81,8% dos adultos de São Paulo têm anticorpos contra covid

A pandemia está chegando ao fim, se não houver novas variantes
Pesquisador explica que a combinação de vacinação e imunidade prévia reduz casos graves e mortes.
Mark

O que significa exatamente esse número de 81,8%? Quer dizer que a cidade está imune?

Mimi

Significa que oito em cada dez adultos têm anticorpos neutralizantes — proteínas que podem bloquear o vírus. Mas imunidade completa é mais complexa. Alguns desses anticorpos vêm da vacinação, outros de infecção anterior, e a proteção pode diminuir com o tempo.

Luke

E como sabemos que esses anticorpos realmente protegem? O estudo mediu a capacidade deles de neutralizar o vírus em laboratório, ou apenas detectou sua presença?

Mark

Entendi. E esse número de 52,8% com anticorpos contra nucleoproteína — o que isso muda?

Mimi

Isso indica que metade da população foi infectada pelo vírus em algum momento. É um marcador de infecção natural, não de vacinação. O problema é que os registros oficiais mostram apenas 1,4 milhão de casos confirmados, enquanto os anticorpos sugerem muito mais infecções.

Luke

Mas a ressalva do Granato é importante: algumas pessoas vacinadas com Coronovac também produzem esse anticorpo. Então não dá para saber com precisão quanto da diferença é subnotificação real e quanto é vacinados com Coronovac que também têm o marcador.

Mark

Isso significa que o vírus circulou muito mais do que a gente sabia?

Mimi

Provavelmente. Muitas pessoas tiveram covid assintomática ou leve e nunca testaram. O estudo sugere que a realidade da infecção foi bem maior que os números oficiais.

Luke

Verdade, mas também há um intervalo de tempo. O estudo foi feito em setembro, e os dados da Prefeitura que usaram para comparação eram de 20 de setembro. Desde então, mais pessoas testaram positivo — o número subiu para 1,5 milhão. Ainda assim, fica a lacuna.

Mark

E as diferenças entre bairros ricos e pobres? Isso é preocupante?

Mimi

Muito. Nos bairros pobres, 62,8% têm anticorpos contra nucleoproteína, contra 43,1% nos ricos. Isso mostra que a exposição ao vírus foi muito maior nas comunidades mais vulneráveis.

Luke

Mas os anticorpos neutralizantes — que indicam vacinação — não tiveram diferença significativa entre ricos e pobres. Então a vacinação chegou de forma mais equitativa que a infecção natural conseguiu evitar.

  • A cobertura de anticorpos neutralizantes mais que dobrou em poucos meses — de 33,3% em maio para 81,8% em setembro —, sinalizando uma virada significativa na proteção coletiva da capital paulista.
  • Quando o estudo foi divulgado em novembro, a vacinação já havia avançado ainda mais, com 95,7% dos adultos com esquema completo, sugerindo que o percentual real de protegidos era ainda maior do que o medido.
  • O dado mais perturbador veio silencioso: 52,8% dos adultos tinham anticorpos de infecção natural, o que aponta para cerca de 4,9 milhões de infectados — mais de três vezes o número oficial de diagnósticos positivos registrados pela Prefeitura.
  • A desigualdade deixou sua marca nos dados: bairros pobres apresentaram taxa de exposição ao vírus quase 20 pontos percentuais acima dos bairros ricos, enquanto a vacinação, ao contrário, distribuiu-se de forma mais equitativa pela cidade.
  • Pesquisadores celebram a queda de casos graves e mortes — em 8 de novembro, São Paulo não registrou nenhuma morte por covid —, mas mantêm o alerta: novas variantes podem reescrever esse cenário.

Em setembro de 2021, pesquisadores paulistanos descobriram que mais de oito em cada dez adultos da maior metrópole do Brasil carregavam anticorpos neutralizantes contra o coronavírus — um salto que, em poucos meses, transformou a paisagem imunológica de uma cidade que pagou um preço altíssimo pela pandemia. O avanço reflete tanto a aceleração da vacinação quanto a circulação intensa do vírus, e traz consigo uma promessa de alívio e um alerta: a proteção coletiva cresce, mas a subnotificação revela que a doença passou por muito mais pessoas do que os registros oficiais jamais capturaram.

Em setembro de 2021, pesquisadores do projeto SoroEpi MSP — uma parceria entre a USP, a Unifesp e instituições como o Laboratório Fleury e o Instituto Todos pela Saúde — analisaram 1.055 amostras de sangue coletadas em 160 setores censitários de São Paulo. O resultado surpreendeu a própria equipe: 81,8% dos adultos da cidade possuíam anticorpos neutralizantes contra o coronavírus, mais que o dobro dos 33,3% registrados em abril e maio.

O biólogo Fernando Reinach, um dos participantes da pesquisa, destacou que o número já era provavelmente maior quando o estudo foi divulgado, em novembro. Afinal, a vacinação seguiu avançando após a coleta: em 20 de setembro, 70% dos adultos tinham esquema completo; em novembro, esse índice havia chegado a 95,7%. Para Reinach, os dados apontam para o fim da fase mais aguda da pandemia — desde que novas variantes não alterem o quadro. O estado de São Paulo já dava sinais disso: em 8 de novembro, não registrou nenhuma morte por covid-19.

Mas o estudo trouxe também um dado incômodo. Cerca de 52,8% dos adultos paulistanos apresentavam anticorpos contra a nucleoproteína do Sars-CoV-2, marcador típico de infecção natural — o equivalente a aproximadamente 4,9 milhões de pessoas. O número oficial de diagnósticos positivos, segundo a Prefeitura, era de apenas 1,4 milhão. A diferença expõe uma subnotificação expressiva, embora o infectologista Celso Granato, líder do projeto, tenha ponderado que vacinados com a CoronaVac também podem produzir esse tipo de anticorpo em alguns casos, o que introduz uma margem de imprecisão.

A pesquisa revelou ainda uma fratura geográfica: a presença de anticorpos de infecção natural foi de 43,1% nos bairros mais ricos e de 62,8% nos mais pobres, refletindo diferenças nas condições de trabalho, moradia e prevenção. Já os anticorpos neutralizantes — ligados à vacinação — distribuíram-se de forma mais igualitária, sugerindo que a campanha de imunização conseguiu alcançar a população adulta da cidade com relativa equidade.

Em setembro, pesquisadores que monitoram a imunidade da população paulistana encontraram algo que os surpreendeu: oito em cada dez adultos da cidade de São Paulo possuem anticorpos neutralizantes contra o coronavírus. O número, 81,8% da população com 18 anos ou mais, representa mais que uma duplicação em relação ao levantamento anterior, realizado em abril e maio, quando apenas 33,3% dos adultos apresentavam essa proteção. A mudança reflete dois fenômenos simultâneos: a aceleração da vacinação e a circulação intensa do vírus na capital.

O estudo, conduzido pelo projeto SoroEpi MSP e divulgado na terça-feira 9 de novembro, reuniu cientistas da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal de São Paulo, com financiamento do Instituto Semeia, Laboratório Fleury, Ipec e Instituto Todos pela Saúde. Para chegar a esses números, os pesquisadores analisaram 1.055 amostras de sangue coletadas entre 9 e 20 de setembro em 160 setores censitários diferentes da cidade. Dois métodos de laboratório foram usados para medir os níveis de anticorpos: um teste de quimioluminescência da Abbott e outro de eletroquimioluminescência da Roche.

O biólogo Fernando Reinach, que participa da pesquisa e escreve para o Estadão, explicou que a equipe ficou impressionada com a proporção de pessoas protegidas. Mas ele ressalvou um ponto importante: o percentual de 81,8% provavelmente já era maior quando o estudo foi divulgado. Isso porque a cobertura vacinal continuou avançando nas semanas seguintes à coleta. Em 20 de setembro, quando as amostras foram finalizadas, 70% dos adultos paulistanos haviam recebido duas doses ou dose única. Quando o estudo foi anunciado, em novembro, esse índice havia saltado para 95,7%. Para que a imunização seja considerada completa, porém, é necessário aguardar 14 dias após a segunda dose ou dose única.

Os pesquisadores do SoroEpi MSP indicam que esses dados sugerem que os números de casos graves e mortes devem continuar diminuindo. De fato, o Estado de São Paulo já apresentava quedas consistentes: na segunda-feira anterior ao anúncio do estudo, 8 de novembro, o estado inteiro não registrou nenhuma morte por covid-19. Reinach explicou o mecanismo: a vacinação garante que uma parte das pessoas não contraia o vírus; quando contraem, transmitem menos; e quando apresentam sintomas, eles tendem a ser mais leves. "Tudo isso sugere que, se a gente não tiver novas variantes, a pandemia está chegando ao fim", afirmou.

Mas o estudo revelou outro dado relevante que aponta para um problema de vigilância: 52,8% dos adultos paulistanos possuem anticorpos contra a nucleoproteína do Sars-CoV-2, um marcador produzido principalmente após infecção natural. Esse percentual corresponde a aproximadamente 4,9 milhões de pessoas. Comparado ao ciclo anterior, quando era 41,6%, o aumento é significativo. A implicação é preocupante: sugere que houve uma subnotificação expressiva de diagnósticos positivos na capital. Segundo dados da Prefeitura de São Paulo de 20 de setembro, o total de pessoas que haviam testado positivo era de 1,4 milhão — mais de três vezes menor do que o indicado pelos anticorpos contra nucleoproteína.

Celso Granato, infectologista e diretor clínico do Grupo Fleury que lidera o projeto, fez uma ressalva importante: algumas pessoas vacinadas com a Coronovac, feita com vírus inativado, também podem produzir anticorpos contra nucleoproteína em certos casos, o que complica a precisão da estimativa de subnotificação. Por outro lado, as vacinas da Pfizer, AstraZeneca e Janssen produzem exclusivamente anticorpos neutralizantes, tornando esses números mais confiáveis como indicador de vacinação.

O estudo também revelou desigualdades geográficas importantes. A presença de anticorpos contra nucleoproteína variou significativamente entre distritos: 43,1% nos bairros mais ricos contra 62,8% nos mais pobres. Isso sugere que a exposição ao coronavírus foi distinta entre esses grupos, provavelmente refletindo diferenças nas condições de trabalho, moradia e acesso a informações de prevenção. As taxas de anticorpos neutralizantes, porém, não apresentaram diferenças significativas entre ricos e pobres, indicando que a vacinação alcançou de forma mais equitativa a população adulta da cidade.

A vacinação garante que uma parte das pessoas não vai contrair o vírus. Quando contraem, elas transmitem menos. E quando apresentam sintomas, eles costumam ser mais leves.
— Fernando Reinach, biólogo e pesquisador do SoroEpi MSP
Esses dados sugerem que os números de casos graves e mortes devem continuar a diminuir.
— Pesquisadores do SoroEpi MSP
Envie de l'histoire complète ? Lire l'original sur UOL ↗
Nous contacter FAQ