O corpo deixa de ser um lugar de sensibilidade e vira uma máquina de produtividade
Em silêncio, um medicamento criado para tratar uma condição clínica tornou-se símbolo de uma ansiedade coletiva: a de jovens homens que buscam, em um comprimido, a confirmação de que correspondem a um ideal de masculinidade que a sociedade construiu para eles. Especialistas alertam que esse uso sem prescrição não trata nenhuma disfunção real — mascara inseguranças, cria dependência psicológica e distorce profundamente o que significa intimidade. O que começa como busca por mais desempenho termina, com frequência, em menos prazer, menos conexão e menos liberdade.
- Jovens sem qualquer diagnóstico clínico recorrem à tadalafila para silenciar uma exigência interna de 'dar conta' de um ideal de performance sexual socialmente imposto.
- A medicação funciona como esconderijo: mascara a ansiedade em vez de resolvê-la, impedindo o desenvolvimento de autoconhecimento e segurança emocional genuínos.
- O excesso de controle transforma o sexo em teste de produtividade — o prazer desaparece, o corpo vira máquina, e a intimidade perde qualquer dimensão de troca real.
- Os danos emocionais se acumulam: ansiedade crescente, sensação de inadequação, autoestima abalada e, em muitos casos, evitação completa de relações íntimas por medo do fracasso.
- A longo prazo, a ansiedade crônica desconecta o jovem do próprio desejo, podendo gerar bloqueios definitivos — inclusive dificuldade de ereção mesmo com o uso do medicamento.
A tadalafila chegou às farmácias como resposta a um problema médico específico. Nos últimos anos, porém, passou por uma transformação silenciosa: jovens sem prescrição e sem disfunção clínica começaram a buscá-la não por necessidade, mas por desejo de mais — mais resistência, mais controle, mais correspondência a um ideal de desempenho sexual que acreditam ser esperado deles.
A psicóloga Patrícia Binhardi explica que esses jovens não tratam uma doença do corpo, mas tentam silenciar uma exigência interna, muitas vezes inconsciente, de corresponder a padrões construídos socialmente. O problema é que o medicamento funciona como esconderijo: mascara a origem da ansiedade sem resolvê-la e cria dependência psicológica. O jovem passa a acreditar que sem o comprimido não consegue — e nunca desenvolve as ferramentas emocionais que precisaria, como autoconhecimento e conexão real com o parceiro. Para Patrícia, é fundamental desconstruir a visão rígida de masculinidade e abrir espaço para que homens possam se escutar, sentir medo e aprender com isso, sem transformar tudo em corrida por validação externa.
A sexóloga Tamara W. Zanotelli aponta outro efeito colateral: quando a performance vira obsessão, o prazer desaparece. O sexo deixa de ser experiência e passa a ser um teste a ser vencido. O foco se estreita apenas na penetração, e o corpo perde sua dimensão de sensibilidade. Os impactos emocionais são concretos: ansiedade crescente, sensação de inadequação, autoestima abalada e, frequentemente, evitação de relações íntimas por medo de não corresponder.
A preocupação maior, no entanto, é o horizonte de longo prazo. A ansiedade crônica desconecta a pessoa do próprio desejo. O corpo esquece como funciona naturalmente. Surgem bloqueios que podem ser definitivos — dificuldade de ereção mesmo com o medicamento, incapacidade de expressar o que realmente se quer, desconexão emocional profunda. O que começou como busca por mais acaba gerando muito menos: menos prazer, menos conexão, menos liberdade.
A tadalafila chegou às farmácias como solução para um problema médico específico — a disfunção erétil. Mas nos últimos anos, o medicamento atravessou uma transformação silenciosa. Jovens homens que nunca tiveram prescrição médica começaram a procurá-lo, não porque sofressem de uma condição clínica, mas porque queriam mais. Mais resistência, mais controle, mais de tudo aquilo que acreditavam que o sexo deveria ser. O que começou como um remédio virou um padrão, e agora especialistas em comportamento e sexualidade alertam: essa busca está criando uma ilusão perigosa sobre o que é desempenho sexual real.
A substância pertence à mesma família da sildenafila — o Viagra — e funciona bloqueando uma enzima que restringe o fluxo sanguíneo. Legalmente, exige prescrição médica obrigatória. Mas a lei não acompanha o comportamento. Sem avaliação profissional, sem diagnóstico, o medicamento se torna um atalho para algo muito mais profundo: a ansiedade. A psicóloga Patrícia Binhardi, analista de comportamento, explica que esses jovens não estão tratando uma doença do corpo. Estão tentando silenciar uma exigência interna, muitas vezes nem consciente, de corresponder a um ideal de performance que a sociedade construiu para eles. "Eles não estão lidando com uma disfunção orgânica, mas sim com uma exigência interna — muitas vezes inconsciente — de 'dar conta' de um ideal de performance que está sendo socialmente construído", diz Patrícia.
O problema real, segundo ela, é que a medicação funciona como um esconderijo. Mascara a origem da ansiedade em vez de resolvê-la. E pior: cria uma dependência psicológica. O jovem toma o comprimido, sente-se capaz, e passa a acreditar que sem ele não consegue. Nunca desenvolve as ferramentas emocionais que precisaria — autoconhecimento, segurança, conexão real com o parceiro. A masculinidade, como está sendo vivida, não ajuda. Ela impõe símbolos de potência, força, domínio. Deixa pouco espaço para um homem ouvir a si mesmo, permitir-se sentir medo ou ansiedade, aprender com essas emoções. "É fundamental desconstruir essa visão rígida e trazer uma nova narrativa: a de que ser homem também é poder se escutar, se permitir sentir medo, ansiedade e aprender com isso, sem precisar transformar tudo em uma corrida por validação externa", afirma Patrícia.
A sexóloga Tamara W. Zanotelli, membro da Associação Brasileira dos Profissionais de Saúde, Educação e Terapia Sexual, vê outro efeito colateral: o excesso de controle. Quando a performance vira obsessão, o prazer desaparece. O sexo deixa de ser uma experiência e vira um teste que precisa ser passado. O corpo deixa de ser um lugar de sensibilidade e vira uma máquina de produtividade. "Querer controlar sucessivamente e em excesso faz com que a pessoa tenha uma obsessão pelo desempenho ideal, o que leva a uma abordagem muito controladora, onde o foco está apenas na penetração, sem expectativa maior de outros", explica Tamara. Os impactos emocionais são significativos: ansiedade crescente, sensação de inadequação, autoestima abalada, e muitas vezes, evitação completa de relações íntimas por medo de não corresponder.
Mas a preocupação maior é o que acontece a longo prazo. A ansiedade crônica pelo desempenho desconecta a pessoa do seu próprio desejo. O corpo esquece como funciona naturalmente. Aparecem bloqueios que podem ser definitivos: dificuldade de ereção mesmo com o medicamento, incapacidade de expressar o que realmente se quer, desconexão emocional profunda. O que começou como uma busca por mais acaba gerando muito menos — menos prazer, menos conexão, menos liberdade. O tema será discutido no programa Papo de Segunda desta segunda-feira, que vai ao ar às 22h30 pelo GNT, com João Vicente de Castro, Francisco Bosco, Eduardo Sterblitch e Russo Passapusso.
Citas Notables
Eles não estão lidando com uma disfunção orgânica, mas sim com uma exigência interna — muitas vezes inconsciente — de 'dar conta' de um ideal de performance que está sendo socialmente construído— Patrícia Binhardi, psicóloga e analista de comportamento
É fundamental desconstruir essa visão rígida e trazer uma nova narrativa: a de que ser homem também é poder se escutar, se permitir sentir medo, ansiedade e aprender com isso, sem precisar transformar tudo em uma corrida por validação externa— Patrícia Binhardi
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que você acha que jovens sem nenhum problema médico real começaram a procurar esse remédio?
Porque vivemos em um tempo onde a performance é moeda de troca em tudo — no trabalho, nas redes sociais, até no sexo. Um jovem vê imagens, ouve histórias, sente uma pressão invisível de ser "o cara". E quando sente insegurança, em vez de explorar isso, ele procura um atalho químico.
Mas não é só sobre sexo, certo? É sobre o que significa ser homem?
Exatamente. A masculinidade está amarrada a símbolos de potência e controle. Um homem não pode ter medo, não pode ser vulnerável, não pode simplesmente estar presente. Tem que provar algo o tempo todo. E o medicamento promete justamente isso — a ilusão de que você consegue.
E quando ele para de tomar? O que acontece?
Aí vem o pior. O corpo esqueceu como funcionar sozinho. A mente está acostumada a não confiar em si mesma. Pode aparecer disfunção real, bloqueios emocionais, desconexão total do desejo. O remédio criou o problema que supostamente estava resolvendo.
Então é uma armadilha?
É uma armadilha muito bem disfarçada de solução. Parece rápido, parece fácil, parece que resolve. Mas o que realmente precisava ser resolvido — a insegurança, a falta de autoconhecimento, a pressão interna — continua intacto. E agora tem um medicamento no meio do caminho.
Como sai dessa?
Precisa de espaço seguro, escuta real, conexão emocional. Precisa aprender que prazer não é performance. Que ser homem é poder sentir, se escutar, estar presente. Mas isso leva tempo. Não vem em um comprimido.