Zebrinha leva força da cultura afro para Bienal Sesc de Dança em São Paulo

Eu venho sem saber muito o que fazer, porque eu não sei quem vou encontrar
Zebrinha explica sua abordagem improvisada às aulas de dança, deixando o grupo moldar o que será ensinado.

Zebrinha comanda oficina de dança afro-brasileira com alunos de todas as idades, apresentando passos contemporâneos do Balé Folclórico da Bahia. O coreógrafo improvisa suas aulas conforme a energia do grupo, utilizando técnicas ancestrais para despertar a memória corporal e a memória preta dos participantes.

  • Zebrinha comanda oficina de dança afro-brasileira na 14ª Bienal Sesc de Dança em Campinas
  • Alunos de todas as idades e gêneros participaram da aula de passos contemporâneos
  • A Bienal segue até 5 de outubro com programação gratuita e paga

O coreógrafo Zebrinha apresenta oficina de dança afro-brasileira na 14ª Bienal Sesc de Dança, reafirmando a presença baiana no festival e a importância de preservar a cultura negra através da dança contemporânea.

A Bahia não solta seu domínio sobre a 14ª Bienal Sesc de Dança. Depois que o Balé Folclórico da Bahia abriu o festival na quinta-feira, 25 de setembro, foi a vez de Zebrinha — José Carlos Arandiba — trazer a força da dança afro-brasileira para o palco na sexta-feira, 26. Não em uma apresentação convencional, mas em uma oficina que reuniu pessoas de todas as idades e gêneros, desde jovens até idosos, todos ali para aprender os passos contemporâneos que marcam o trabalho da companhia baiana.

Zebrinha é coreógrafo e diretor artístico do BFB, e sua abordagem à aula revela algo fundamental sobre como ele entende seu trabalho. Quando conversou com o Portal A TARDE, explicou que a dança, para ele, é um instrumento de preservação — um jeito de manter viva e transmitir a cultura negra para outras gerações. Mas há algo de desarmado em seu método. Ele não chega com um plano pronto. Não ensaia a aula de antemão. Chega ao local, sente a energia do grupo que encontra, e a partir dali constrói tudo.

"Quando eu faço esse tipo de ação, eu não chamo nem troca, mas de verdade. Eu venho sem saber muito o que fazer, porque eu não sei quem eu vou encontrar", disse. Essa abertura — essa disposição de deixar o grupo moldar o que acontece — é onde Zebrinha acredita que reside a magia. A partir dos corpos que estão ali diante dele, ele cria uma didática, improvisa uma estrutura. E o resultado, segundo ele, é sempre surpreendente.

O que torna isso possível é o que ele chama de "armas e técnicas ancestrais". Não são movimentos soltos ou improvisados sem raiz. São técnicas que vêm de longe, que carregam memória. E quando usadas dessa forma — flexível, atenta, responsiva — conseguem despertar algo nos corpos dos alunos. Zebrinha fala em "memória do corpo", mas depois corrige: "A memória preta, quero dizer". Essa precisão de linguagem importa. Não é apenas memória muscular. É memória que é negra, que é ancestral, que é política.

Ao final da aula, Zebrinha compartilhou suas próprias experiências com a dança com os participantes — um gesto que completa o círculo. Não é apenas técnica sendo transmitida de cima para baixo. É uma conversa, uma troca de vivências. A oficina, assim, se torna um espaço onde a cultura afro-brasileira não é apenas apresentada, mas respirada, sentida, incorporada.

A 14ª Bienal Sesc de Dança segue até 5 de outubro em Campinas, que sedia o evento pela décima vez. A programação é ampla: apresentações gratuitas e pagas, performances de rua, intervenções em espaços públicos, atividades para crianças e famílias, além de oficinas e encontros teórico-práticos com artistas nacionais e internacionais. Os ingressos podem ser adquiridos online pelo app Credencial Sesc SP ou nas bilheterias das unidades do Sesc SP. A presença baiana continua marcando o tom do festival, e Zebrinha é parte central dessa força que segue ecoando pelos palcos e salas de aula da Bienal.

A essência da dança é preservar e perpetuar a cultura negra para outras pessoas
— Zebrinha
Usando as armas e as técnicas ancestrais a gente alcança esse objetivo, que é despertar a memória do corpo dessas pessoas. A memória preta, quero dizer
— Zebrinha
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que Zebrinha escolhe não preparar suas aulas com antecedência?

Model

Porque ele acredita que a verdadeira aprendizagem acontece no encontro entre corpos diferentes. Preparar uma aula fixa seria impor uma estrutura que não conhece quem vai estar ali. Ele prefere chegar aberto, sentir a energia do grupo, e deixar que isso guie o que ele ensina.

Inventor

Quando ele fala em "memória preta", o que exatamente ele quer dizer?

Model

Não é apenas a memória de como o corpo se move. É a memória que vem da ancestralidade africana, que está guardada nos gestos, nos ritmos, nas formas de estar no espaço. É memória que é política, que é resistência, que é identidade.

Inventor

A oficina reuniu pessoas de todas as idades. Como isso muda o que Zebrinha consegue fazer?

Model

Muda tudo. Quando há idosos, jovens, crianças no mesmo espaço, há gerações diferentes despertando a mesma memória. Não é apenas transmissão de técnica — é transmissão de cultura entre gerações, que é exatamente o que ele diz ser a essência da dança.

Inventor

Ele se descreve como "uma pessoa emocionada". Como isso se reflete no trabalho?

Model

Ele reconhece a emoção em si, mas quando entra na sala como professor, coloca isso de lado. Não é frieza — é profissionalismo. É saber que seu papel ali é servir a aprendizagem dos alunos, não sua própria expressão emocional.

Inventor

Por que a Bahia segue dominando essa Bienal?

Model

Porque tem uma tradição viva de dança afro-brasileira que não é apenas histórica — é contemporânea, está sendo criada agora. Zebrinha e o Balé Folclórico da Bahia representam isso: raízes profundas e inovação constante.

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