Todas as vacinas tiveram fase pré-clínica com animais
Em outubro de 2020, enquanto a pandemia ceifava mais de um milhão de vidas ao redor do mundo, uma afirmação médica falsa ganhou força nas redes sociais: a de que nenhuma vacina contra a covid-19 havia passado por testes pré-clínicos. A verificação dos fatos revelou o oposto — todas as quatro vacinas em desenvolvimento no Brasil completaram essa etapa obrigatória em animais antes de chegar aos humanos. É um lembrete de que, em tempos de crise, a desinformação não é apenas um erro intelectual; é uma ameaça concreta à vida coletiva.
- Um médico com credenciais institucionais afirmou publicamente que vacinas contra covid-19 pularam etapas obrigatórias de segurança — e o vídeo alcançou dezenas de milhares de visualizações antes de ser contestado.
- A afirmação era factualmente falsa: CoronaVac, AstraZeneca, BioNTech/Pfizer e Janssen-Cilag todas passaram por testes em animais, conforme confirmado por órgãos reguladores e pesquisadores independentes.
- Com 1,1 milhão de mortes globais e uma corrida científica sem precedentes, o contexto era fértil para o medo — e a desinformação sobre segurança de vacinas explorava exatamente essa vulnerabilidade.
- Jornalistas do Comprova consultaram a Conep, a Anvisa, imunologistas e publicações científicas para reconstruir o percurso real de cada vacina, da bancada do laboratório ao braço do voluntário.
- O médico não respondeu às tentativas de contato, e o hospital onde trabalha se distanciou de suas declarações — mas o conteúdo falso permanecia circulando, com danos já feitos à confiança pública.
Em outubro de 2020, com mais de um milhão de mortos pela covid-19 no mundo, um médico chamado Anthony Wong publicou um vídeo afirmando que nenhuma vacina contra o novo coronavírus havia passado pela fase pré-clínica de testes. O conteúdo acumulou 46 mil visualizações no YouTube e 6,3 mil no Twitter antes de ser investigado pelo Comprova. A afirmação era falsa.
A fase pré-clínica é a etapa em que imunizantes são testados em animais para verificar segurança e eficácia antes de qualquer contato com seres humanos. Longe de ser um detalhe burocrático, é um filtro crítico no desenvolvimento de qualquer vacina. Jorge Venâncio, coordenador da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, confirmou que todas as vacinas em teste no Brasil passaram por essa etapa.
A CoronaVac foi a primeira a demonstrar eficácia contra o SARS-CoV-2 em um macaco, resultado publicado pela revista Science em abril de 2020. A vacina de Oxford passou por múltiplos modelos animais antes de avançar. A Anvisa analisou explicitamente dados não clínicos ao autorizar os ensaios da BioNTech/Pfizer. A Janssen-Cilag foi testada em hamsters e macacos antes de ser oferecida a sete mil voluntários no Brasil.
Segundo Daniel Mansur, professor de Imunologia da UFSC, o protocolo exige testes em pelo menos dois animais — normalmente um roedor e um primata não humano. O cronograma foi acelerado pela urgência da pandemia, mas as etapas não foram suprimidas, conforme confirmado pela Organização Mundial da Saúde.
Wong trabalha no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da USP, mas a instituição informou que suas opiniões não representavam a posição oficial do hospital. Ele não respondeu às tentativas de contato. A verificação foi publicada em 22 de outubro de 2020 — um momento em que a desinformação sobre vacinas já havia se tornado, ela própria, um risco à saúde pública.
Em outubro de 2020, quando a pandemia de covid-19 já havia matado mais de um milhão de pessoas em todo o mundo, um médico chamado Anthony Wong fez uma afirmação que se espalharia pelas redes sociais: nenhuma vacina contra o novo coronavírus havia passado pela fase pré-clínica de testes. A afirmação era falsa. Todas as quatro vacinas em desenvolvimento no Brasil — CoronaVac, AstraZeneca, BioNTech/Pfizer e Janssen-Cilag — haviam completado essa etapa obrigatória antes de serem testadas em seres humanos.
A fase pré-clínica é o estágio em que um imunizante é aplicado em animais, ainda em laboratório, para determinar se é seguro o suficiente para avançar para testes humanos. Não é um detalhe técnico menor. É um filtro crítico que protege as pessoas. Segundo Jorge Venâncio, coordenador da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, o órgão responsável por autorizar pesquisas de vacinas no Brasil, todas as vacinas tiveram essa fase com animais. A afirmação de Wong, que trabalha no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da USP, foi divulgada em um vídeo que acumulou 6,3 mil visualizações no Twitter e 46 mil no YouTube.
A CoronaVac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, foi a primeira a demonstrar eficácia contra o vírus SARS-CoV-2 em um animal — um macaco — conforme publicado pela revista Science em abril de 2020. A vacina de Oxford, criada pela AstraZeneca em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz, passou por investigações pré-clínicas em vários modelos animais antes de avançar para testes humanos. A Anvisa, ao autorizar os ensaios da vacina BioNTech/Pfizer, analisou explicitamente dados de estudos não clínicos em animais. A vacina da Janssen-Cilag, com apoio do Instituto Butantan, foi testada em hamsters e macacos com bons resultados antes de ser oferecida a voluntários — sete mil pessoas no Brasil.
O processo de desenvolvimento foi acelerado porque a covid-19 era uma emergência global. Segundo dados da Universidade Johns Hopkins, havia mais de 40,9 milhões de infectados e 1,1 milhão de mortes no mundo naquele momento. A Organização Mundial da Saúde confirmou que o cronograma foi comprimido, mas os testes em animais não foram pulados. Eles são obrigatórios. Segundo Daniel Mansur, professor de Imunologia da Universidade Federal de Santa Catarina, o protocolo exige testes em pelo menos dois animais: primeiro um roedor, normalmente um camundongo, e depois um primata não humano. Os pesquisadores verificam se há efeitos colaterais graves e se há eficácia.
Se a vacina passar nessa etapa, ela avança para a fase 1 de testes em humanos, com grupos menores de 100 pessoas. Se funcionar, vai para a fase 2, com centenas de testados, para verificar se pessoas de diferentes etnias, gêneros e nacionalidades têm reações diferentes. Se tudo correr bem, milhares de pessoas são vacinadas na fase 3. Só depois disso, se os resultados forem publicados e avaliados por outros cientistas, a autoridade sanitária de cada país — a Anvisa, no Brasil — pode autorizar o uso na população.
A desinformação sobre vacinas havia sido comum desde o início da pandemia. O Comprova já havia verificado afirmações falsas de que as vacinas causariam danos genéticos, que conteriam microchips para rastreamento, ou que a China evitava aplicar suas próprias vacinas. O vídeo de Wong foi investigado porque conteúdos falsos sobre imunizantes colocam a saúde pública em risco direto. Quando as pessoas questionam se devem se imunizar, baseadas em desinformação, vidas estão em jogo. Wong não respondeu às tentativas de contato do Comprova pelo Instagram, e o Hospital das Clínicas informou que suas opiniões não representavam a posição institucional da instituição. A verificação foi publicada em 22 de outubro de 2020, quando o mundo ainda estava longe do fim da pandemia.
Notable Quotes
Todas as vacinas passaram por testes em animais— Jorge Venâncio, coordenador da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa
As opiniões de Anthony Wong não representam a posição institucional do hospital— Assessoria de imprensa do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que essa afirmação específica — sobre a fase pré-clínica — era tão perigosa?
Porque sugeria que as vacinas foram testadas diretamente em pessoas sem proteção animal primeiro. Se as pessoas acreditassem nisso, teriam razão em desconfiar. A fase pré-clínica é o que torna seguro avançar para humanos.
Mas o processo foi acelerado. Isso não significa que algo foi pulado?
O cronograma foi comprimido, sim. Mas não foram puladas as etapas obrigatórias. Foram feitas em paralelo, não em série. A diferença é crucial.
Como você explica para alguém que tem medo que a vacina é segura?
Você mostra que um macaco recebeu a CoronaVac em abril e sobreviveu. Que hamsters foram imunizados. Que órgãos reguladores analisaram esses dados antes de autorizar qualquer coisa em humanos. Não é fé. É evidência.
E se alguém disser que Anthony Wong é médico, então deve saber do que está falando?
Ele é médico, mas não tem especialidade registrada em vacinas ou imunologia. Trabalha com crianças. Quando especialistas em imunologia — como Daniel Mansur ou Renato Kfouri — falam sobre vacinas, eles falam de um lugar diferente.
O vídeo teve 46 mil visualizações. Quantas pessoas acreditaram?
Não sabemos. Mas o Comprova investigou porque mesmo uma fração disso importa. Uma pessoa que deixa de se vacinar por causa de desinformação é uma pessoa que pode morrer ou transmitir o vírus. Em uma pandemia, isso se multiplica.
O que você acha que Anthony Wong estava tentando fazer?
Não sabemos. Ele não respondeu. Mas o efeito foi claro: semear dúvida sobre a segurança das vacinas em um momento em que a confiança era tudo.