os dados do ministério confiáveis, e fontes de segurança israelenses reconhecem sua precisão, mas a realidade dos mortos é maior do que qualquer estatística consegue capturar.

Recuperar os corpos é uma tarefa quase impossível. A destruição é tão severa que faltam escavadeiras. Identificar os restos mortais é outro desafio: as pessoas morreram há muito tempo, e há escassez de testes de DNA, pois Israel restringe quais materiais podem entrar na Faixa de Gaza. No início de agosto, realizou-se um funeral coletivo na cidade de Gaza para mais de uma centena de pessoas mortas em um ataque de 2023. Seus restos foram recuperados e identificados apenas recentemente, permitindo o sepultamento — anos depois da morte.

Mas nem todos os desaparecidos estão sob os escombros. Ao longo de quase três anos de guerra, Israel deteve cerca de sete mil palestinos de Gaza. Mais de cinco mil foram liberados posteriormente, sem acusações formais, segundo o Comitê Público contra a Tortura, sediado em Israel. Porém, cerca de 1,3 mil detidos de Gaza permanecem em prisões israelenses sem acusações nem julgamento, conforme a organização de direitos humanos HaMoked. Estes números não incluem pessoas detidas diretamente pelo exército. Em muitos casos, Israel não notificou as famílias sobre a detenção ou o paradeiro de seus entes queridos, obrigando-as a depender de ONGs e advogados para tentar localizá-los.

Aida al Drimli, moradora do bairro de Sabra, em Gaza, mostra uma fotografia de seu filho Mahmoud. "Ele era um jovem calmo de boas maneiras", conta ela. "Ele amava a todos e todos o amavam." Mahmoud desapareceu em 2024. Sua família temia que tivesse sido morto em um ataque. Seu pai ia aos hospitais verificar corpos. Aida não conseguia — estava devastada. No verão de 2026, surgiu nas redes sociais uma fotografia de dois soldados israelenses posando ao lado de um prisioneiro palestino com os olhos vendados e as mãos amarradas. Aida está convencida de que é seu filho. "Pelos seus traços, pela sua fronte, sua boca, seu nariz, a forma como está sentado, a forma em que fecha a boca, suas mãos, suas pernas", explica ela. "Ele tem exatamente os mesmos traços do meu filho." Mas com uma única fotografia, não há certeza. "Quando meu marido me mostrou a foto, fiquei aliviada", relembra. "Mas, ao mesmo tempo, me senti muito mal e partiu meu coração ver meu filho naquele estado. Foi humilhante."

As famílias al Drimli e al Madhoun afirmam que nem eles nem seus filhos possuem afiliação ao Hamas ou a grupos armados. A BBC perguntou ao Serviço Penitenciário de Israel sobre os dois jovens. O organismo respondeu que não tem registro da detenção de nenhum dos dois. O exército israelense, que também gerencia prisões, não respondeu até a publicação da reportagem. Israel não permite acesso independente de jornalistas internacionais à Faixa de Gaza.

A família al Drimli pediu à Cruz Vermelha que verificasse se Mahmoud foi detido, mas Israel não permite que a entidade acesse seus registros penitenciários. Tal Steiner, diretora-executiva da HaMoked, diz que "o 7 de Outubro mudou tudo". A proibição à Cruz Vermelha de visitar prisões e a ausência de listas de detidos significam que as famílias precisam rastreá-los individualmente, uma a uma. "Isso representa atualmente um enorme fardo para a capacidade de encontrar essas pessoas", explica Steiner. Para as famílias, o mais difícil é a incerteza. "É uma ferida aberta. Ela não cicatriza. Eles não têm descanso porque sequer sabem se seu familiar está vivo ou morto." Nos últimos três anos, Israel dificultou ainda mais a localização de possíveis detidos palestinos. "Para aqueles que não sabem onde estão seus familiares, isso traz mais sofrimento para uma situação que já é dolorosa. É uma situação psicológica muito difícil, que pode se prolongar por meses e até anos."

Não perdi a esperança, mas só quando o encontrarem, vivo ou morto, enterrado sob os escombros, poderei ficar em paz.
— Majdiya, mãe de Ahmed al Madhoun
Para aqueles que não sabem onde estão seus familiares, isso traz mais sofrimento para uma situação que já é dolorosa. É uma situação psicológica muito difícil, que pode se prolongar por meses e até anos.
— Tal Steiner, diretora-executiva da HaMoked
Contact Us FAQ