A poupança segue perdendo poder de compra há quase um ano
A caderneta de poupança, símbolo da prudência financeira de gerações de brasileiros, recebe mais um incremento com a elevação da Selic para 5,25% ao ano — mas o alívio é ilusório. O rendimento nominal sobe, porém a inflação, que já corrói o poder de compra há quase um ano, segue muito à frente. É a tensão antiga entre guardar e preservar: o dinheiro cresce no papel, mas encolhe na vida real.
- A poupança passa a render 3,68% ao ano, mas a inflação acumulada de 8,35% em doze meses apaga esse ganho e ainda cobra um preço silencioso de quase cinco pontos percentuais.
- Dez meses consecutivos de perdas reais resultaram na maior destruição de poder de compra desde outubro de 1991, quando poupadores perderam 9,72% do valor guardado.
- Entre janeiro e junho, os brasileiros sacaram R$ 16,54 bilhões da poupança — um sinal de que a confiança nessa modalidade está sendo testada como raramente antes.
- O mercado projeta Selic em 7% até o fim de 2021 e inflação de 6,79%, o que significa que novas altas virão, mas a corrida entre juros e preços ainda não tem vencedor definido.
- Outras aplicações de renda fixa tendem a se beneficiar mais da alta da Selic, mas a poupança mantém sua vantagem histórica: zero de imposto de renda e zero de taxa de administração.
A caderneta de poupança ganhou um pouco mais de fôlego com a decisão do Banco Central de elevar a Selic para 5,25% ao ano. O rendimento mensal sobe para 0,30%, ou 3,68% ao ano — um aumento modesto em relação aos 2,98% anteriores, mas que representa R$ 70 a mais para cada mil reais aplicados durante doze meses. A regra vigente desde 2012 determina que, enquanto a Selic ficar abaixo de 8,5%, a poupança recebe apenas 70% desse rendimento, mais a Taxa Referencial, zerada desde 2017.
O problema é que nenhum ajuste de taxa resolve o que a inflação está fazendo. Em junho, o retorno real da poupança foi negativo em 6,26% nos últimos doze meses — o pior resultado desde outubro de 1991. Com a inflação oficial em 8,35% no período, a diferença para o rendimento da caderneta chega a quase cinco pontos percentuais, corroendo silenciosamente o valor do dinheiro guardado.
Esse cenário se reflete nos números: entre janeiro e junho, os brasileiros retiraram R$ 16,54 bilhões da poupança. A tendência começou a se inverter em abril, com o retorno do auxílio emergencial, mas dez meses seguidos de perdas reais deixaram marcas profundas na confiança dos poupadores.
O horizonte não promete alívio imediato. Economistas projetam inflação de 6,79% para 2021 e Selic em 7% ao fim do ano, o que sinaliza novas altas nos juros — mas também a possibilidade de que a inflação continue correndo mais rápido. Para o poupador comum, a equação permanece desafiadora: o dinheiro cresce no extrato, mas perde valor no cotidiano.
A caderneta de poupança, a aplicação financeira mais tradicional do Brasil, acaba de ganhar um pouco mais de fôlego. Com a decisão do Banco Central de elevar a taxa básica de juros (Selic) para 5,25% ao ano na quarta-feira de agosto, o rendimento mensal da poupança sobe para 0,30%, o que corresponde a 3,68% ao ano. É um aumento modesto — antes, quando a Selic estava em 4,25%, o retorno era de 0,25% ao mês e 2,98% ao ano — mas representa R$ 70 a mais em cada mil reais aplicados durante um ano.
O Banco Central acelerou a alta da Selic em um ponto percentual inteiro, movimento que confirmou as expectativas do mercado financeiro. A mudança segue uma regra em vigor desde 2012: quando a taxa básica fica abaixo de 8,5%, a poupança recebe apenas 70% desse rendimento, mais a Taxa Referencial (TR), que permanece zerada desde 2017. Quem tem dinheiro na chamada "poupança velha" — depósitos feitos até abril de 2012 — continua recebendo 0,50% ao mês, ou 6,17% ao ano, uma diferença significativa que beneficia poucos poupadores.
Mas há um problema que nenhum aumento de taxa consegue resolver: a poupança está perdendo para a inflação há quase um ano. Em junho, quando se desconta a inflação medida pelo IPCA, o retorno real da poupança foi negativo em 6,26% nos últimos doze meses. É o pior desempenho desde outubro de 1991, quando os poupadores perderam 9,72% do poder de compra. Naquele mês de junho, a inflação oficial atingiu 8,35% em doze meses, enquanto a poupança rendia apenas 3,68% — uma diferença de quase cinco pontos percentuais que corrói silenciosamente o valor do dinheiro guardado.
Os números refletem essa realidade. Entre janeiro e junho deste ano, os brasileiros retiraram R$ 16,54 bilhões da poupança, segundo dados do Banco Central. A situação começou a se reverter a partir de abril, quando os depósitos passaram a superar os saques, coincidindo com o retorno do auxílio emergencial prorrogado pelo governo até outubro. Mesmo assim, dez meses seguidos de perdas reais deixaram marcas profundas na confiança dos poupadores nessa modalidade.
O cenário para os próximos meses não promete alívio rápido. Os economistas do mercado financeiro projetam uma inflação de 6,79% para 2021, acima do teto da meta do governo de 5,25%. Para 2022, esperam 3,81%. Ao mesmo tempo, a previsão para a Selic no fim deste ano é de 7%, o que significa novas altas nos juros nos próximos meses. Mesmo que a poupança continue recebendo aumentos, a inflação pode continuar correndo mais rápido.
A elevação da Selic tende a beneficiar outras aplicações de renda fixa — títulos do Tesouro Direto, CDB, LCI, LCA e outros produtos — que costumam acompanhar a taxa básica. A poupança, porém, mantém uma vantagem: não há imposto de renda nem taxas de administração. Um investimento em CDB, por exemplo, precisa render pelo menos 85% do CDI para superar a poupança depois dos descontos de imposto, dependendo do prazo. Essa simplicidade e isenção fiscal continuam tornando a poupança competitiva frente a fundos de renda fixa com taxas de administração acima de 1% ao ano.
Os analistas veem na Selic mais elevada um potencial para reduzir a pressão sobre a inflação e fortalecer o real frente ao dólar. Juros internos maiores tornam os ativos brasileiros mais atraentes para investidores estrangeiros, aumentando a entrada de dólares no país. Mas para o poupador comum, a questão permanece: mesmo com a taxa subindo, o dinheiro guardado na caderneta segue perdendo poder de compra em um país onde a inflação segue acelerada.
Citas Notables
A poupança continuará se destacando frente aos fundos de renda fixa, principalmente aqueles com taxas de administração superiores a 1% ao ano— Associação Nacional dos Executivos de Finanças Administração e Contabilidade (Anefac)
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que a poupança continua perdendo para a inflação se a Selic está subindo?
Porque a poupança não recebe 100% da Selic. Desde 2012, ela fica limitada a 70% da taxa básica. Quando a Selic era 4,25%, a poupança rendia 2,98%. Agora com 5,25%, rende 3,68%. Mas a inflação está em 8,35%. A diferença é abismal.
Então o governo está penalizando quem poupa?
Não é bem assim. A regra existe para equilibrar a política monetária. Se a poupança rendesse 100% da Selic, o Banco Central teria menos controle sobre a economia. Mas o efeito colateral é real: o poupador perde poder de compra.
Quanto um brasileiro perde em um ano com R$ 10 mil na poupança?
Nominalmente, ganha R$ 368. Mas se a inflação fica em 8,35%, aqueles R$ 10 mil valem menos no fim do ano. Em junho, o retorno real foi negativo em 6,26%. Ou seja, R$ 10 mil virou algo equivalente a R$ 9.374 em poder de compra.
Por que as pessoas não saem da poupança?
Porque é simples, segura e não tem imposto de renda. Um CDB rende mais, mas paga IR. Fundos de renda fixa cobram taxa de administração. A poupança é o caminho mais fácil, mesmo que seja o mais lento.
Isso vai melhorar?
Provavelmente não nos próximos meses. A inflação deve ficar em 6,79% este ano. A Selic pode chegar a 7% até dezembro. Mesmo que a poupança suba junto, a inflação segue maior. O poupador vai continuar perdendo.