Não há evidência científica de que vacinas causem câncer ou herpes-zóster
Em tempos em que a dúvida se espalha tão rapidamente quanto os vírus, um médico brasileiro usou o Instagram para afirmar que as vacinas contra a covid-19 causavam câncer e herpes-zóster — alegações que alcançaram dezenas de milhares de pessoas antes de serem investigadas. A ciência, porém, respondeu com clareza: a Anvisa, a OMS e especialistas em imunologia confirmaram que não existe qualquer evidência ligando os imunizantes a essas doenças. O episódio nos lembra que a desinformação, quando vestida com jaleco, exige vigilância redobrada da sociedade.
- Um vídeo publicado por um médico no Instagram acumulou mais de 63 mil visualizações ao afirmar, sem qualquer base científica, que vacinas contra covid-19 causam câncer e herpes-zóster.
- A desinformação gerou mais de mil comentários e alimentou desconfiança sobre imunizantes já aprovados por rigorosos ensaios clínicos com milhares de participantes.
- A Anvisa confirmou que nenhuma notificação de eventos adversos relacionados a câncer, herpes-zóster ou doenças respiratórias foi registrada entre os vacinados no Brasil.
- Pesquisas nacionais e internacionais apontam que é a própria covid-19 — não a vacina — que está associada a um aumento de 35% nos casos de herpes-zóster durante a pandemia.
- O médico autor do vídeo, registrado sem especialidade formal no Conselho Federal de Medicina, não respondeu aos questionamentos da investigação, deixando suas alegações sem sustentação.
Em julho de 2022, um médico publicou no Instagram um vídeo afirmando que as vacinas contra a covid-19 causavam doenças graves como herpes-zóster e câncer. A postagem viralizou rapidamente, ultrapassando 63 mil visualizações e gerando mais de mil comentários — mas o conteúdo era inteiramente falso.
A Anvisa foi direta: não há qualquer evidência científica ligando os imunizantes autorizados no Brasil — Pfizer, Coronavac, Janssen e Astrazeneca — ao desenvolvimento dessas condições. Nenhuma das bulas lista câncer ou herpes-zóster como efeito adverso, e o monitoramento contínuo da população vacinada não revelou alterações no perfil de segurança.
Especialistas ouvidos durante a investigação foram unânimes. Anamélia Lorenzetti Bocca, da Universidade de Brasília, explicou que relatos isolados não constituem consenso científico — são necessários estudos com populações muito grandes para estabelecer relações de causa e efeito. Renato Kfouri, da Sociedade Brasileira de Imunizações, reforçou que eventos adversos graves são extremamente raros e que os benefícios das vacinas superam amplamente qualquer risco.
Sobre o herpes-zóster especificamente, a evidência aponta na direção oposta à alegação: pesquisadores de Minas Gerais documentaram um aumento de 35% nos casos durante a pandemia, e estudos internacionais associam esse risco à infecção pelo coronavírus — não à vacina que protege contra ele.
O autor do vídeo, Leandro Guilherme Ladeia Almeida, é médico formado em Barbacena e apresenta em seu site especializações em diversas áreas, mas o Conselho Federal de Medicina o registra sem especialidade formal. Contatado pela investigação, ele não respondeu. A OMS reafirmou que todas as vacinas aprovadas passam por testes laboratoriais e ensaios clínicos rigorosos, seguidos de farmacovigilância contínua após sua introdução no mercado.
Em julho de 2022, um médico publicou um vídeo no Instagram questionando a segurança das vacinas contra a covid-19 e afirmando que os imunizantes causavam doenças graves como herpes-zóster e câncer. A postagem alcançou mais de 63 mil visualizações e gerou mais de mil comentários antes de ser investigada. O conteúdo, porém, era inteiramente falso.
A Anvisa, órgão regulador brasileiro, confirmou que não existe qualquer evidência científica ligando as vacinas contra covid-19 ao desenvolvimento de câncer, herpes-zóster ou outras doenças respiratórias. A agência afirmou que até o momento não recebeu nenhuma notificação de eventos adversos relacionados a essas condições. Todas as vacinas autorizadas no Brasil — Pfizer, Coronavac, Janssen e Astrazeneca — passaram por testes rigorosos em laboratório e em ensaios clínicos envolvendo milhares de participantes voluntários. Nenhuma delas lista câncer, herpes-zóster ou doença respiratória como possível efeito adverso em suas bulas.
Os especialistas ouvidos pela investigação foram unânimes: não há comprovação científica de que as vacinas causem essas doenças. Anamélia Lorenzetti Bocca, coordenadora do Laboratório de Imunologia Celular da Universidade de Brasília, explicou que embora seja normal investigar possíveis correlações entre vacinas e doenças — dado o número imenso de pessoas vacinadas — esses estudos precisam envolver populações muito grandes para estabelecer uma relação de causa e efeito. Relatos de casos isolados não constituem consenso científico. Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, reforçou que os perfis de segurança das vacinas são os mesmos nas segunda, terceira e quarta doses, com eventos adversos graves sendo extremamente raros. O número de casos de covid-19 evitados pelas vacinas supera em muito qualquer efeito colateral.
Quanto ao herpes-zóster especificamente, a evidência científica aponta para uma direção oposta à alegação do médico. Pesquisadores da Universidade Estadual de Montes Claros, em Minas Gerais, documentaram um aumento de 35% nos casos de herpes-zóster durante a pandemia. Estudos internacionais também indicam um risco aumentado dessa doença em pessoas que tiveram contato com o coronavírus — não com a vacina que protege contra ele. Kfouri observou que há indícios muito mais fortes de uma relação entre herpes-zóster e a própria covid-19 do que entre a doença e os imunizantes.
O autor da postagem, Leandro Guilherme Ladeia Almeida, é médico formado pela Faculdade de Medicina de Barbacena. Segundo seu site pessoal, possui especializações em endocrinologia, medicina ortomolecular e outras áreas. No entanto, o Conselho Federal de Medicina o registra como médico sem especialidade formal. Quando contatado pela investigação, Almeida não respondeu aos questionamentos sobre as alegações feitas em seu vídeo.
A Anvisa reafirmou que todas as vacinas autorizadas são seguras e possuem perfis de eficácia definidos por estudos científicos rigorosos. O monitoramento contínuo das doses aplicadas na população brasileira — tanto do esquema primário quanto dos reforços — não aponta alterações no perfil de segurança. A Organização Mundial da Saúde também confirmou que as vacinas passam por testes laboratoriais e ensaios clínicos com milhares de participantes antes de serem aprovadas, com a segurança garantida pelas autoridades reguladoras nacionais. Após a introdução no mercado, a chamada fase de farmacovigilância permite que cientistas continuem monitorando a eficácia e segurança em um número ainda maior de pessoas por períodos mais longos.
O conteúdo investigado representa um exemplo de desinformação deliberada sobre a pandemia, publicado em rede social de amplo alcance. Investigações como essa são essenciais para proteger a segurança sanitária pública e esclarecer a população sobre a confiabilidade dos imunizantes que protegem contra a covid-19.
Notable Quotes
As vacinas tanto na segunda, terceira e quarta dose têm os mesmos perfis de segurança. São raríssimos eventos adversos graves. O número de casos evitados, no caso da covid, supera de longe os efeitos colaterais.— Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações
Não se pode ter como consenso resultados de relato de caso. O número de pessoas para se estabelecer uma correlação significativa deve ser bem grande.— Anamélia Lorenzetti Bocca, coordenadora do Laboratório de Imunologia Celular da UnB
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que um médico com registro regular no Conselho Federal de Medicina publicaria informações tão claramente falsas sobre vacinas?
Essa é a pergunta que fica sem resposta. Almeida não respondeu quando foi contatado. O que sabemos é que ele tem formação em medicina, mas o CFM o registra sem especialidade formal — e suas alegações contradizem completamente o que dizem a Anvisa, a OMS e especialistas em imunologia.
A Anvisa diz que não recebeu notificações sobre herpes-zóster relacionado às vacinas. Isso significa que ninguém reportou esses casos?
Exatamente. Se houvesse um padrão real de herpes-zóster causado pelas vacinas, a agência teria recebido notificações de eventos adversos. Mas o que os dados mostram é o oposto: herpes-zóster aumentou 35% durante a pandemia, provavelmente ligado à própria covid-19, não à vacina.
Como um vídeo com 63 mil visualizações não é removido imediatamente?
Essa é uma questão sobre como as redes sociais funcionam. O vídeo circulou antes de ser verificado. Depois que a investigação foi publicada, o conteúdo pode ter sido removido ou marcado como desinformação, mas o dano já estava feito — muitas pessoas viram e compartilharam.
Se as vacinas estimulam o sistema imunológico, como poderiam causar doenças respiratórias que ocorrem com imunidade deprimida?
Essa é a contradição lógica que os especialistas apontam. As vacinas fazem exatamente o oposto do que o médico alegava. Elas fortalecem a resposta imunológica. Doenças respiratórias graves ocorrem quando a imunidade está fraca, não quando está sendo estimulada.
O que torna essa desinformação particularmente perigosa?
Vem de alguém com credencial de médico. As pessoas tendem a confiar em profissionais de saúde, mesmo quando estão propagando falsidades. Conteúdo assim pode levar pessoas a não se vacinarem ou a desconfiar de um tratamento que as protege.