Cinquenta anos após a transição democrática portuguesa, a memória dos que a construíram enfrenta uma ameaça silenciosa: a reapropriação da narrativa por aqueles que dela estiveram ausentes. Com a morte de Ernesto Melo Antunes — ideólogo do Grupo dos 9 e arquiteto do 25 de Novembro — desapareceu uma das últimas vozes capazes de testemunhar em primeira mão o que realmente aconteceu. No vazio deixado pelos protagonistas, prospera o revisionismo, e a história converte-se em palco para quem nunca nela pisou.
25 de novembro, o novo dia das mentiras
Ou então sabem demasiadamente bem
O que o move a escrever isto agora, especificamente no 25 de Novembro?
É uma questão de memória. Quando vê políticos que não estiveram lá a apropriarem-se da narrativa daqueles que estiveram, sente que algo fundamental está a ser roubado.
Mas o artigo não especifica exatamente que decreto ou que políticas concretas estão a ser revistas. Sabemos que critica Nuno Melo e o Chega, mas quais são as ações específicas?
É verdade que o tom é mais impressionista do que factual. O que o autor está a fazer é uma crítica moral à apropriação da história, não uma análise de políticas específicas.
E a referência ao Chega e aos «bombistas saudosos de Salazar» — isso é verificável?
Aí está o problema. O artigo faz uma acusação muito séria sem documentação. Diz que alguém do Chega «privava com bombistas», mas não oferece provas, datas, ou nomes específicos.
O autor está a escrever opinião, não reportagem. Mas Luke tem razão — a força da acusação exigia mais substância.
E quanto a Ernesto Melo Antunes? Ele realmente foi tão central quanto o artigo sugere?
Sim, historicamente Melo Antunes foi uma figura-chave. Ideólogo do Grupo dos 9, próximo de Mário Soares, envolvido nas negociações de descolonização.
Mas o artigo não oferece datas, não cita documentos, não dá contexto sobre o que o Grupo dos 9 realmente fez. É mais uma invocação do que uma explicação.
Então o que fica ao leitor que não conhece bem este período?
Fica a sensação de que algo importante está a ser traído, mas sem entender exatamente o quê ou como.
Exatamente. É um artigo que funciona para quem já sabe, mas deixa o resto de nós um pouco perdidos.
The Pulse
- A morte de Ernesto Melo Antunes fechou para sempre uma porta: a possibilidade de ouvir, da boca de um protagonista real, como se construiu a democracia portuguesa.
- Políticos como Nuno Melo e figuras do Chega apropriam-se da narrativa do 25 de Novembro como se fossem seus autores, apagando os que verdadeiramente arriscaram e decidiram.
- O autor compara esta inversão histórica a um absurdo lógico — seria como os pastorinhos de Fátima reivindicarem a autoria de Nossa Senhora — expondo a dimensão quase cómica da audácia revisionista.
- Por detrás da ironia, a acusação é grave: estes políticos ou ignoram a história que reescrevem, ou sabem exatamente o que fazem — e nenhuma das hipóteses é inocente.
- A filha de Melo Antunes, Joana, surge como figura silenciosa que carrega a memória viva do pai, testemunha involuntária de uma afronta à herança que ele deixou.
Cinquenta anos após a transição democrática portuguesa, a memória dos que a construíram enfrenta uma ameaça silenciosa: a reapropriação da narrativa por aqueles que dela estiveram ausentes. Com a morte de Ernesto Melo Antunes — ideólogo do Grupo dos 9 e arquiteto do 25 de Novembro — desapareceu uma das últimas vozes capazes de testemunhar em primeira mão o que realmente aconteceu. No vazio deixado pelos protagonistas, prospera o revisionismo, e a história converte-se em palco para quem nunca nela pisou.
Há mais de uma década, o autor cruzou-se brevemente com Joana Melo Antunes — uma presença discreta e luminosa que ficou na memória. Antes disso, tinha encontrado o pai dela, Ernesto Melo Antunes, com quem marcou uma entrevista que nunca chegou a acontecer. Melo Antunes morreria pouco depois, levando consigo o testemunho direto de um dos grandes arquitetos do 25 de Novembro.
Ernesto Melo Antunes foi ideólogo do Grupo dos 9 e o mais próximo aliado militar de Mário Soares durante a transição democrática. Esteve no centro das decisões sobre a guerra colonial, a descolonização e os primeiros passos da democracia. Com a sua morte, desapareceu uma das últimas pontes vivas com aquele período.
O que traz o autor de volta a esta memória é uma onda de revisionismo que o irrita profundamente. Políticos contemporâneos — nomeadamente Nuno Melo e membros do Chega — apresentam-se agora como arquitetos da liberdade portuguesa, quando historicamente não tiveram qualquer papel nesse processo. O autor vê nisto uma reescrita patética e audaciosa do passado.
A comparação que propõe é deliberadamente absurda: seria como Jerónimo de Sousa e Louçã defenderem o 28 de Maio, ou como os pastorinhos de Fátima reivindicarem a autoria de Nossa Senhora. O que o indigna não é apenas a desonestidade histórica, mas a desenvoltura com que certos políticos — alguns deles, segundo o autor, ligados a saudosistas do regime — se colocam agora como guardiões da democracia.
O texto termina com uma ironia cortante dirigida a Joana Melo Antunes: «Perdoa-lhes, Joana, eles não sabem o que fazem.» Mas a ressalva que se segue desfaz qualquer clemência — porque talvez saibam demasiadamente bem.
Há mais de uma década, o autor esteve numa reunião com Joana Melo Antunes. Os detalhes da conversa desapareceram da memória, mas a impressão que ela deixou permaneceu — uma mulher discreta e luminosa, sentada quase à cabeceira da mesa, alguém que valia a pena conhecer. Essa mesma sensação o havia tocado anos antes, num único encontro breve com o pai dela, Ernesto Melo Antunes. Marcaram uma entrevista que nunca aconteceu. Melo Antunes morreria pouco depois, levando consigo a oportunidade de conversar com um dos grandes arquitetos do 25 de Novembro.
Ernesto Melo Antunes foi ideólogo do Grupo dos 9, o mais próximo aliado militar de Mário Soares durante a transição democrática portuguesa. Esteve no centro das decisões sobre a guerra colonial, a descolonização, a negociação com Cunhal nos primeiros passos da democracia. Era um protagonista vivo daquele momento. Agora está morto, e com ele desapareceu a possibilidade de ouvir em primeira mão o testemunho de quem realmente moldou aquele período.
O que traz o autor a pensar novamente em Melo Antunes e em sua filha é uma onda de revisionismo histórico que o irrita profundamente. Certos políticos contemporâneos, à força de decreto, inventaram uma narrativa privativa do 25 de Abril, apropriando-se da história da liberdade e dos direitos como se fossem seus criadores. O autor vê nisto uma patética reescrita do passado.
Nomeadamente, critica Nuno Melo e membros do Chega — políticos que, segundo o autor, não tiveram qualquer papel na construção da democracia portuguesa, mas agora se apresentam como seus arquitetos. O autor compara a absurdidade desta apropriação a um cenário impossível: seria como se Jerónimo de Sousa e Louçã defendessem o 28 de Maio, ou como se os pastorinhos de Fátima aparecessem para reivindicar a autoria de Nossa Senhora.
O que o irrita não é apenas a desonestidade histórica, mas a audácia com que certos políticos — incluindo aquele senhor do Chega que, segundo o autor, privava com bombistas saudosos de Salazar — se colocam agora como guardiões da liberdade. É uma inversão completa da verdade histórica, um roubo da narrativa aos que realmente a viveram e construíram.
O autor imagina o que passa pela cabeça de Joana Melo Antunes ao ver esta «tropa fandanga» que parecia encafuada num armário emergir agora como criadora da liberdade e dos direitos. É uma provocação à memória, uma afronta àqueles que estiveram lá, que sabem o que realmente aconteceu.
A conclusão é amarga e irónica. O autor pede perdão para estes políticos revisionistas — «Perdoa-lhes, Joana, eles não sabem o que fazem» — mas acrescenta uma ressalva cortante: ou então sabem demasiadamente bem. A implicação é clara: ou são ignorantes da história que reescrevem, ou estão deliberadamente a distorcê-la. Nenhuma das opções é reconfortante.
Notable Quotes
Perdi a minha hipótese de falar com o grande arquiteto do 25 de Novembro— O autor, sobre a morte de Ernesto Melo Antunes