Dois terços dos pequenos empresários favorecem a proibição das apostas online, com 57% totalmente favoráveis e 8,8% parcialmente favoráveis à medida. Um terço dos entrevistados percebeu clientes com menos dinheiro disponível, enquanto 40% das empresas com funcionários relatam impactos das bets nas equipes, incluindo endividamento e queda de produtividade.
66% dos pequenos negócios apoiam proibição das bets, revela Sebrae
O dinheiro que antes circulava no comércio local migrou para as plataformas de jogos
Por que os pequenos empresários se importam tanto com as apostas online? Não é um problema individual de cada pessoa?
Porque o dinheiro que desaparece nas bets é dinheiro que deixa de circular no comércio local. Quando um cliente endividado para de comprar, o caixa do pequeno negócio sofre. E quando um funcionário está endividado, sua produtividade cai.
Mas a pesquisa mede correlação, não causalidade direta. Os empresários percebem menos dinheiro disponível — isso pode ser bets, pode ser inflação, pode ser desemprego. Como sabemos que é realmente as apostas?
Justo. Mas 40% das empresas com funcionários relatam impactos específicos das bets — endividamento, pedidos de adiantamento. Isso é mais concreto.
E quanto àqueles que se opõem à proibição? O que eles argumentam?
Principalmente dois pontos: receio de que o mercado migre para plataformas ilegais, onde não há proteção nenhuma, e defesa da liberdade individual com educação financeira.
Esse é o dilema real. A pesquisa mostra apoio à proibição, mas não mostra se a proibição funcionaria. Os empresários mesmos têm medo de que não funcione.
Então qual é a saída?
A pesquisa sugere alternativas: limites por CPF, restrições à publicidade, proteção a beneficiários de programas sociais. Não necessariamente proibição total.
Mas essas alternativas exigem regulação forte e fiscalização contínua. Nem sempre o Brasil consegue fazer isso bem.
Verdade. Por isso o receio de insegurança jurídica que aparece nos comentários. Os empresários não confiam que a proibição será implementada de forma efetiva.
O Pulso
- 66% dos pequenos empresários apoiam a proibição das bets (57% totalmente favoráveis, 8,8% parcialmente)
- 33% perceberam clientes com menos dinheiro disponível; 40% das empresas com funcionários relatam impactos das apostas
- Pesquisa ouviu 1.028 microempreendedores em outubro de 2026, com setor de serviços representando 53,2% dos respondentes
Dois terços dos pequenos empresários favorecem a proibição das apostas online, com 57% totalmente favoráveis e 8,8% parcialmente favoráveis à medida. Um terço dos entrevistados percebeu clientes com menos dinheiro disponível, enquanto 40% das empresas com funcionários relatam impactos das bets nas equipes, incluindo endividamento e queda de produtividade.
Pesquisa do Sebrae com mais de mil empresários mostra que 66% dos donos de pequenos negócios brasileiros apoiam a proibição das bets, citando impactos negativos no consumo local e endividamento de clientes.
Dois em cada três donos de pequenos negócios no Brasil querem que as apostas online desapareçam. Essa é a conclusão de um levantamento nacional do Sebrae que ouviu mais de mil empresários espalhados pelas 27 unidades da Federação no início de outubro. A pesquisa, intitulada "Percepção dos pequenos negócios sobre o fim das Bets", entrevistou microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte, com o setor de serviços representando mais da metade dos respondentes, seguido pelo comércio, indústria, construção e agronegócio.
O apoio à proibição é robusto: 57% dos entrevistados se posicionam totalmente a favor, enquanto outros 8,8% apoiam a medida de forma parcial. Isso soma os 66% mencionados no levantamento. Em contrapartida, 23,5% se opõem à ideia, sendo 17% completamente contrários. Ainda há 9,9% que se declaram indiferentes e 0,9% que não souberam opinar. Quando perguntados sobre os possíveis efeitos econômicos da proibição, os empresários atribuíram uma nota média de 6,1 em uma escala de zero a dez, com quase um quarto dos respondentes concedendo a nota máxima ao impacto esperado.
O que move essa posição é uma mudança concreta no comportamento dos consumidores. Um terço dos entrevistados percebeu que seus clientes têm menos dinheiro disponível para gastar. Dezoito por cento observaram aumento da inadimplência ou atrasos nos pagamentos. Onze e meio por cento registraram mais pedidos de parcelamento ou compras fiadas. Dez por cento afirmaram que houve migração para produtos mais baratos. Décio Lima, presidente do Sebrae, resumiu o fenômeno de forma direta: o dinheiro que antes circulava no comércio local migrou para as plataformas de jogos online, afetando diretamente o caixa dos pequenos negócios.
Os impactos não se limitam aos clientes. Entre os empreendimentos que possuem funcionários, 40% identificaram efeitos das apostas online sobre suas equipes. Os relatos coletidos pelo Sebrae mencionam endividamento de trabalhadores, pedidos frequentes de adiantamento salarial, queda de produtividade e até apostas durante o expediente. Há também referências a noites mal dormidas e dificuldades financeiras que interferem na rotina profissional. Quase metade dos empreendedores deixou comentários espontâneos sobre o tema, e a análise dessas manifestações identificou o vício em jogos como a principal preocupação, acompanhado de endividamento e problemas familiares.
Apesar do apoio majoritário à proibição, existe uma tensão subjacente. Parte dos empresários demonstrou receio de que os apostadores simplesmente migrem para plataformas clandestinas, transferindo o problema para fora do alcance regulatório. Diante dessa preocupação, surgiram sugestões de alternativas: regras mais rígidas para o setor, limites de apostas por CPF, restrições à publicidade e medidas específicas de proteção a beneficiários de programas sociais. Também foram registradas críticas à insegurança jurídica de uma proibição total, especialmente considerando as autorizações já concedidas a empresas do setor. Uma parcela minoritária defendeu a liberdade de escolha individual e a educação financeira como formas de enfrentar os problemas associados às apostas, argumentando que a responsabilidade deveria recair sobre o consumidor, não sobre a restrição legal.
O levantamento revela uma população de pequenos empresários preocupada com o efeito cascata das apostas online na economia local. Não se trata apenas de uma questão moral ou de saúde pública, embora esses elementos apareçam nos comentários. É uma questão de fluxo de caixa, de inadimplência, de produtividade reduzida e de consumo desviado. O que fica em aberto é como uma eventual proibição será implementada e se conseguirá evitar que o mercado simplesmente se desloque para a clandestinidade, onde nenhuma proteção ao consumidor ou ao trabalhador seria possível.
Citações Notáveis
Os dados mostram com clareza que o recurso antes destinado ao consumo de bens, produtos e serviços no comércio local acabou migrando para os jogos on-line, afetando diretamente o caixa dos pequenos negócios— Décio Lima, presidente do Sebrae