Vacinas contra Covid-19 não têm relação com Aids, afirmam autoridades de saúde

A vacina não vai gerar nenhum tipo de imunodeficiência
Especialista em imunologia refuta alegação de que vacinados desenvolvem Aids.

Em meio à pandemia, uma onda de desinformação tentou associar as vacinas contra a Covid-19 à Aids, ganhando impulso quando amplificada por uma transmissão ao vivo presidencial. Autoridades de saúde do Reino Unido, a Sociedade Brasileira de Infectologia e o UNAIDS responderam com clareza: não existe qualquer evidência científica que sustente tal alegação. O episódio revela como documentos oficiais podem ser distorcidos para semear desconfiança, e como instituições e plataformas digitais são chamadas a agir como guardiãs do conhecimento coletivo.

  • Uma mensagem viral afirmava que dados do governo britânico provavam que vacinados em dose dupla estavam desenvolvendo Aids — uma distorção deliberada de relatórios oficiais.
  • O boato ganhou escala nacional quando o presidente Jair Bolsonaro o reproduziu em transmissão ao vivo, transformando desinformação em pauta de saúde pública.
  • Especialistas em imunologia, a Sociedade Brasileira de Infectologia e o UNAIDS desmentiram categoricamente qualquer ligação entre os imunizantes e a síndrome, reforçando inclusive a segurança das vacinas para pessoas vivendo com HIV.
  • A confusão foi alimentada pelo uso indevido de um artigo científico de 2020 sobre a tecnologia Ad5 — presente apenas na Sputnik V e na CanSino, nenhuma delas aplicada no Brasil.
  • Facebook, Instagram e YouTube removeram o vídeo presidencial, sinalizando que a moderação de conteúdo sobre saúde pública tornou-se uma linha de defesa institucional contra a desinformação.

Há semanas, uma afirmação alarmante percorria as redes sociais: as vacinas contra a Covid-19 estariam causando Aids. O boato ganhou força quando o presidente Jair Bolsonaro o citou em uma transmissão ao vivo, ampliando o alcance da mentira. Autoridades de saúde em múltiplos países foram categóricas: não existe qualquer relação entre os imunizantes e a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida.

O Departamento de Saúde Pública do Reino Unido negou diretamente a alegação, apontando que ela se originou em um site conhecido por teorias conspiratórias. A imunologista Letícia Sarturi, mestre pela USP e doutora pela Universidade Estadual de Maringá, foi direta: "Não faz nenhum sentido. A vacina não vai gerar nenhum tipo de imunodeficiência." Verificações dos relatórios britânicos não encontraram qualquer dado que associasse vacinação a casos de Aids.

A Sociedade Brasileira de Infectologia e o UNAIDS também se pronunciaram, reforçando que não há evidência científica de associação entre vacinação completa e maior risco de adoecer por Aids — e destacando a importância da dose de reforço para pessoas que vivem com HIV.

Parte da desinformação se apoiou em uma matéria da revista Exame de outubro de 2020, que abordava um artigo científico sobre a possibilidade teórica de que vacinas com adenovírus tipo 5 (Ad5) pudessem aumentar o risco de contrair HIV em casos de exposição prévia. A matéria nunca afirmou que vacinas causariam Aids, e o artigo não apresentava conclusões definitivas. A Exame, ao perceber o uso indevido de seu link, alterou o título e adicionou uma interrogação para deixar clara a ausência de conclusões.

Importante: apenas a Sputnik V e a CanSino utilizam a tecnologia Ad5, e nenhuma delas é aplicada no Brasil. O vídeo presidencial foi removido do Facebook, Instagram e YouTube entre os dias 24 e 25 de outubro, com as plataformas reafirmando que suas políticas não permitem alegações de que vacinas contra Covid-19 causam danos graves.

Há semanas, mensagens circulam pelas redes sociais com uma afirmação alarmante: as vacinas contra a Covid-19 estariam causando Aids. O boato ganhou força quando foi citado pelo presidente Jair Bolsonaro em uma transmissão ao vivo, amplificando o alcance da desinformação. Mas autoridades de saúde em múltiplos países e especialistas em imunologia são categóricos: não existe qualquer relação entre os imunizantes e a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida.

O texto que circula afirma, especificamente, que "dados disponibilizados pelo governo britânico mostram que os vacinados em dose dupla estão desenvolvendo a síndrome da imunodeficiência adquirida". O Departamento de Saúde Pública do Reino Unido respondeu diretamente a essa alegação, negando-a por completo e apontando que o boato originou-se em um site conhecido por divulgar falsas alegações e teorias conspiratórias. Letícia Sarturi, mestre em imunologia pela Universidade de São Paulo e doutora em biociências pela Universidade Estadual de Maringá, foi uma das especialistas que contestou publicamente as mentiras contidas na mensagem. "Não faz nenhum sentido. A vacina não vai gerar nenhum tipo de imunodeficiência", afirmou a médica. Verificações posteriores de relatórios oficiais britânicos não encontraram qualquer dado que apontasse relação entre casos de Aids e vacinação.

Os responsáveis pela disseminação da desinformação manipularam documentos oficiais para semear dúvidas sobre a eficácia e segurança dos imunizantes. Diante da repercussão, entidades de saúde se pronunciaram. A Sociedade Brasileira de Infectologia divulgou nota esclarecendo que "não se conhece nenhuma relação entre qualquer vacina contra a Covid-19 e o desenvolvimento de síndrome da imunodeficiência adquirida". O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS também reagiu, reforçando inclusive a importância da dose de reforço para pessoas que vivem com HIV e ressaltando que não há evidência científica de associação entre vacinação completa e maior risco de adoecer por Aids.

Parte da desinformação se apoia em uma matéria da revista Exame publicada em outubro de 2020. Naquela época, a reportagem abordava um artigo científico que levantava a possibilidade teórica de que vacinas utilizando o adenovírus tipo 5 (Ad5) poderiam aumentar o risco de contrair HIV, mas apenas em caso de exposição prévia ao vírus. Importante: a matéria nunca afirmou que os imunizantes causariam Aids, e o artigo científico em questão não apresentava conclusões definitivas. A revista Exame, após perceber o uso de seu link para disseminar informação falsa, alterou o título da matéria, adicionou a data de publicação e colocou uma interrogação no fim da manchete para reforçar a ausência de conclusões.

Além disso, apenas duas vacinas no mundo utilizam a tecnologia Ad5: a Sputnik V, da Rússia, e a CanSino, da China. Nenhuma delas é utilizada no Brasil, como confirmou a checagem do jornal O Globo. Ou seja, mesmo que houvesse alguma relação entre a vacina e Aids — o que não há —, não haveria motivo de preocupação para a população brasileira.

O vídeo em que o presidente disseminava a desinformação foi removido do Facebook e Instagram no domingo, 24 de outubro. A empresa responsável pelas duas plataformas informou que suas políticas "não permitem alegações de que as vacinas de Covid-19 matam ou podem causar danos graves às pessoas". No dia seguinte, o YouTube também removeu o vídeo. As plataformas digitais, sob pressão crescente para combater a disseminação de fake news sobre saúde pública, reforçam assim suas políticas de moderação de conteúdo.

Não faz nenhum sentido. A vacina não vai gerar nenhum tipo de imunodeficiência
— Letícia Sarturi, mestre em imunologia pela USP
Não se conhece nenhuma relação entre qualquer vacina contra a Covid-19 e o desenvolvimento de síndrome da imunodeficiência adquirida
— Sociedade Brasileira de Infectologia
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que esse boato específico sobre Aids ganhou tanta força agora, em outubro de 2021?

Model

Porque foi amplificado por uma figura pública de grande alcance. Quando um presidente cita algo em uma transmissão ao vivo, mesmo que seja falso, milhões de pessoas veem. As redes sociais multiplicam isso exponencialmente.

Inventor

Mas existe alguma base científica real por trás dessa alegação, ou é pura ficção?

Model

Há uma distorção de algo real. Um artigo científico de 2020 levantou uma questão teórica sobre uma tecnologia específica de vacina — o adenovírus tipo 5 — em um cenário muito particular. Mas foi transformado em "as vacinas causam Aids", que é completamente diferente.

Inventor

E as vacinas que o Brasil está usando? Elas usam essa tecnologia?

Model

Não. Apenas a Sputnik V e a CanSino usam Ad5, e nenhuma delas foi amplamente distribuída aqui. A maioria das vacinas brasileiras usa outras tecnologias — RNA mensageiro, vírus inativado, proteína recombinante.

Inventor

Como as autoridades de saúde responderam?

Model

De forma clara e unificada. O Departamento de Saúde do Reino Unido negou. A Sociedade Brasileira de Infectologia negou. A UNAIDS negou. Especialistas em imunologia explicaram por que não faz sentido biologicamente.

Inventor

E as plataformas? Elas simplesmente deixaram o vídeo circular por semanas?

Model

Sim, até que ganhou repercussão internacional. Aí removeram. É um padrão: a desinformação viraliza primeiro, a correção chega depois, e muita gente já acreditou.

Inventor

O que preocupa mais: o boato em si ou o fato de ter vindo de uma figura pública?

Model

Os dois. O boato é perigoso porque pode desestimular pessoas com HIV a se vacinarem. Mas quando vem de um presidente, a responsabilidade é ainda maior — porque há uma audiência que confia naquela pessoa.

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