39% de crianças e adolescentes usam IA como companhia, revela pesquisa

Crianças e adolescentes correm risco de isolamento social, dificuldades no desenvolvimento de habilidades sociais e possível surgimento de transtornos como fobia social ao substituir relacionamentos humanos por interações com IA.
A máquina oferece validação sem crítica, nunca uma palavra de desaprovação
Psicólogos alertam que a inteligência artificial reforça comportamentos disfuncionais através de validação excessiva.
Mark

Por que uma criança escolheria conversar com um chatbot em vez de com um amigo?

Mimi

Porque o chatbot nunca discorda. Nunca diz "você está errado" ou "isso não é legal". Sempre valida. Para uma criança que se sente invisível ou incompreendida em casa ou na escola, é um alívio.

Mark

Mas isso não é conexão real, certo?

Mimi

Não é. E aí está o problema. A criança sente que está conectada, mas está cada vez mais sozinha. A máquina preenche o vazio, mas não resolve o que causou o vazio.

Mark

Os pais conseguem controlar isso?

Mimi

Oitenta e oito por cento dizem que impõem limites. Mas mais da metade dos filhos consegue contorná-los. É como tentar guardar água nas mãos.

Mark

Então qual é a solução?

Mimi

Não é proibir a tecnologia. É criar regras, sim, mas também — e isso é o mais importante — criar espaço real para que a criança se sinta ouvida e acolhida. Se ela encontrar isso em casa, talvez não procure tanto na máquina.

Mark

E se não encontrar?

Mimi

Aí precisamos de terapia, de intervenção profissional. A IA não substitui isso. Nenhuma máquina substitui.

  • Quase 4 em cada 10 jovens brasileiros buscam na IA a validação emocional que não encontram em seus vínculos reais — e a prática cresce silenciosamente dentro de lares onde 67% dos pais sabem que os filhos usam o ChatGPT.
  • Psicólogos alertam que a troca de conversas humanas por diálogos com algoritmos pode atrofiar habilidades sociais essenciais, aprofundar o isolamento e, em casos extremos, desencadear fobias sociais em adolescentes.
  • O controle parental enfrenta uma brecha real: 88% dos pais dizem impor limites ao tempo de tela, mas 58% admitem que os filhos conseguem contorná-los — e os dados revelam jovens acessando conteúdo explícito, sites bloqueados e até situações de cyberbullying.
  • Especialistas defendem que a IA pode ser uma ferramenta útil, mas exigem regulamentações específicas e presença humana ativa, pois a validação irrestrita das máquinas pode mascarar o isolamento com a ilusão de conexão.

Em um tempo em que as máquinas aprendem a ouvir, quase quatro em cada dez crianças e adolescentes brasileiros passaram a buscá-las como confidentes. Uma pesquisa divulgada em julho de 2025 revelou que 39% dos jovens recorrem à inteligência artificial — sobretudo ao ChatGPT — em busca do acolhimento que não encontram em casa, na escola ou entre amigos. O fenômeno coloca diante da sociedade uma pergunta antiga com roupagem nova: o que acontece com uma geração que aprende a se sentir compreendida por um espelho que nunca discorda?

Uma pesquisa divulgada em julho de 2025 pela empresa de cibersegurança Gen trouxe um dado que merece atenção: 39% das crianças e adolescentes brasileiros recorrem à inteligência artificial — principalmente ao ChatGPT — em busca de apoio emocional e validação. O fenômeno, que já vinha sendo observado entre adultos, expandiu-se para uma geração inteira que cresce com acesso irrestrito a essas tecnologias.

Segundo a psicóloga clínica Elisa Lima, muitos jovens chegam à IA porque não se sentem verdadeiramente compreendidos nos ambientes onde vivem. A máquina oferece o que pessoas reais muitas vezes não oferecem: respostas que confirmam o que o jovem quer ouvir, sem crítica, sem desaprovação. Um espelho que sempre concorda. Mas esse espelho tem um custo: ao substituir trocas humanas por diálogos com algoritmos, os adolescentes perdem a complexidade, a frustração e o aprendizado que só o contato real proporciona.

A psicóloga Henza Rafaela Morandi, especialista em terapia cognitivo-comportamental, aponta riscos concretos: isolamento progressivo, atrofia das habilidades sociais e, em casos extremos, o surgimento de fobias sociais. O psicólogo Breno Rosostolato concorda que a IA pode ser útil, mas defende que faltam estrutura, leis específicas e regulamentações que tornem o ambiente virtual um espaço de responsabilidade.

Entre os pais, o cenário é paradoxal. Sessenta e sete por cento sabem que os filhos usam o ChatGPT; 64% acreditam que a ferramenta pode estimular aprendizado. Mas 58% admitem que os filhos conseguem contornar os limites impostos. Os dados revelam ainda que 39% dos jovens usam dispositivos após a hora de dormir, 17% acessam sites bloqueados e 14% assistiram a conteúdo explícito.

Inaiara Maria Oliveira, manicure de 34 anos com seis filhos, tenta equilibrar esse terreno monitorando o uso da internet e mantendo diálogo aberto com a filha de 16 anos, que usa o ChatGPT para estudar e criar conteúdo — sempre sob supervisão. Sua estratégia resume o que os especialistas pedem: reconhecer que a tecnologia está presente, mas insistir em que a presença humana ainda importa. O perigo maior, afinal, pode não ser o isolamento em si, mas a ilusão de conexão que o mascara.

Quase quatro em cada dez crianças e adolescentes brasileiros estão procurando companhia em máquinas. Uma pesquisa divulgada em julho pela empresa de cibersegurança Gen, realizada entre abril e maio deste ano com mais de mil adultos, revelou que 39% dos jovens recorrem à inteligência artificial — principalmente ao ChatGPT — em busca de apoio emocional e validação. O fenômeno não é isolado: adultos já vinham usando ferramentas como o ChatGPT para fazer algo próximo a terapia, mas agora a prática se expandiu para uma geração inteira de crianças e adolescentes que crescem com acesso a essas tecnologias.

Os motivos por trás dessa busca são tão humanos quanto preocupantes. Segundo a psicóloga clínica Elisa Lima, muitos jovens chegam à inteligência artificial porque não recebem apoio emocional adequado ou não se sentem verdadeiramente compreendidos nos ambientes onde vivem — na família, na escola, entre amigos. A máquina oferece algo que pessoas reais muitas vezes não oferecem: validação sem crítica, respostas que confirmam o que o jovem quer ouvir, nunca uma palavra de desaprovação. É um espelho que sempre concorda.

Mas esse espelho tem um custo. Quando adolescentes substituem conversas com pares por diálogos com algoritmos, perdem algo essencial para crescer: a experiência de trocas sociais reais, com toda sua complexidade, frustração e aprendizado. A psicóloga Henza Rafaela Morandi, especialista em terapia cognitivo-comportamental com foco em crianças e adolescentes, aponta que essa substituição cria riscos concretos. O isolamento pode se aprofundar. As habilidades sociais — aquelas que se desenvolvem apenas na prática, no erro, na negociação com outras pessoas — podem atrofiar. E em casos extremos, fobias sociais podem emergir.

O psicólogo Breno Rosostolato reconhece que a inteligência artificial pode ser uma ferramenta útil, mas insiste que não deve ser a principal. O que falta, segundo ele, é estrutura: regras, leis específicas, regulamentações que transformem o ambiente virtual em um lugar de responsabilidade e cuidado, não um espaço solto onde crianças navegam sozinhas.

Entre os pais, a situação é paradoxal. Sessenta e sete por cento dos entrevistados disseram que seus filhos usam ChatGPT. Sessenta e quatro por cento acreditam que o uso pode estimular aprendizado e criatividade — e há casos em que isso é verdade. Mas oitenta e oito por cento afirmam impor limites ao tempo de tela. Cinquenta e oito por cento, porém, reconhecem que os filhos conseguem contornar essas restrições. Trinta e seis por cento das crianças confessam quando burlam as regras; vinte e quatro por cento são descobertas pelos pais.

Inaiara Maria Oliveira, manicure de 34 anos com seis filhos, tenta navegar esse terreno. Ela monitora o uso da internet pelos filhos e mantém diálogo aberto com a filha mais velha, Ana Lívia, de 16 anos, que usa ChatGPT para estudar, buscar inspirações de decoração e criar conteúdo para redes sociais — tudo sob supervisão. "Tento manter um diálogo com a Ana, até mesmo para ela se sentir acolhida", diz. É uma estratégia que reconhece a realidade: a tecnologia está aí, mas a presença humana ainda importa.

Os riscos vão além do isolamento. A pesquisa revelou que trinta e nove por cento dos jovens já foram flagrados usando dispositivos após a hora de dormir. Dezessete por cento acessaram sites bloqueados. Quatorze por cento assistiram a conteúdo explícito. Seis por cento se envolveram em cyberbullying. São números que sugerem uma geração navegando sozinha em águas profundas.

O que os especialistas veem, no fundo, é uma criança ou adolescente que não encontra em seus vínculos reais — família, escola, amigos — o acolhimento e a sensação de pertencimento que precisa. A inteligência artificial preenche esse vazio, mas de forma que pode reforçar comportamentos disfuncionais. Sem crítica, sem frustração, sem o atrito necessário para crescer. A máquina valida tudo, e nessa validação sem limites pode estar o perigo maior: não o isolamento em si, mas a ilusão de conexão que o mascara.

Quando as pessoas se sentem mais seguras na internet do que na vida real, existe um problema, uma dificuldade, uma dor e um sofrimento
— Psicólogo especialista em desenvolvimento emocional
O ambiente virtual precisa ser um lugar de cuidado, ter responsabilidade, não pode ser solto. Precisa haver regras, leis específicas e regulamentações
— Breno Rosostolato, psicólogo
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