Oito em cada dez brasileiros enxergam o país como racista
Em abril de 2023, uma pesquisa do Ipec ouviu duas mil pessoas espalhadas por 127 municípios brasileiros e encontrou algo raro nas ciências sociais: um consenso. Oito em cada dez brasileiros reconhecem que o país é racista, e esse reconhecimento atravessa cor, classe e região. O que o levantamento também revela, com igual força, é o limite desse reconhecimento — a maioria enxerga o racismo no insulto e no olhar torto, mas poucos ainda conseguem vê-lo nas estruturas silenciosas que organizam a desigualdade.
- A percepção do racismo no Brasil atingiu um consenso quase universal: 81% dos brasileiros reconhecem o problema, com 60% concordando plenamente — um número que não deixa margem para conforto.
- Mulheres pretas, moradores de periferias e pessoas de baixa renda lideram a concordância total, revelando que para esses grupos o racismo não é opinião, mas experiência acumulada no corpo e no cotidiano.
- A violência verbal domina o imaginário sobre como o racismo se manifesta, citada por 66% dos entrevistados, enquanto apenas 5% conseguem identificar o racismo nas ações institucionais do Estado e das organizações.
- Esse ponto cego institucional é o nó central da pesquisa: o Brasil reconhece o racismo que grita, mas ainda tem dificuldade de ver o racismo que organiza, que distribui oportunidades, que perpetua desigualdades em silêncio.
Uma pesquisa divulgada pelo Ipec em julho de 2023, realizada em parceria com o Instituto de Referência Negra Peregum e o Projeto SETA, entrevistou duas mil brasileiros com 16 anos ou mais em 127 municípios das cinco regiões do país. O resultado foi um retrato de consciência coletiva: 81% dos entrevistados reconhecem que o Brasil é racista, sendo 60% em concordância plena e 21% parcial.
O dado mais revelador talvez seja sua abrangência. Independentemente de cor, classe ou origem, todos os grupos étnico-raciais concordam que a cor da pele é o principal fator gerador de desigualdade no país. Mulheres pretas lideram com 76% de concordância total, seguidas por mulheres pardas e homens pretos, ambos com 66%. Moradores de periferias chegam a 64%, e pessoas com renda de até um salário mínimo, a 63%.
Quando o assunto é como o racismo se manifesta, 66% dos brasileiros apontam a violência verbal como forma principal. O tratamento desigual aparece em segundo lugar, com 42%. Mas um número chama atenção pela sua ausência: apenas 5% identificam ações institucionais do Estado ou de organizações como forma de racismo — um ponto cego que sugere que a compreensão do problema ainda está mais ligada ao gesto visível do que à estrutura invisível.
A pesquisa também mapeou quem presenciou situações racistas. Moradores de periferias chegam a 66% de exposição, homens pretos a 64%, e mulheres pretas a 57%. O levantamento oferece, assim, um retrato de um país que reconhece o racismo quando ele se apresenta como agressão — mas que ainda tem dificuldade de enxergá-lo nas políticas, nas práticas e nos sistemas que perpetuam a desigualdade de forma menos visível, mas talvez mais determinante.
Uma pesquisa divulgada pelo Ipec na quinta-feira de 27 de julho de 2023 revelou que oito em cada dez brasileiros enxergam o país como racista. Dos 81% que compartilham essa percepção, 60% concordam plenamente com a afirmação, enquanto outros 21% concordam apenas em parte. O levantamento, realizado em colaboração com o Peregum (Instituto de Referência Negra) e o Projeto SETA (Sistema de Educação por uma Transformação Antirracista), entrevistou duas mil pessoas com 16 anos ou mais entre 14 e 18 de abril de 2023, distribuídas em 127 municípios das cinco regiões do país.
O dado mais significativo talvez seja a concordância praticamente universal: independentemente de cor, origem ou classe social, todos os grupos étnicos-raciais reconhecem que a cor da pele funciona como fator gerador de desigualdade no Brasil. Mulheres pretas lideram o percentual de concordância total com 76%, seguidas por mulheres pardas e homens pretos, ambos com 66%. Moradores de áreas periféricas também se destacam, com 64% concordando totalmente que o país é racista. Pessoas com renda familiar de até um salário mínimo chegam a 63%. Esses números sugerem que a experiência do racismo não é abstrata para esses grupos — é vivida, observada, incorporada.
Quando perguntados sobre as raízes do racismo, 62% dos entrevistados apontam a prática como direcionada contra um grupo étnico específico. Um quarto da amostra (25%) identifica motivações religiosas, enquanto 18% mencionam ataques às práticas culturais de um grupo. Ao examinar como o racismo se manifesta concretamente, 66% dos brasileiros citam a violência verbal — xingamentos e ofensas — como a forma principal. Tratamento desigual aparece em segundo lugar, com 42%. A intolerância religiosa fica em quinto, com 23%. Um dado que chama atenção pela sua pequenez: apenas 5% dos entrevistados identificam ações e medidas institucionais do Estado e de organizações públicas e privadas como forma de racismo.
Quanto à desigualdade, 44% consideram a cor da pele como o principal fator gerador de disparidades no Brasil — a afirmação mais frequente entre todas as estratificações étnico-raciais. Pessoas com 60 anos ou mais tiveram mais dificuldade em definir a etnia como fator central da desigualdade social, com apenas 11% fazendo essa conexão. Entre pessoas com ensino fundamental, o percentual caiu para 8%.
A pesquisa também mapeou quem presenciou situações racistas. Mulheres pretas e pessoas que possuem ou convivem com alguém com deficiência ambas reportam 57% de exposição a esses eventos. Moradores de periferias chegam a 66%, enquanto homens pretos alcançam 64%. Pessoas que vivem em capitais reportam 55%. Esses números revelam que o racismo não é fenômeno distante ou teórico para esses grupos — é algo que eles veem, que presenciam, que integra o cotidiano.
O levantamento oferece um retrato de um país onde a percepção do racismo é quase consensual, mas onde a compreensão de suas manifestações institucionais permanece limitada. A maioria dos brasileiros reconhece o problema quando ele se apresenta como agressão verbal ou tratamento desigual. Poucos, porém, conseguem enxergá-lo nas estruturas mais profundas — nas políticas públicas, nas práticas organizacionais, nos sistemas que perpetuam a desigualdade de forma menos visível mas talvez mais determinante.
Notable Quotes
Todos os grupos étnicos-raciais concordam que cor da pele é fator para desigualdade— Pesquisa Ipec
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que você acha que 81% dos brasileiros concordam que o país é racista, mas apenas 5% conseguem identificar ações institucionais como forma de racismo?
Porque a violência verbal é imediata, pessoal, inegável. Você é xingado, você sente. Mas as estruturas — as políticas de crédito, as contratações, a distribuição de recursos — essas operam de forma silenciosa. A maioria das pessoas não foi treinada a enxergá-las.
E por que mulheres pretas estão tão acima da média em reconhecer o racismo?
Porque elas vivem na intersecção. Não é só racismo. É racismo e sexismo ao mesmo tempo. Quando você experimenta discriminação em múltiplas dimensões, você desenvolve uma percepção mais aguçada do fenômeno.
O fato de apenas 11% das pessoas com 60 anos ou mais identificarem cor da pele como fator de desigualdade é preocupante?
Sugere que gerações mais velhas podem ter internalizado narrativas diferentes sobre mobilidade social — a ideia de que o esforço individual é suficiente. Ou simplesmente não vivenciaram as mesmas barreiras que grupos mais jovens enfrentam.
Se 66% veem violência verbal como principal manifestação, o que isso diz sobre como o Brasil entende racismo?
Que o Brasil entende racismo como algo que acontece entre pessoas, não dentro de instituições. É mais fácil culpar um indivíduo que xinga do que questionar por que os negros ganham menos, estudam em piores escolas, morrem mais jovens.
Moradores de periferias reportam 66% de exposição a situações racistas. Isso é coincidência ou estrutural?
Estrutural. Periferias no Brasil são majoritariamente negras. Então quando você mora lá, você está imerso em um espaço onde a discriminação é mais visível, mais frequente, mais normalizada.