USP identifica como fígado se adapta a dietas sem carboidratos

O fígado se reorganiza para sustentar a vida sem carboidratos
Pesquisadores descobrem que o órgão muda seu sistema de comando molecular após 15 dias de dieta hiperproteica.

Nas profundezas do metabolismo hepático, pesquisadores da Universidade de São Paulo encontraram uma resposta para uma pergunta que intrigava a ciência há mais de meio século: como o organismo sustenta a glicemia sem carboidratos. Ao estudar camundongos em dieta hiperproteica, a equipe da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto revelou que o fígado não apenas fabrica glicose a partir de proteínas, mas reorganiza progressivamente o próprio sistema de comando molecular para fazê-lo — uma adaptação que pode abrir caminhos terapêuticos para o diabetes tipo 2 e o câncer.

  • O fígado de camundongos em dieta sem carboidrato manteve a glicemia estável mesmo após 12 horas de jejum, enquanto animais com dieta comum sofreram queda de 40% — uma diferença que revela uma capacidade adaptativa surpreendente.
  • Por volta do 15º dia de dieta hiperproteica, o organismo abandona o glucagon como sinal de comando e passa a depender da queda de insulina para acionar a produção de glicose, sinalizando uma troca profunda de estratégia metabólica.
  • A remoção cirúrgica das glândulas adrenais desfez a adaptação: sem glicocorticoides, os animais perderam a capacidade de manter a glicemia no jejum, revelando que o cortisol também é peça essencial nesse mecanismo.
  • Os pesquisadores alertam que extrapolar esses resultados para humanos seria precipitado — não existem estudos equivalentes em pessoas, e há indícios de efeitos colaterais em outros órgãos, como o aumento dos rins em modelos animais.
  • Compreender quem controla a gliconeogênese abre perspectivas para novos medicamentos contra diabetes tipo 2 e cânceres onde essa via metabólica está desregulada.

Há mais de cinquenta anos, a observação de que urubus mantinham glicemia normal sem ingerir carboidratos plantou uma pergunta duradoura na ciência brasileira. Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP dedicaram décadas a entender como o fígado fabrica glicose a partir de proteínas — um processo chamado gliconeogênese — e experimentos com gatos e ratos confirmaram que esse mecanismo não era exclusivo das aves, mas comum a mamíferos.

Com as ferramentas da biologia molecular, a equipe liderada pela professora Ísis do Carmo Kettelhut pôde finalmente observar o que acontecia dentro das células hepáticas. Em experimentos recentes, camundongos alimentados com dieta composta por 86% de proteínas e zero carboidrato por 30 dias mantiveram glicemia estável mesmo após 12 horas de jejum — enquanto animais com dieta balanceada sofreram queda de cerca de 40%.

O achado mais revelador foi a mudança no sistema de controle molecular. No início da dieta, o glucagon ativava a proteína CREB para estimular a produção de glicose. Mas por volta do 15º dia, essa via deixava de responder — o fígado tornava-se resistente ao glucagon — e o fator de transcrição FoxO1 assumia o comando, operando a partir da queda de insulina. O organismo transitava de uma resposta hormonal de emergência para um controle crônico e reorganizado da gliconeogênese.

Os pesquisadores também descobriram que os glicocorticoides eram indispensáveis: ao remover as glândulas adrenais dos animais, a capacidade de manter a glicemia no jejum desapareceu. As razões exatas para essa troca de estratégia ainda são investigadas, mas as hipóteses incluem economia energética e proteção das vias hormonais contra sobrecarga contínua.

Apesar do avanço, a equipe é cautelosa: não há estudos equivalentes em humanos, e há sinais de possíveis efeitos em outros órgãos. O valor maior da pesquisa está em revelar o metabolismo como um sistema dinâmico e adaptável — conhecimento que poderá, no futuro, orientar o desenvolvimento de terapias para diabetes tipo 2 e cânceres onde a gliconeogênese está desregulada.

Há mais de cinquenta anos, pesquisadores da Universidade de São Paulo observaram algo intrigante: urubus, aves que se alimentam quase exclusivamente de proteína, conseguiam manter níveis normais de glicose no sangue mesmo após longos períodos sem comer. A pergunta que surgiu era simples, mas desafiadora: como o corpo mantinha açúcar circulante sem ingerir carboidratos, o nutriente que a fisiologia clássica apontava como a principal fonte de glicose?

Essa curiosidade inicial levou a uma investigação que atravessou décadas. Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto descobriram que o fígado era a chave. Nesse órgão ocorre a gliconeogênese, o processo pelo qual o corpo fabrica glicose a partir de outras substâncias, especialmente aminoácidos derivados das proteínas. Experimentos posteriores com gatos e ratos confirmaram que essa capacidade não era uma peculiaridade das aves, mas um mecanismo adaptativo presente também em mamíferos.

Com o avanço das técnicas de biologia molecular, a equipe liderada pela professora Ísis do Carmo Kettelhut conseguiu finalmente mergulhar dentro das células hepáticas para entender o que realmente acontecia. Em um experimento recente, o pesquisador João Batista Camargo Neto alimentou camundongos adultos com uma dieta composta por 86% de proteínas, 8% de gordura, 6% de sais e vitaminas, e zero carboidrato durante 30 dias. Desde a primeira semana, os animais apresentaram níveis de glicose mais baixos que o grupo-controle, mas estáveis. Quando submetidos a 12 horas de jejum, mantiveram a glicemia praticamente inalterada, enquanto os animais com dieta balanceada tiveram queda de aproximadamente 40%.

O que os testes moleculares revelaram foi uma mudança inesperada na estratégia do fígado. No início da dieta, a produção de glicose era estimulada pelo glucagon, hormônio liberado quando o nível de açúcar no sangue cai. O glucagon ativava uma proteína chamada CREB, que induzia a expressão de enzimas responsáveis pela gliconeogênese. Mas, com o passar do tempo, mesmo com o glucagon elevado, essa via deixava de responder. O fígado se tornava resistente à ativação do glucagon.

Por volta de 15 dias após o início da alimentação hiperproteica, o organismo realizava uma "troca de estratégia". O fator de transcrição FoxO1 assumia o comando da produção de glicose. Diferentemente do CREB, o FoxO1 depende da queda da insulina para atuar, e os animais em dieta hiperproteica apresentavam níveis mais baixos desse hormônio. Essa mudança sugeria que o organismo passava de uma resposta hormonal aguda, típica de situações de emergência metabólica, para um controle crônico dos genes que comandam a produção de glicose. Era uma reorganização interna do sistema de regulação metabólica do fígado.

Outro achado relevante foi o aumento da corticosterona, hormônio equivalente ao cortisol em humanos. Quando os pesquisadores removeram cirurgicamente as glândulas adrenais dos animais, aqueles em dieta hiperproteica perderam a capacidade de manter a glicemia durante o jejum. Isso indicava que os glicocorticoides também eram essenciais na adaptação metabólica a essa dieta. Os pesquisadores ainda não sabem por que o organismo muda de estratégia, mas entre as hipóteses está a possibilidade de economia energética ou uma forma de evitar sobrecarga constante das vias hormonais.

Apesar do interesse crescente por dietas ricas em proteína e restrição de carboidratos, os pesquisadores alertam que os resultados não devem ser automaticamente extrapolados para humanos. Não há estudos em pessoas submetidas a uma dieta totalmente isenta de carboidrato como a usada no experimento. Além disso, há indícios de possíveis efeitos sobre outros órgãos, como aumento do tamanho dos rins em modelos animais submetidos a alto consumo proteico. O principal avanço do estudo está na compreensão detalhada de como o metabolismo é dinâmico e adaptável. Entender quem controla o processo de gliconeogênese poderá, no futuro, ajudar no desenvolvimento de novos medicamentos e estratégias terapêuticas para doenças como diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer, onde essa via metabólica está desregulada.

O fígado se torna resistente à ativação do glucagon. A via de sinalização é bloqueada.
— João Batista Camargo Neto, pesquisador da FMRP-USP
A via metabólica da gliconeogênese está desregulada em doenças como diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer. Entender quem controla esse processo poderá ajudar no desenvolvimento de novos medicamentos.
— João Batista Camargo Neto
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que o fígado precisaria mudar de estratégia? Se o glucagon funcionava no início, por que abandonar esse sistema?

Model

Porque o corpo é econômico. Ativar a via do CREB exige mais gasto de ATP. Talvez, a longo prazo, seja mais eficiente deixar que a insulina baixa sinalize diretamente ao FoxO1. É como trocar um sistema de alarme constante por um controle automático.

Inventor

E se o corpo não conseguisse fazer essa mudança? O que aconteceria?

Model

Provavelmente o fígado entraria em colapso. Mas o que vimos é que ele se reorganiza. Depois de 15 dias, é como se o órgão aprendesse uma nova linguagem hormonal.

Inventor

A corticosterona parece importante. Por que o corpo aumenta esse hormônio?

Model

É a resposta ao estresse metabólico. Quando você tira carboidratos completamente, o corpo sente ameaça. A corticosterona ajuda a manter a glicose circulando. Sem ela, os animais não conseguiam sobreviver ao jejum.

Inventor

Isso significa que dietas sem carboidrato são estressantes para o corpo?

Model

Em roedores, sim. Mas não sabemos se humanos respondem da mesma forma. Nós não temos dados de pessoas em dietas totalmente sem carboidrato. É um salto perigoso assumir que funciona igual.

Inventor

Qual é o maior valor dessa pesquisa para a medicina?

Model

Entender como a gliconeogênese é regulada. Em diabetes tipo 2, esse processo fica descontrolado. Se conseguirmos manipular o FoxO1 ou o CREB, talvez possamos frear a produção excessiva de glicose.

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