Venezuela enfrenta desafio de bilhões para reconstrução pós-terremotos

Terremotos causaram milhares de mortos e feridos, deixando milhares desabrigados e crianças órfãs que necessitam de assistência urgente.
O país não tem capacidade nem acesso ao financiamento
Economista descreve o impasse enfrentado pela Venezuela para reconstruir após os terremotos.

Quando a terra treme sobre um país já partido, a destruição não é apenas física — ela revela a fragilidade de tudo que foi construído sobre bases instáveis. Os terremotos de 24 de junho varreram partes de Caracas e cinco estados vizinhos, matando milhares e expondo a Venezuela a uma conta que pode chegar a 20 bilhões de dólares, numa economia que já havia perdido mais de 70% do seu tamanho em menos de uma década. A ajuda internacional anunciada, somada, mal ultrapassa meio bilhão — e o caminho entre a necessidade e os recursos disponíveis é longo, tortuoso e cheio de desconfiança acumulada.

  • A destruição em seis regiões venezuelanas — prédios desabados, estradas partidas, milhares de mortos — criou uma urgência humanitária que o Estado mal consegue absorver.
  • As estimativas de reconstrução variam entre US$ 6,7 bilhões e US$ 20 bilhões, enquanto os recursos anunciados por governos e organismos internacionais somam pouco mais de meio bilhão de dólares.
  • A Venezuela chega a esta crise carregando uma dívida de 170 bilhões de dólares, inadimplente desde 2017, com sanções americanas e sem acesso real aos mercados internacionais de crédito.
  • Especialistas propõem uma autoridade independente de reconstrução para contornar a desconfiança internacional e garantir transparência, mas a viabilidade política dessa solução permanece incerta.
  • O governo negocia com os EUA e o FMI, mas sem datas nem valores definidos — e o país enfrenta também uma escassez de capital humano qualificado para conduzir qualquer reconstrução em escala.

Os terremotos de 24 de junho deixaram Caracas e cinco estados vizinhos — La Guaira, Carabobo, Miranda, Yaracuy e Aragua — com prédios destruídos, estradas partidas e milhares de mortos e feridos. A fase de resgate foi apenas o começo. Agora a Venezuela enfrenta o desafio ainda maior de reconstruir, sem saber de onde virá o dinheiro.

As estimativas divergem conforme quem faz as contas. O PNUD calculou os danos diretos em US$ 6,7 bilhões, com margem para variar entre 4,7 e 8,7 bilhões. O economista Asdrúbal Oliveros projeta entre 12 e 15 bilhões quando se inclui habitação, infraestrutura e transporte. Alejandro Grisanti, da Ecoanalítica, estima 20 bilhões. Qualquer que seja o número, ele representa uma fatia enorme de uma economia já devastada.

A ajuda anunciada até agora é modesta: 200 milhões do FMI já alocados, 300 milhões dos EUA em ajuda humanitária, 17 milhões da China e 15 milhões do fundo de emergência da ONU. Somados, pouco mais de meio bilhão — uma fração ínfima da necessidade real.

O problema vai além dos números. A Venezuela perdeu mais de 70% do seu PIB entre 2014 e 2021, está em inadimplência desde 2017, acumula uma dívida estimada em 170 bilhões de dólares e enfrenta sanções americanas que dificultam o acesso a financiamento externo. A desconfiança internacional — alimentada por denúncias de corrupção e falta de transparência — torna doadores e investidores ainda mais cautelosos.

Especialistas sugerem criar uma autoridade independente para administrar os recursos com eficiência e transparência, fórmula que funcionou em outras catástrofes. Mas isso exige vontade política e capacidade institucional que a Venezuela mal consegue demonstrar. A presidente em exercício, Delcy Rodríguez, afirma que o país negocia com os EUA e o FMI, mas sem datas nem valores concretos. O que está claro é que o governo não conseguirá reconstruir sozinho — e que a articulação com a sociedade e com o mundo será indispensável.

Os terremotos que sacudiram a Venezuela em 24 de junho deixaram o país diante de uma tarefa que pode consumir anos e dezenas de bilhões de dólares. Caracas, La Guaira, Carabobo, Miranda, Yaracuy e Aragua — seis regiões onde prédios desabaram, estradas se partiram ao meio e milhares de pessoas morreram ou ficaram feridas. A fase de emergência, com equipes de resgate vasculhando escombros e hospitais já sobrecarregados atendendo feridos, foi apenas o começo. Agora vem a reconstrução, e ninguém sabe exatamente de onde virá o dinheiro.

As estimativas do custo total variam bastante, dependendo de quem faz as contas. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento calculou os danos diretos em 6,7 bilhões de dólares, embora reconheça que esse número pode cair para 4,7 bilhões ou subir para 8,7 bilhões conforme novas informações apareçam. O economista Asdrúbal Oliveros projeta um custo entre 12 e 15 bilhões de dólares quando se inclui habitação, infraestrutura, comércio e transporte. Alejandro Grisanti, da consultoria Ecoanalítica, vai mais longe e estima 20 bilhões de dólares. Qualquer que seja o número exato, ele representa uma fração enorme da economia venezuelana — algo entre 6% e muito mais do produto interno bruto do país.

O governo anunciou que usará 200 milhões de dólares de recursos já alocados pelo Fundo Monetário Internacional. A China prometeu 17 milhões. Os Estados Unidos ofereceram mais de 300 milhões em ajuda humanitária. O Fundo Central de Resposta a Emergências da ONU liberou 15 milhões. Somados, esses valores chegam a pouco mais de meio bilhão de dólares — uma gota num oceano de necessidade. Como disse Grisanti à BBC, as cifras iniciais anunciadas foram modestas.

Mas o dinheiro é apenas parte do problema. A Venezuela já enfrentava uma crise econômica profunda muito antes dos terremotos. O produto interno bruto encolheu mais de 70% entre 2014 e 2021 por causa da queda na produção de petróleo, desequilíbrios fiscais e hiperinflação. Mais de 5 milhões de pessoas já precisavam de assistência alimentar urgente. O país está tecnicamente em inadimplência desde 2017, quando parou de pagar sua dívida externa. Acumula agora uma dívida estimada em 170 bilhões de dólares e perdeu acesso aos mercados internacionais de crédito. As sanções impostas pelos Estados Unidos tornam ainda mais difícil conseguir financiamento externo.

A desconfiança internacional também pesa. Há denúncias de corrupção no governo, dúvidas sobre sua legitimidade e preocupações com a falta de transparência. Quando há tanta desconfiança, é natural que doadores e investidores sejam cautelosos. O FMI retomou relações com o governo em maio, mas deixou claro que isso não significa financiamento imediato — será um processo longo, provavelmente com condições rigorosas e supervisão apertada.

Tamara Herrera, da consultoria Síntesis Financiera, resumiu o dilema: o país não tem capacidade nem acesso ao financiamento internacional e agora se vê obrigado a buscar soluções sem saber como nem quando elas chegarão. O governo enfrenta também limitações de capital humano — anos de declínio econômico esvaziaram o país de profissionais qualificados que poderiam conduzir a reconstrução.

Alguns especialistas sugerem criar uma autoridade independente para garantir que os recursos sejam administrados com eficiência e transparência, uma fórmula que funcionou em outras catástrofes. Mas mesmo isso exigiria vontade política e capacidade institucional que a Venezuela mal consegue demonstrar. Delcy Rodríguez, a presidente em exercício, afirmou que o país negocia com os EUA e o FMI pela recuperação de recursos, mas ainda não há datas nem valores definidos.

O que fica claro é que a Venezuela enfrenta não apenas uma crise humanitária imediata, mas um desafio de reconstrução que expõe todas as fragilidades de um Estado já enfraquecido. A articulação com o restante da sociedade será indispensável — porque o governo sozinho não conseguirá.

As primeiras cifras anunciadas pela ajuda internacional foram modestas
— Alejandro Grisanti, Ecoanalítica
O país não tem capacidade nem acesso ao financiamento internacional e agora se vê obrigado a buscar soluções sem saber como nem quando elas chegarão
— Tamara Herrera, Síntesis Financiera
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que as estimativas de custo variam tanto? De 6,7 bilhões para 20 bilhões é uma diferença enorme.

Model

Porque ainda não há um levantamento completo dos danos. O Pnud usou imagens de satélite para contar estruturas, mas o impacto total costuma ser entre 1,5 e três vezes o valor dos danos diretos. Alguns economistas incluem perdas indiretas — comércio interrompido, transporte desorganizado — que ampliam muito o número.

Inventor

E o governo tem alguma chance de conseguir esse dinheiro?

Model

Muito pequena sozinho. A Venezuela está em inadimplência desde 2017, perdeu acesso aos mercados de crédito e enfrenta sanções dos EUA. Depende de ajuda internacional, mas a desconfiança é grande.

Inventor

Desconfiança de quê?

Model

De corrupção, de falta de transparência, de dúvidas sobre a legitimidade do governo. Quando há tanta desconfiança, doadores e investidores ficam cautelosos. É um círculo vicioso.

Inventor

O FMI pode ajudar?

Model

Pode, mas provavelmente com condições rigorosas e supervisão apertada. Em maio retomou relações com o governo, mas deixou claro que isso não significa financiamento imediato. Será um processo.

Inventor

E se conseguir o dinheiro, consegue gastar bem?

Model

Aí está outro problema. O país perdeu profissionais qualificados ao longo dos anos de crise. Mesmo com recursos, faltam pessoas capazes de conduzir a reconstrução de forma eficiente.

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