Quem está a traficar droga não pode ter casas do Estado, ponto final
A uma semana das eleições autárquicas de 12 de outubro, André Ventura percorreu Beja com a certeza de quem já leu o futuro: o Chega, partido sem qualquer presidência municipal, proclama-se prestes a quebrar décadas de domínio bipartidário no poder local português. É o momento em que uma força política jovem testa se a ambição retórica se converte em mandatos reais — e em que o país observa se a geografia eleitoral está, de facto, a mudar.
- Sem uma única câmara municipal em seu poder, o Chega anuncia vitórias múltiplas no sul, norte e arredores de Lisboa, apostando tudo numa noite eleitoral que pode redefinir o mapa do poder local.
- Ventura transforma Carlos Moedas num alvo central, responsabilizando-o pelo falhanço em imigração, habitação e transportes em Lisboa — e pelo acidente do elevador da Glória — como forma de legitimar a candidatura do Chega à capital.
- Quando confrontado com as dezenas de reuniões da Assembleia Municipal de Moura a que faltou, Ventura desvia, ataca os jornalistas e redireciona o discurso para a vitória do partido no distrito de Beja nas últimas legislativas.
- O partido anuncia a intenção de expulsar famílias de criminosos de habitação pública, com Ventura a declarar indiferença pelo destino dos familiares de traficantes — posição que condensa a linha dura que o Chega quer levar para o poder local.
- A noite de 12 de outubro funcionará como primeiro teste real entre a força eleitoral do Chega nas legislativas e a sua capacidade de governar municípios — uma distância que os resultados irão, finalmente, medir.
André Ventura chegou à feira Patrimónios do Sul, em Beja, com a convicção já formada: o Chega seria um dos grandes vencedores das autárquicas de 12 de outubro. Ao lado de David Catita, candidato do partido à câmara local, falou aos jornalistas com a segurança de quem não admite dúvida. Apesar de o partido não presidir a nenhum município, Ventura prometeu ganhar câmaras no sul, nos arredores de Lisboa e no norte — uma dispersão geográfica que, dizia, quebraria o domínio histórico de PS e PSD no poder local.
Em Lisboa, o alvo preferido era Carlos Moedas. Ventura acusou o presidente da câmara de ter falhado na imigração, na habitação, nos transportes e na gestão do acidente do elevador da Glória, concluindo que quem governa mal não pode culpar os outros pelo crescimento da concorrência. O candidato do Chega à capital, Bruno Mascarenhas, conhecia os dossiês e as sondagens eram favoráveis — embora Ventura frisasse, com ironia, que Lisboa nem era o principal bastião do partido.
Quando confrontado com as dezenas de faltas às reuniões da Assembleia Municipal de Moura — onde foi eleito em 2021 —, Ventura não respondeu. Limitou-se a garantir que o Chega voltaria a ganhar Beja e criticou os jornalistas pela pergunta.
Outro tema que dominou a tarde foi a habitação pública. O partido quer expulsar pessoas com cadastro criminal de casas do Estado e tenciona questionar o Ministério das Infraestruturas sobre quantos criminosos vivem em habitação pública. Sobre o destino das famílias dessas pessoas, Ventura foi direto: era-lhe indiferente. Quem trafica droga não merece casa do Estado, disse, ponto final.
Sobre os aviões norte-americanos com escala nos Açores a caminho de Israel, Ventura considerou que os portugueses estavam despreocupados com o assunto. Preferiu atacar as manifestações de apoio à flotilha humanitária para Gaza, acusando os manifestantes de perturbarem transportes e debates eleitorais. Terminou a tarde a equiparar o PSD ao PS, afirmando que os sociais-democratas prejudicavam o país há cinquenta anos.
André Ventura chegou à feira Patrimónios do Sul em Beja com uma convicção clara: o Chega sairia vencedor nas eleições autárquicas marcadas para 12 de outubro. Brindou com David Catita, candidato do partido à presidência da câmara municipal, e depois falou aos jornalistas com a segurança de quem acredita que o resultado está já escrito. O partido, disse, operava a partir de uma base diferente — uma vantagem que o tornaria inevitavelmente um dos grandes nomes da noite eleitoral.
O que Ventura considerava relevante era simples: uma quebra do domínio que PS e PSD exerciam sobre o poder autárquico português. O Chega, argumentou, conseguiria penetrar esse domínio e assumi-lo. Apesar de o partido não ter nenhuma presidência municipal no momento, Ventura mostrava-se convicto de que ganharia muitas câmaras no sul do país, nas áreas à volta de Lisboa, e também no norte. Essa dispersão geográfica, sustentava, seria o que faria a diferença quando os resultados fossem conhecidos.
Em Lisboa, o alvo era claro. Carlos Moedas, presidente da câmara e recandidato pela coligação PSD/CDS-PP/IL, estava, na visão de Ventura, muito preocupado com o crescimento do Chega — preocupação que poderia custar-lhe a reeleição. Ventura não poupou críticas: se Moedas tivesse feito um trabalho decente no combate à imigração, na habitação e nos transportes, e se não tivesse sido um desastre na questão do acidente do elevador da Glória, não estariam nesta situação. Quando se governa mal, disse, não se pode culpar os outros. Bruno Mascarenhas, o candidato do Chega à capital, conhecia os dossiês, conhecia os problemas, e as sondagens indicavam um bom resultado para ele. Ventura acrescentou, com um toque de ironia, que Lisboa nem sequer era o principal bastião eleitoral do partido.
Quando questionado sobre as dezenas de reuniões da Assembleia Municipal de Moura que tinha faltado — Moura é um município no distrito de Beja onde Ventura foi eleito em 2021 — o líder do Chega não respondeu. Disse apenas que o partido tinha vencido naquele distrito nas últimas legislativas e voltaria a ganhar Beja. Depois criticou os jornalistas.
Outra questão que ocupava Ventura era a habitação pública. O partido tinha anunciado a intenção de expulsar pessoas com cadastro criminal que vivessem em casas do Estado. Quando lhe perguntaram o que aconteceria às famílias dessas pessoas, Ventura foi direto: era-lhe indiferente a família de um traficante de droga. Quem traficava droga não podia ter casas do Estado, ponto final. O Chega pretendia questionar o Ministério das Infraestruturas e Habitação para saber quantos criminosos viviam em habitação pública. De manhã, Ventura tinha afirmado que em mais de 65% dos municípios havia casas entregues a pessoas com cadastro, traficantes e criminosos violentos — dados, esclareceu à tarde, recolhidos pelo próprio partido.
Sobre os aviões norte-americanos com destino a Israel que fizeram escala nos Açores, Ventura considerou que os portugueses estavam completamente despreocupados com a questão. Preferiu falar das manifestações que pediam a libertação dos ativistas da flotilha humanitária com destino a Gaza, acusando os manifestantes de bloquearem transportes públicos e o debate entre candidatos à Câmara de Lisboa. Criticou também a cobertura mediática, acusando os jornalistas de parcialidade. Ventura acusou ainda o PSD de estar igual ao PS e, quando questionado se os resultados do Chega prejudicariam os sociais-democratas e beneficiariam os socialistas, respondeu que o PSD andava a prejudicar o país há 50 anos.
Notable Quotes
O Chega vai ser sempre um dos vencedores da noite eleitoral, porque parte de uma base diferente do ponto de vista autárquico— André Ventura
O PSD anda a prejudicar o país há 50 anos— André Ventura
The Hearth Conversation Another angle on the story
Ventura diz que o Chega será sempre um dos vencedores, mas o partido não tem nenhuma presidência municipal. Como é que isso funciona?
Funciona porque ele está a falar de uma base diferente — o Chega entra nestas eleições como força disruptiva, não como gestor estabelecido. A promessa é que vão ganhar muitas câmaras de uma vez, em várias regiões, e isso muda o jogo.
Mas ele não responde quando lhe perguntam sobre as reuniões que faltou em Moura. Isso não o prejudica?
Claramente não o preocupa o suficiente para responder. Ele muda de assunto para o que venceu nas legislativas. É uma tática — manter-se no ataque, não na defesa.
A questão das casas públicas e dos criminosos — ele diz que 65% dos municípios têm este problema. Esses números vêm de onde?
Do próprio partido. Ventura admitiu isso à tarde. Não são dados do Governo, não são verificados. São números que o Chega recolheu e está a usar como arma de campanha.
E quando lhe perguntam sobre as famílias que seriam expulsas, ele diz que lhe é indiferente. Isso não é extremo?
Para Ventura, é lógica pura — se alguém traficava droga, não merece casa do Estado. Não há espaço para nuance. É assim que ele fala: preto e branco, sem concessões.
Ele critica Moedas duramente, mas também diz que o PSD prejudica o país há 50 anos. Isso não o coloca numa posição estranha?
Não, para ele. Se o PSD é tão mau quanto o PS, então o Chega é a alternativa. A lógica é: ambos falharam, nós somos novos, nós ganhamos.