Vacinas contra covid não têm relação com infertilidade e câncer, aponta verificação

Desinformadores traduzem conteúdo falso para criar ilusão de credibilidade internacional
Estratégia comum de disseminação de desinformação sobre vacinas usa especialistas estrangeiros e termos técnicos para confundir leitores.

Em maio de 2023, um texto viral no Twitter afirmava que vacinas de mRNA contra a covid-19 causavam câncer e infertilidade em centenas de milhões de pessoas — alegações atribuídas a um patologista norte-americano sem respaldo científico comprovado. O conteúdo era, na verdade, uma tradução de um site britânico banido por desinformação, seguindo a estratégia clássica de emprestar autoridade estrangeira a mentiras locais. Ministério da Saúde, Anvisa, Inca e CDC são unânimes: as vacinas não causam essas condições; a própria covid-19, sim, demonstrou afetar o sistema reprodutor masculino. A desinformação, quando vestida de linguagem técnica e nomes científicos, torna-se mais difícil de reconhecer — e por isso mais perigosa.

  • Uma única postagem no Twitter acumulou mais de 73 mil visualizações ao associar vacinas de mRNA a câncer e infertilidade, espalhando alarme sem qualquer base científica.
  • O texto original vinha de um site britânico criado por um mecânico e banido do Twitter em 2021 — mas ganhou nova vida ao ser traduzido e republicado como se fosse informação legítima.
  • Ryan Cole, apresentado como 'o melhor patologista do mundo', teve suas declarações desmentidas três vezes por agências de checagem e enfrenta processo por declarações falsas sobre a covid-19 no estado de Washington.
  • Estudos científicos apontam na direção oposta: pesquisas da Universidade de Miami e da USP mostram que é o vírus da covid-19 — não a vacina — que pode comprometer a fertilidade masculina.
  • Órgãos de saúde do Brasil e dos EUA reafirmam que a segurança dos imunizantes foi validada em ensaios clínicos rigorosos, e que não existe evidência de relação entre vacinas de mRNA e câncer.

Em maio de 2023, um texto publicado no Twitter afirmava que centenas de milhões de vacinados contra a covid-19 estavam desenvolvendo câncer e infertilidade. A publicação, originada no site Tribuna Nacional, era uma tradução de um artigo do britânico The Exposè — plataforma banida do Twitter em 2021 por disseminar desinformação sobre a pandemia e criada por um mecânico chamado Jonathan Allen-Walker. O conteúdo alcançou mais de 73 mil visualizações em uma única postagem.

As alegações eram atribuídas ao dermatopatologista Ryan Cole, apresentado como o "melhor patologista do mundo" — título que a Sociedade Brasileira de Patologia investigou e não encontrou qualquer comprovação. Não existe ranking mundial de patologistas, e a revista The Pathologist jamais citou Cole entre os profissionais influentes da área. Suas declarações sobre vacinas já foram desmentidas três vezes por agências de checagem, e em janeiro de 2023 foi aberto um processo contra sua licença médica no estado de Washington.

O Ministério da Saúde, a Anvisa, o Inca e o CDC são categóricos: vacinas de mRNA não causam infertilidade nem câncer. Pesquisa da Universidade de Miami acompanhou homens vacinados com duas doses e não encontrou qualquer alteração na contagem de espermatozoides. O que os estudos revelam, na direção contrária, é que a própria covid-19 pode afetar o sistema reprodutor: autópsias realizadas pela mesma universidade encontraram o vírus no testículo de um paciente e redução de espermatozoides em outros três. Pesquisadores da USP identificaram inflamação no epidídimo em 42,3% dos pacientes com covid-19 leve ou moderada.

A estratégia por trás do conteúdo é conhecida: traduzir material falso de outros idiomas, citar supostos especialistas estrangeiros para aparentar credibilidade e usar termos técnicos que desorientam o leitor. O mesmo site The Exposè foi fonte usada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para relacionar vacinas à AIDS — associação que a Polícia Federal concluiu ser criminosa. Neste caso, números como "centenas de milhões" de prejudicados aparecem sem qualquer fonte documentada.

Um texto que circulou no Twitter em maio de 2023 afirmava que centenas de milhões de pessoas vacinadas contra a covid-19 estavam desenvolvendo câncer e infertilidade, atribuindo essas alegações ao patologista norte-americano Ryan Cole. A publicação, que começou no site Tribuna Nacional, era na verdade uma tradução de um artigo do site britânico The Exposè, conhecido internacionalmente por disseminar desinformação sobre a pandemia. O conteúdo virou viral: uma única postagem no Twitter alcançou mais de 73 mil visualizações até o início de maio.

O problema é que não existe qualquer comprovação científica para essas afirmações. O Ministério da Saúde, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Instituto Nacional de Câncer (Inca) e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) todos confirmam a mesma coisa: as vacinas de RNA mensageiro contra a covid-19 não causam infertilidade nem câncer. Esses órgãos ressaltam que a segurança dos imunizantes foi comprovada em estudos clínicos rigorosos.

Quanto à infertilidade especificamente, uma pesquisa da Universidade de Miami publicada na revista científica Jama acompanhou homens entre 18 e 50 anos que receberam as duas doses da vacina. O resultado foi claro: não houve qualquer alteração na contagem de espermatozoides. O que os estudos mostram, na verdade, é o oposto. Pesquisadores da mesma universidade realizaram autópsias em seis homens que morreram de covid-19 e encontraram o vírus no testículo de um deles, além de redução na contagem de espermatozoides em outros três. Uma pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo avaliou 26 pacientes com covid-19 leve ou moderada e descobriu que 42,3% deles apresentaram inflamação no epidídimo, estrutura responsável pela maturação e transporte dos espermatozoides.

Sobre câncer, o Inca é categórico: não há qualquer evidência de que vacinas causem a doença. As vacinas, segundo a instituição, são um dos principais métodos de prevenção de doenças infecciosas, não causadores delas. A Anvisa acrescenta que a vacina funciona justamente induzindo imunidade celular e produção de anticorpos contra a proteína spike — o mecanismo que a torna eficaz contra a covid-19.

Quem é Ryan Cole? Um dermatopatologista norte-americano que trabalha de forma independente desde 2004 e é fundador do laboratório Cole Diagnostics no Idaho. Ele participa da Associação de Médicos Independentes do estado, um grupo de profissionais que realizam práticas médicas próprias. Cole já havia questionado a eficácia e segurança das vacinas contra a covid-19 em outras ocasiões, e suas declarações foram checadas e desmentidas pela FastCheck.Org por três vezes. Em janeiro de 2023, foi aberta uma declaração de acusação contra sua licença no estado de Washington por suas declarações falsas ou enganosas sobre a covid-19.

O título do texto afirma que Cole é o "melhor patologista do mundo". A Sociedade Brasileira de Patologia investigou essa alegação e não encontrou qualquer comprovação. Não existe um ranking mundial de patologistas. A revista The Pathologist, que publica anualmente uma lista de profissionais influentes na área, nunca citou Ryan Cole em nenhuma de suas categorias. Em 2015, quando a revista fez uma lista entre patologistas para definir o mais influente, o escolhido foi o português Manuel Sobrinho Simões.

O site The Exposè, de onde o texto foi traduzido, foi banido do Twitter em 2021 por propagar desinformação sobre a covid-19. Ele foi criado em novembro de 2020 por um mecânico britânico chamado Jonathan Allen-Walker e tornou-se conhecido por artigos que o ex-presidente Jair Bolsonaro usou como fonte para relacionar vacinas com AIDS — uma relação que a Polícia Federal concluiu ser criminosa. A estratégia comum de desinformadores é traduzir conteúdo falso de outras línguas, citar supostos especialistas estrangeiros para criar uma impressão de credibilidade e usar termos técnicos que confundem o leitor. Neste caso, o texto também apresenta dados imprecisos sem fontes, como a alegação de "centenas de milhões" de vacinados prejudicados, sem qualquer origem documentada para esse número.

As vacinas são um dos principais métodos de prevenção de doenças infecciosas e não são causadoras de doenças
— Instituto Nacional de Câncer (Inca)
A relação entre a vacina contra a covid-19 e problemas de saúde graves como câncer e infertilidade não tem qualquer embasamento científico
— Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que um texto como esse consegue viralizar tanto, especialmente quando há tanta informação disponível?

Model

Porque usa uma estratégia muito eficaz: cita um nome que parece importante, traduz de um site que parece internacional, e usa termos técnicos que a maioria das pessoas não entende completamente. Cria uma ilusão de credibilidade.

Inventor

E o Ryan Cole realmente é um especialista respeitado na área?

Model

Ele é um dermatopatologista que trabalha de forma independente, mas não há qualquer evidência de que seja uma autoridade reconhecida mundialmente. Suas afirmações sobre vacinas foram desmentidas várias vezes, e há até uma acusação contra sua licença médica.

Inventor

O que é mais preocupante — a desinformação em si ou o fato de que ela vem de fora?

Model

Os dois. Mas quando vem traduzida de outro país, as pessoas tendem a achar que é mais confiável, que passou por mais filtros. Na verdade, é o oposto: o site original foi banido por desinformação.

Inventor

Se as vacinas não causam infertilidade, por que há tanta gente falando sobre isso?

Model

Porque a covid-19 em si afeta o sistema reprodutor masculino. Estudos mostram que homens que morreram da doença tinham o vírus nos testículos e redução de espermatozoides. Mas isso não é culpa da vacina — é culpa da doença que a vacina previne.

Inventor

Como alguém deveria verificar uma alegação como essa?

Model

Procurar o que dizem as agências de saúde oficiais — não apenas uma, mas várias, em diferentes países. Verificar se o especialista citado realmente é tão importante quanto afirmam. E desconfiar de títulos genéricos como "melhor do mundo" sem qualquer comprovação.

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