27 milhões de brasileiros convivem com enxaqueca sem diagnóstico

Milhões de brasileiros sofrem incapacidade funcional, comprometimento da qualidade de vida, ansiedade, depressão e distúrbios do sono decorrentes da enxaqueca não diagnosticada e não tratada adequadamente.
Se eu tivesse recebido orientação adequada no começo, talvez não tivesse chegado ao ponto em que cheguei
Marina reflete sobre os 25 anos que levou para receber diagnóstico e tratamento adequados para sua enxaqueca.

A enxaqueca é doença neurológica invisível sem exame confirmatório; diagnóstico depende apenas do relato do paciente, dificultando identificação precoce. Mulheres representam 75% dos diagnosticados; fatores hormonais, genéticos e sobrecarga social aumentam prevalência no sexo feminino.

  • 27 milhões de brasileiros convivem com enxaqueca sem diagnóstico formal
  • Mulheres representam 75% dos pacientes diagnosticados
  • Enxaqueca crônica: crises em mais de 15 dias por mês durante pelo menos três meses
  • Anvisa aprovou rimegepanto (Nurtec ODT) para tratamento e prevenção

Pesquisa revela que 27 milhões de brasileiros sofrem com enxaqueca sem diagnóstico formal, enquanto apenas 23 milhões têm a doença confirmada. Desconhecimento, automedicação e falta de acesso a especialistas explicam a subnotificação.

Marina Goulart tinha 14 anos quando as dores de cabeça começaram. Na época, ela as atribuía às transformações naturais da adolescência, mas logo se tornaram frequentes demais para ignorar. Idas ao pronto-socorro se multiplicaram. Os analgésicos não funcionavam — ela chegou a consumir uma cartela inteira de medicamento num único dia. O que ninguém lhe disse era que aquilo não era apenas uma dor de cabeça comum. Era enxaqueca, uma doença neurológica que levaria anos para ser identificada.

A confusão entre os tipos de dor é tão comum quanto a própria doença. Uma dor de cabeça é um sintoma; a enxaqueca é uma condição neurológica. A forma crônica é ainda mais grave: crises em mais de 15 dias por mês durante pelo menos três meses. Os episódios provocam dores de intensidade moderada a forte, geralmente de um lado da cabeça, com sensação de pulsação. Vêm acompanhados de sensibilidade à luz e ao som, náuseas e vômitos. Segundo Mário Peres, presidente da Associação Brasileira de Cefaleia em Salvas e Enxaqueca, o diagnóstico é particularmente difícil porque não existe exame de sangue ou imagem que confirme a doença. Tudo depende do que o paciente relata.

A história de Marina reflete uma realidade que atinge dezenas de milhões de brasileiros. Uma pesquisa da Teva Brasil com apoio da Abraces estimou que 27 milhões de pessoas convivem com enxaqueca sem diagnóstico formal. O país tem cerca de 23 milhões de pacientes diagnosticados — o que significa que para cada brasileiro que sabe ter a doença, há pelo menos outro enfrentando os sintomas sem acompanhamento adequado. O estudo, que incluiu 2 mil entrevistas em 132 municípios e 408 entrevistas com pessoas diagnosticadas, apontou três culpados principais: desconhecimento sobre a doença, automedicação e dificuldade de acesso a especialistas. A enxaqueca pertence ao grupo das doenças invisíveis, aquelas que não deixam marcas visíveis mas comprometem profundamente a vida de quem as tem.

Marina passou por neurologistas, realizou exames e ouviu diferentes hipóteses. O diagnóstico confirmado chegou aos 18 anos, mas sem orientações adequadas sobre como tratar. Ela recebeu o diagnóstico, mas não um tratamento específico. A falta de cuidado adequado pode levar à progressão da doença. Com o aumento da frequência das crises, a enxaqueca se torna mais incapacitante, comprometendo a qualidade de vida e elevando o risco de ansiedade, depressão e distúrbios do sono. Pacientes com crises recorrentes precisam ser avaliados para iniciar tratamento preventivo — algo que Marina não recebeu no início.

As mulheres são as mais afetadas. Elas representam 75% dos pacientes diagnosticados e 63% daqueles com sintomas compatíveis mas sem confirmação médica. A prevalência maior está associada a uma combinação de fatores hormonais, genéticos e sociais. As oscilações do estrogênio exercem influência direta sobre as crises. A predisposição hereditária contribui para o desenvolvimento da doença. Além disso, a sobrecarga da dupla jornada — responsabilidades profissionais, domésticas e familiares — pode aumentar a frequência dos episódios. No caso de Marina, as crises afetavam tanto a vida profissional quanto a pessoal. A fotofobia era tão intensa que em alguns momentos ela não conseguia nem olhar para a tela do celular. Acostumada a trabalhar mesmo durante os episódios, ela descobriu que o impacto ia além da dor física. Havia o sofrimento de não conseguir fazer as coisas, mas também a culpa que vinha com cada nova crise.

Recentemente, a Anvisa aprovou o registro do Nurtec ODT, um medicamento à base de rimegepanto indicado tanto para tratar as crises quanto para preveni-las. O remédio bloqueia a ação da CGRP, uma proteína relacionada aos mecanismos da doença. Nos estudos clínicos, cerca de 20% dos pacientes ficaram livres da dor duas horas após o uso. Nos protocolos de prevenção, o tratamento também reduziu o número mensal de crises. Para a neurologista Thaís Villa, especialista em diagnóstico e tratamento de enxaqueca, o rimegepanto representa um avanço em relação às opções tradicionais — uma medicação desenvolvida especificamente para a enxaqueca, com melhor tolerabilidade do que analgésicos, anti-inflamatórios e triptanos. Não é indicado para todos, porém. A principal contraindicação é hipersensibilidade ao princípio ativo. Pessoas com insuficiência renal ou hepática precisam de avaliação médica antes de iniciar o tratamento. A escolha do tratamento ideal deve ser individualizada, considerando frequência das crises, perfil clínico, adesão e custo-benefício.

Marina só iniciou um tratamento específico aos 39 anos. Além dos medicamentos, incorporou mudanças na rotina: exercícios físicos regulares, horários fixos para dormir e acordar. Quando finalmente chegou a um especialista em cefaleia, a doença já havia evoluído para a forma crônica. Ela lamenta não ter recebido orientação adequada no começo. Hoje, a frequência das crises é significativamente menor. Há períodos de até três meses sem episódios incapacitantes. A qualidade de vida melhorou, o sono melhorou, a tranquilidade para fazer as coisas do dia a dia melhorou. Tudo melhorou. Mas o caminho até ali foi longo demais.

Não existe um exame de sangue ou imagem que confirme a enxaqueca. O diagnóstico depende do relato do paciente
— Mário Peres, presidente da Associação Brasileira de Cefaleia em Salvas e Enxaqueca
É uma medicação desenvolvida especificamente para a enxaqueca, com melhor perfil de tolerabilidade do que analgésicos, anti-inflamatórios e triptanos
— Thaís Villa, neurologista especialista em enxaqueca
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que a enxaqueca demora tanto a ser diagnosticada se afeta tantas pessoas?

Model

Porque não há exame que a confirme. Não é como uma infecção bacteriana ou uma fratura. O diagnóstico depende inteiramente do que o paciente relata ao médico, e muitos médicos generalistas não sabem reconhecer os sinais.

Inventor

E por que as mulheres são tão mais afetadas?

Model

É uma combinação de fatores. Os hormônios — especialmente o estrogênio — influenciam diretamente as crises. Há também predisposição genética. Mas há algo mais: a sobrecarga social. Mulheres carregam responsabilidades profissionais, domésticas e familiares simultaneamente, e o estresse amplifica a frequência dos episódios.

Inventor

Marina levou 25 anos para receber tratamento adequado. Isso é comum?

Model

Infelizmente, sim. Muitas pessoas passam anos tomando analgésicos aleatoriamente, achando que é apenas uma dor de cabeça forte. Quando finalmente chegam a um especialista, a doença já evoluiu para formas mais graves e incapacitantes.

Inventor

O novo medicamento muda isso?

Model

Pode mudar, mas apenas se as pessoas forem diagnosticadas. O rimegepanto é um avanço real — bloqueia a proteína que causa a doença, não apenas mascara a dor. Mas de nada adianta se 27 milhões de brasileiros nem sabem que têm enxaqueca.

Inventor

Então o problema não é só médico, é também de acesso?

Model

Exatamente. Desconhecimento, automedicação, falta de acesso a especialistas. São barreiras que mantêm milhões de pessoas sofrendo desnecessariamente, quando há tratamentos eficazes disponíveis.

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