Foi o momento mais marcante das nossas vidas
Vozinha, goleiro de Cabo Verde, fará sua estreia em Copa do Mundo aos 40 anos, realizando sonho de carreira improvável que começou em 1986. Nomeado em homenagem ao lateral Josimar, ídolo do Botafogo, o goleiro construiu carreira em clubes semiprofissionais antes de chegar à Europa.
- Vozinha fará sua estreia em Copa do Mundo aos 40 anos, em 15 de junho de 2026
- Nomeado em homenagem a Josimar, lateral do Botafogo na Copa de 1986
- Capitão de Cabo Verde desde 2012, disputou quatro Copas Africanas de Nações
- Carreira profissional começou em 2012 em Angola; atua há duas temporadas no Chaves, Portugal
Aos 40 anos, Vozinha realiza seu maior sonho ao estrear na Copa do Mundo com Cabo Verde, enfrentando a Espanha. Sua trajetória começou em 1986 em São Vicente, batizado em homenagem a Josimar, lateral brasileiro do Mundial do México.
Aos 40 anos, Vozinha está prestes a viver o momento que pareceu impossível durante a maior parte de sua vida. O goleiro de Cabo Verde fará sua estreia em uma Copa do Mundo nesta segunda-feira, quando sua seleção — que participa da competição pela primeira vez — enfrenta a Espanha no Grupo H. É o ápice de uma trajetória que começou em 1986, quando nasceu em São Vicente, uma pequena ilha do arquipélago cabo-verdiano.
Seu pai, um militar chamado Zé Pedro, queria batizá-lo com o nome de Valdano, o atacante argentino que brilhou na Copa do México naquele ano. As autoridades locais recusaram. A segunda opção veio de outra figura daquele mesmo torneio: Josimar, o lateral-direito brasileiro do Botafogo que marcou dois gols memoráveis contra Irlanda do Norte e Polônia. O nome escolhido — Josimar José Évora Dias — foi aceito. "Meu pai e minha avó torciam pelo Brasil. Meu pai gostava muito do Josimar", contou o goleiro em entrevista exclusiva.
Mas o futebol o conheceria por outro nome. Criado pelos avós, Maria Senhorinha dos Santos e Manuel da Luz Moraes, Josimar era uma criança competitiva demais, alguém que odiava perder. Cresceu em uma rua onde não havia meninos de sua idade, então jogava sempre com os mais velhos e levava pancadas. Era rebelde, sempre procurava dar o troco. "Muitas vezes ia com a cara trancada, chateada, cheia de raiva e falavam que eu ia fazer sempre queixas aos meus avós e começaram a me chamar de 'Vozinha'", explicou. O apelido que o deixava furioso no início ganhou outra dimensão com o tempo — virou uma homenagem aos avós que foram tão importantes em sua criação.
A carreira começou em clubes semiprofissionais de Cabo Verde, depois no Progresso Sambizanga, de Angola. "Não tive base ou aquela escola para me ensinar a ser goleiro e as técnicas. Foi sempre na minha força de vontade, no trabalhar, no saber ouvir e no saber aprender, que cheguei onde cheguei", disse. Em 2012, fez seu primeiro ano profissional. Sua estreia foi contra ninguém menos que Rivaldo, o pentacampeão mundial que defendia o Kabuscorp. Depois viajou para a Europa, passando pela Moldávia, Portugal e Chipre, onde ficou cinco anos no AEL Limassol. Há duas temporadas, defende o Chaves, da Segunda Liga Portuguesa. "Era o momento de regressar a um país onde falam a mesma língua. Um lugar onde a comida e a cultura são um pouco idênticas à nossa. E um país mais perto de casa", explicou a escolha.
Vozinha é capitão de Cabo Verde desde que começou a defender a seleção em 2012, e já disputou quatro edições da Copa Africana de Nações. Mas nada se compara ao que sente agora. "Ver as pessoas chorando de alegria, um choro de orgulho, de sentimento, de pertencimento ao país. A seleção uniu o povo", disse, emocionado. "Acho que foi o momento mais marcante das nossas vidas. E também do povo cabo-verdiano, porque foi um momento único, um sonho de várias gerações."
Sua conexão com o Brasil vai muito além do nome que recebeu. Vozinha é fã da cultura brasileira — tem um irmão que mora em Recife e cresceu assistindo a novelas como Malhação, Xica da Silva e Rei do Gado. Ouve música brasileira desde criança: Ivete Sangalo, Seu Jorge, Cidade Negra, Revelação. Sua avó era fã de Roberto Carlos. Como goleiro, admirava Rogério Ceni, que batia faltas e pênaltis, além de Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho. Jogou com muitos brasileiros ao longo da carreira e carrega essa influência.
Há uma coincidência notável em sua história. Se Cabo Verde avançar às oitavas de final, poderá jogar no México — o mesmo país que sediou a Copa de 1986, o torneio que inspirou seu nome quarenta anos atrás. Nesta segunda-feira, às 13h (horário de Brasília), ele enfrenta a Espanha em seu primeiro jogo de Copa do Mundo, com transmissão ao vivo da CazéTV pelo Disney+.
Citações Notáveis
Não tive base ou aquela escola para me ensinar a ser goleiro. Foi sempre na minha força de vontade, no trabalhar, no saber ouvir e no saber aprender, que cheguei onde cheguei— Vozinha
Ver as pessoas chorando de alegria, um choro de orgulho, de sentimento, de pertencimento ao país. A seleção uniu o povo— Vozinha, sobre a estreia de Cabo Verde na Copa
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como é possível um goleiro chegar aos 40 anos e só agora disputar sua primeira Copa do Mundo?
Cabo Verde é um país pequeno, com futebol semiprofissional. Vozinha trabalhou muito para sair de lá, passou por Angola, Moldávia, Portugal, Chipre, Eslováquia. Levou tempo, mas nunca desistiu.
E o nome dele vem de um jogador que brilhou em 1986?
Exatamente. Seu pai queria chamá-lo de Valdano, mas não conseguiu. Escolheu Josimar, o lateral do Botafogo que marcou dois gols naquela Copa. Vozinha nasceu no dia 3 de junho de 1986, dias depois do torneio.
Então ele cresceu sabendo que tinha um nome de um craque?
Sim, mas o apelido "Vozinha" veio de outra coisa — ele era competitivo demais, rebelde, não aceitava perder. Os avós que o criaram reclamavam dele para os outros, e começaram a chamar assim. Com o tempo, virou uma homenagem a eles.
Qual é a chance real de Cabo Verde passar para as oitavas?
Enfrentam a Espanha nesta segunda. É uma seleção estreante, então as chances são pequenas. Mas se passarem, há uma simetria bonita: poderiam jogar no México, o mesmo país da Copa que inspirou seu nome.
Ele é fã do Brasil?
Muito. Cresceu vendo novelas brasileiras, ouve Ivete Sangalo desde criança, tem um irmão em Recife. Admirava Rogério Ceni como goleiro. O Brasil está em seu DNA de um jeito que vai além do futebol.