84% dos diagnosticados tardiamente com HIV em Porto Alegre eram heterossexuais

Porto Alegre registra a maior taxa de mortalidade por aids entre capitais brasileiras (20,2 óbitos por 100 mil habitantes), aproximadamente três vezes a taxa nacional, associada ao diagnóstico tardio.
A população que está adoecendo é invisível
Pesquisadora descreve como heterossexuais diagnosticados tardiamente escapam da vigilância epidemiológica tradicional.
Mark

Por que a pesquisa focou especificamente em heterossexuais? Não era óbvio que eles também podiam contrair HIV?

Mimi

Óbvio para quem? A política de testagem em Porto Alegre — e em muitos lugares — foi construída em torno de grupos considerados de risco. Quando você direciona a vigilância dessa forma, as pessoas que não se encaixam naquele perfil simplesmente desaparecem dos números até ficarem muito doentes.

Mark

Então a pesquisa está dizendo que as campanhas de prevenção falharam?

Mimi

Não exatamente. As campanhas funcionaram para os grupos que visavam. O problema é que criaram uma ilusão de que HIV é "coisa de" certos grupos. Uma mulher casada, mãe, que trabalha — por que ela procuraria um teste? Ela não se vê em risco.

Mark

E quanto aos homens heterossexuais? Como 49% dos diagnosticados tardiamente eram homens que não se viam como vulneráveis?

Mimi

Mesma lógica. Um homem casado, com filhos, trabalhando — a narrativa pública não o coloca em risco. Mas ele pode ter tido relações extraconjugais, ou sua parceira pode ter tido. O vírus não lê o perfil epidemiológico que criamos.

Mark

A pesquisadora menciona que 76% dos diagnosticados tardiamente não tinham fatores de risco tradicionais. Isso significa que os critérios de risco estão errados?

Mimi

Significa que os critérios são incompletos. Eles capturaram bem certos grupos, mas deixaram um vazio enorme. E nesse vazio, pessoas vivem infectadas por anos, transmitindo o vírus, sem saber.

Mark

Qual é a solução? Testar todo mundo?

Mimi

Basicamente, sim. Ou pelo menos tornar o teste tão acessível e rotineiro que ninguém precise se identificar como "de risco" para ser testado. Integrar nos check-ups, no pré-natal, nas consultas preventivas. Quando o teste é automático, ninguém se sente marcado.

Mark

E isso funcionaria em Porto Alegre, que já tem a maior taxa de mortalidade por aids do país?

Mimi

Poderia ajudar a quebrar o ciclo. Porque agora o que acontece é: pessoa descobre tardiamente, já está muito doente, morre. Ou transmite para outras pessoas que também descobrem tarde. É um ciclo que só quebra com diagnóstico precoce em massa.

  • 84% dos diagnosticados tardiamente com HIV em Porto Alegre entre 2015 e 2024 eram heterossexuais
  • 25% dos 1.615 pacientes analisados descobriram HIV apenas durante hospitalização por infecções oportunistas
  • Porto Alegre tem a maior taxa de mortalidade por aids entre capitais brasileiras: 20,2 óbitos por 100 mil habitantes
  • 76% dos diagnosticados tardiamente não tinham fatores de risco tradicionais como uso de drogas ou trabalho sexual

Pesquisa analisou 1.615 pacientes hospitalizados; 25% descobriram HIV apenas durante internação por infecções oportunistas como tuberculose e pneumonia. 76% dos diagnosticados tardiamente não tinham fatores de risco tradicionais; maioria era casada, trabalhava e tinha filhos, escapando da vigilância epidemiológica.

Estudo do Hospital Nossa Senhora da Conceição revela que 84% dos diagnosticados tardiamente com HIV em Porto Alegre entre 2015 e 2024 eram heterossexuais, população invisível nas estratégias de testagem focadas em grupos de risco.

Um homem chega ao Hospital Nossa Senhora da Conceição com 70, 80 anos. Vem para uma cirurgia eletiva, ou talvez para tratar um câncer. O exame de rotina volta positivo para HIV. Ninguém sabia. Ele próprio não sabia. E durante anos, enquanto vivia sua vida — casado, trabalhando, talvez trocando de parceiros ao longo do tempo — estava transmitindo o vírus para outras pessoas.

Este é o retrato que emerge de uma pesquisa conduzida pelo Grupo Hospitalar Conceição em parceria com a Universidade da Califórnia em Los Angeles. Entre 2015 e 2024, pesquisadores analisaram 1.615 pacientes que chegaram ao hospital em estado grave relacionado ao HIV. O que encontraram desafia a narrativa convencional sobre quem adoece de aids em Porto Alegre.

Oitenta e quatro por cento dos pacientes que descobriram o vírus em estágio avançado eram heterossexuais. Destes, 49% eram homens e 35% eram mulheres — a maioria casada ou em união estável, trabalhando, com filhos. Apenas 10% pertenciam a minorias sexuais ou de gênero, o grupo tradicionalmente considerado "chave" nas campanhas de prevenção. Os outros 6% não forneceram essa informação. Mais perturbador ainda: 25% dos 1.615 pacientes analisados — 407 pessoas — descobriram que tinham HIV apenas quando foram hospitalizadas, geralmente com infecções oportunistas como tuberculose, pneumonia por fungo, toxoplasmose cerebral ou pneumonia bacteriana. Doenças que só atacam quando o corpo já não consegue mais se defender.

A infectologista Marineide Gonçalves de Melo, uma das pesquisadoras, observa que Porto Alegre segue as recomendações do Ministério da Saúde focando em populações de alto risco — homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, usuários de drogas, profissionais do sexo. Mas a realidade que o hospital vê é outra. A população que está adoecendo é invisível. Não está sendo testada precocemente. E porque não se vê como suscetível, não procura o teste.

Entre os 407 diagnosticados tardiamente, 76% não tinham os fatores de risco tradicionalmente usados para orientar a testagem: uso de crack ou cocaína, drogas injetáveis, situação de rua, histórico de encarceramento, trabalho sexual. Eram pessoas comuns. Pessoas que escaparam da vigilância epidemiológica porque não se encaixavam no perfil que as autoridades estavam procurando.

Porto Alegre carrega um peso particular nesta história. A capital tem a maior taxa de mortalidade por aids entre as capitais brasileiras — 20,2 óbitos para cada 100 mil habitantes, aproximadamente três vezes a taxa nacional e o dobro da estadual. Marineide, que trabalha com pacientes com aids há 40 anos, é clara: há uma epidemia generalizada na cidade. E porque os casos fora do grupo de risco só são descobertos quando estão muito avançados, a transmissão continua. Casamentos terminam, novas famílias se formam, e a epidemia se perpetua na população heterossexual.

A pesquisadora aponta caminhos: integrar testes de forma automática nos atendimentos de rotina, oferecer o exame quando a pessoa apresenta sintomas compatíveis, ampliar o acesso com autotestes e testagem em farmácias. Com diagnóstico precoce, o paciente pode iniciar tratamento, ficar com carga viral indetectável e parar de transmitir. A medicina oferece hoje opções para prevenção também — medicamentos injetáveis, comprimidos como a PrEP. Mas nada disso funciona se as pessoas não sabem que precisam ser testadas. E em Porto Alegre, muita gente ainda acredita que aids é "uma coisa resolvida no mundo", como Marineide ouve na academia que frequenta. Sua filha tem 17 anos, seu filho tem 18 e está na faculdade. Nenhum dos dois tem a menor ideia do que seja aids.

Chega uma pessoa com 70, 80 anos, que vai ser internada por causa de uma cirurgia eletiva ou para tratar um câncer, e vem o exame positivo de HIV. Ou seja, essa pessoa escapou da vigilância e ficou anos infectando outras porque ela própria não se sabia infectada.
— Marineide Gonçalves de Melo, infectologista e pesquisadora
A população que está adoecendo com HIV é meio que invisível. Ela não está sendo testada precocemente, assim como esses outros que são ditos de risco.
— Marineide Gonçalves de Melo
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