Órgãos de saúde do mundo todo recomendam os imunizantes
Nenhuma vacina COVID-19 aprovada foi proibida no Brasil; o Ministério da Saúde mantém recomendação de vacinação e defende segurança dos imunizantes. Em dezembro de 2022, houve mudança na indicação da Astrazeneca e Janssen para pessoas acima de 40 anos devido a raros casos de trombose documentados desde 2021.
- Nenhuma vacina COVID-19 foi proibida no Brasil; o Ministério da Saúde mantém recomendação de vacinação
- Em dezembro de 2022, a recomendação da Astrazeneca e Janssen foi alterada para maiores de 40 anos
- Entre janeiro de 2021 e junho de 2022, foram registrados 16 óbitos por eventos adversos graves — 1 a cada 20 milhões de doses
- Um vídeo no TikTok recebeu 18,7 mil curtidas e 16,7 mil compartilhamentos em 24 horas
Verificação desmente alegações falsas de que o Ministério da Saúde proibiu vacinas contra COVID-19. O órgão apenas ajustou recomendações de uso da Astrazeneca e Janssen para maiores de 40 anos devido a casos raros de trombose.
Em maio de 2023, vídeos começaram a circular nas redes sociais — TikTok e Kwai principalmente — com uma mensagem alarmante: as vacinas contra covid-19 haviam sido proibidas. Um deles, compartilhado no TikTok em 29 de maio, recebeu 18,7 mil curtidas e 16,7 mil compartilhamentos em apenas 24 horas. Outro, postado no Kwai em abril, acumulou 91,5 mil visualizações. Mas a afirmação central desses posts é falsa. O Ministério da Saúde nunca proibiu nenhuma vacina contra covid-19, nem alertou sobre "perigos" dos imunizantes. O que realmente aconteceu foi bem diferente — e muito menos dramático.
Os vídeos usavam um trecho de uma gravação do jornalista Alexandre Garcia, publicada em seu canal do YouTube em 13 de abril de 2023. Naquele vídeo de 14 minutos, Garcia fazia afirmações imprecisas sobre as vacinas, dizendo que o Ministério da Saúde estaria alertando tardiamente sobre riscos de trombose associados aos imunizantes da Janssen e Astrazeneca, e que a Fundação Oswaldo Cruz teria parado de produzir a Astrazeneca. Os autores dos posts amplificaram essas imprecisões, adicionando legendas como "Proibiram as vacinas, e agora? E quem já tomou?", transformando uma mudança técnica em uma suposta proibição catastrófica.
A realidade é que em dezembro de 2022 — não em abril de 2023 — o Ministério da Saúde alterou a recomendação de uso da Astrazeneca e Janssen. Essas vacinas, ambas produzidas com tecnologia de vetor viral, passaram a ser indicadas preferencialmente para pessoas a partir dos 40 anos. A razão: documentação de casos raros de Síndrome de Trombose e Trombocitopenia (STT) em alguns países europeus, na Austrália e nos Estados Unidos. A incidência dessa síndrome varia entre 0,2 e 3,8 casos por 100 mil doses aplicadas, dependendo do país. Para pessoas entre 18 e 39 anos, o ministério passou a recomendar preferencialmente vacinas de plataforma de RNA mensageiro — como a Pfizer — quando disponíveis.
Mas essa mudança não significava que as vacinas fossem perigosas ou estivessem sendo retiradas do mercado. A Anvisa, agência reguladora brasileira, deixou claro em nota de 13 de abril que nenhuma das vacinas contra covid-19 por ela aprovadas havia sido proibida ou desautorizada. A Fiocruz, responsável pela produção da Astrazeneca no Brasil, emitiu comunicado no dia 14 de abril reafirmando que não havia parado de produzir o imunizante e que ele continuava sendo seguro e eficaz. O Ministério da Saúde, por sua vez, publicou nota em abril de 2023 garantindo a segurança e eficácia da Astrazeneca, destacando que ela havia sido aprovada tanto pela Anvisa quanto pela Organização Mundial da Saúde.
O monitoramento de eventos adversos graves não era novidade. Desde abril de 2021, o Ministério da Saúde acompanhava casos de trombose associados à vacinação, tendo emitido notas técnicas sobre o assunto em 22 de abril de 2021 e 4 de agosto de 2021. Entre janeiro de 2021 e junho de 2022, foram registrados 16 óbitos por eventos supostamente atribuíveis à vacinação cuja causa foi confirmada como relacionada às vacinas — 12 pela Astrazeneca e 4 pela Janssen. Esse número correspondia a 1 caso a cada 20 milhões de doses aplicadas. Mesmo diante desses casos raros, a Anvisa manteve a recomendação de continuidade da vacinação com ambos os imunizantes, considerando que os benefícios superavam os riscos.
O que os posts nas redes sociais faziam era uma tática comum de desinformadores: comunicar-se de forma alarmista para gerar medo e engajamento. Ao transformar uma recomendação técnica em uma suposta "proibição", os autores sugeriam que as vacinas poderiam causar problemas graves de saúde. Mas órgãos de saúde em todo o mundo continuavam recomendando os imunizantes. Após o início das campanhas de vacinação, os casos de morte por covid-19 começaram a cair significativamente. Foi graças à vacinação que a Organização Mundial da Saúde pôde declarar o fim da emergência de saúde pública da pandemia em maio de 2023 — exatamente quando esses vídeos enganosos começavam a circular.
Notable Quotes
Nenhuma das vacinas contra a covid-19 aprovadas pela autarquia foi proibida ou desautorizada— Anvisa, em nota de 13 de abril de 2023
Os possíveis efeitos adversos graves, como a síndrome de trombose com trombocitopenia, são extremamente raros— Fundação Oswaldo Cruz, em comunicado de 14 de abril de 2023
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que essa história importa agora, em 2023, quando a pandemia já passou?
Porque a desinformação não termina quando a crise termina. Esses vídeos continuam circulando, acumulando centenas de milhares de visualizações, e podem influenciar decisões de saúde de pessoas que ainda precisam se vacinar ou que têm dúvidas sobre doses de reforço.
Mas o Ministério da Saúde realmente mudou algo nas recomendações. Como isso não é uma "proibição"?
A diferença é crucial. Uma proibição significa que algo deixa de ser permitido. O que aconteceu foi um refinamento: as mesmas vacinas continuam disponíveis, continuam sendo aplicadas, mas agora há uma recomendação de preferência por faixa etária baseada em evidências científicas sobre um efeito colateral muito raro.
Qual era a tática por trás desses posts?
Pegar um vídeo que já era impreciso, adicionar uma legenda alarmista, e deixar que o algoritmo das redes sociais amplificasse o medo. Um post que recebeu quase 20 mil curtidas em 24 horas — isso é alcance massivo. E quanto mais pessoas compartilham, mais o algoritmo mostra para outras pessoas.
E quanto aos 16 óbitos registrados? Isso não é preocupante?
É um número que merecia ser monitorado — e foi. Mas contexto importa: 16 óbitos em 20 milhões de doses aplicadas. Comparado aos milhões de mortes por covid-19 que as vacinas ajudaram a evitar, o risco era infinitesimal. A Anvisa sabia disso e manteve a recomendação de vacinação.
Como alguém deveria reagir ao ver um desses vídeos?
Procurar a fonte original. Verificar o que órgãos de saúde oficiais realmente dizem. Notar quando uma mudança técnica está sendo apresentada como uma catástrofe. E lembrar que desinformadores usam o medo como moeda — quanto mais assustador o título, menos provável que seja verdadeiro.