Unicamp confirma tirzepatida em canetas emagrecedoras ilegais do Paraguai

Usuários que se automedicam com produtos não registrados enfrentam riscos de náusea, vômito, diarreia, desidratação, hipoglicemia, pancreatite e impossibilidade de responsabilização legal por danos.
O maior prejuízo é a dificuldade de responsabilizar alguém
Advogado especialista em direito do consumidor explica o risco legal de comprar medicamentos sem registro.

Em maio de 2026, pesquisadores da Unicamp confirmaram laboratorialmente a presença de tirzepatida — princípio ativo do Mounjaro — em cinco marcas de canetas emagrecedoras fabricadas no Paraguai e comercializadas ilegalmente no Brasil por meio de redes sociais. A descoberta não é um atestado de segurança: sem registro na Anvisa, sem testes de eficácia, sem controle de impurezas e com variações de concentração de até 60%, esses produtos representam um risco real para quem os usa sem acompanhamento médico. O episódio revela uma tensão mais ampla da era contemporânea — a velocidade com que o desejo de acesso supera a prudência regulatória, deixando o indivíduo sozinho diante das consequências.

  • Canetas emagrecedoras paraguaias circulam abertamente no TikTok, Instagram e WhatsApp a preços entre R$ 850 e R$ 1.295, sem qualquer fiscalização efetiva no ponto de venda.
  • O Gluconex apresentou concentração 60% acima do declarado pelo fabricante, evidenciando que a ausência de controle de qualidade pode transformar uma dose em overdose.
  • A Anvisa alerta que identificar um princípio ativo não equivale a aprovar um medicamento — segurança, eficácia e equivalência terapêutica exigem anos de estudos clínicos, como os dez anos investidos no Mounjaro.
  • Quem importa ou revende esses produtos pode responder por contrabando ou crime contra a saúde pública; quem compra, por sua vez, enfrenta o risco mais silencioso: não ter a quem recorrer se algo der errado.
  • Enquanto o mercado informal prospera, o Ministério da Saúde começa a distribuir canetas emagrecedoras pelo SUS — um contraste que expõe a desigualdade de acesso e a urgência de uma resposta regulatória coordenada.

Em maio, pesquisadores da Unicamp adquiriram canetas emagrecedoras diretamente nas redes sociais — TikTok, Instagram e WhatsApp — pagando entre R$ 850 e R$ 1.295 por unidade. As amostras foram submetidas a três técnicas laboratoriais complementares, e o resultado foi inequívoco: todas as cinco marcas testadas (Tirzedral, TG, Lipoless, Tirzec e Gluconex) continham tirzepatida, o princípio ativo do Mounjaro. Nenhuma possuía registro na Anvisa. Todos os produtos vinham do Paraguai.

O dado mais alarmante veio do Gluconex, cuja concentração estava 60% acima do informado pelo fabricante e da referência do Mounjaro. Nas demais canetas, a variação ficou em até 20% — tolerável pela indústria, mas ainda assim sem qualquer validação regulatória. Os pesquisadores não investigaram impurezas ou contaminantes, limitando-se à identificação do princípio ativo.

A Anvisa reconheceu o valor da análise, mas sublinhou que a aprovação de um medicamento envolve muito mais do que detectar uma molécula: qualidade farmacêutica, segurança, eficácia, equivalência terapêutica e conformidade documental são eixos inegociáveis. A Eli Lilly reforçou que o desenvolvimento clínico da tirzepatida levou cerca de dez anos. Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, alertou que relatos positivos nas redes sociais não substituem evidências científicas — e que os riscos concretos incluem náusea, vômito, desidratação, hipoglicemia e pancreatite.

No plano legal, importar ou revender produtos sem registro na Anvisa configura contrabando ou crime contra a saúde pública. Para o consumidor, porém, o risco mais grave é prático: em caso de dano, não há cadeia de responsabilização a acionar. Meta e TikTok afirmam proibir esse tipo de comércio em suas plataformas, mas as vendas continuam acontecendo em tempo real. O mercado informal de canetas emagrecedoras representa pelo menos metade do total no Brasil — e o contraste com a recente distribuição pelo SUS expõe, com clareza, a dimensão do problema.

Em maio, pesquisadores da Unicamp compraram canetas emagrecedoras em redes sociais — TikTok, Instagram, WhatsApp — exatamente como qualquer outra pessoa poderia fazer. Pagaram entre R$ 850 e R$ 1.295 por unidade. Depois levaram as amostras ao laboratório para descobrir o que realmente estavam vendendo.

O que encontraram foi tirzepatida, o princípio ativo do Mounjaro, em todas as cinco marcas testadas: Tirzedral, TG, Lipoless, Tirzec e Gluconex. Todos os produtos vinham do Paraguai. Nenhum tinha registro na Anvisa. A análise foi feita a pedido da Folha de S.Paulo e usou três técnicas complementares — cromatografia líquida de alta eficiência, espectrometria de massas de alta resolução e dicroísmo circular — para confirmar não apenas a presença do princípio ativo, mas sua estrutura molecular e concentração.

O resultado foi perturbador em um ponto específico. O Gluconex apresentava uma concentração 60% maior do que a informada pelo fabricante e do que a encontrada na amostra de referência de Mounjaro. Nas outras quatro canetas, a variação ficou em até 20%, considerada aceitável pela indústria farmacêutica. Mas nenhuma delas tinha passado pelos testes de segurança, eficácia ou equivalência terapêutica que a Anvisa exige. Os pesquisadores também não avaliaram impurezas ou contaminantes — o escopo foi limitado à identificação do princípio ativo.

A Anvisa respondeu com cautela. Reconheceu o valor da análise, mas alertou para o risco de falsos positivos e falsos negativos. A avaliação regulatória, disse a agência, vai muito além de identificar um princípio ativo. Envolve cinco eixos: qualidade farmacêutica, segurança, eficácia, equivalência terapêutica e conformidade documental. A Eli Lilly, dona da patente do Mounjaro no Brasil, reforçou que encontrar o mesmo princípio ativo não comprova segurança ou eficácia. O desenvolvimento clínico da tirzepatida começou em 2016 e soma cerca de dez anos de estudos.

Mas o problema real não é químico. É humano. Esses medicamentos vêm em ampolas. O paciente precisa aspirar a dose com seringa. Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, explicou que relatos de usuários nas redes sociais sobre perda de peso sem efeitos colaterais graves não substituem as evidências exigidas por órgãos reguladores. E os riscos da automedicação são concretos: náusea, vômito, diarreia, desidratação, hipoglicemia, pancreatite. Um erro de dosagem pode ser grave.

Há também a questão legal. Quem traz do exterior produtos sem registro na Anvisa pode responder por contrabando — crime com pena de dois a cinco anos de prisão. Quem revende pode ser enquadrado tanto por contrabando quanto por crime contra a saúde pública. Mas o maior prejuízo para quem compra, segundo o advogado Stefano Ribeiro Ferri, é a dificuldade de responsabilizar alguém por eventuais danos. Se algo der errado, não há a quem recorrer.

Meta e TikTok afirmaram à Folha que a venda desse tipo de produto viola suas políticas. Meta proíbe tentativas de compra ou venda de medicamentos e afirma remover conteúdos quando identifica violações. TikTok disse que suas diretrizes vetam a comercialização de produtos com potencial para uso indevido na perda de peso que podem apresentar sérios riscos à saúde. Mas as vendas continuam acontecendo, em tempo real, nas plataformas. O mercado de canetas emagrecedoras no Brasil é pelo menos metade informal. E enquanto isso, o Ministério da Saúde começou a oferecer canetas emagrecedoras em hospitais federais via SUS — um contraste gritante com o que está sendo vendido nas ruas digitais.

Se essa estrutura não estiver preservada, o efeito do medicamento não acontece. Pequenas alterações podem ocorrer se o medicamento for armazenado em temperatura inadequada.
— José Luiz da Costa, professor de toxicologia da Unicamp
Relatos de usuários nas redes sociais sobre perda de peso sem efeitos colaterais graves não substituem as evidências exigidas por órgãos reguladores.
— Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que a concentração do Gluconex era 60% maior? Isso foi um erro de fabricação ou intencional?

Model

A análise não consegue responder isso. Pode ter sido armazenamento inadequado, temperatura errada, ou simplesmente falta de controle de qualidade. O ponto é que ninguém sabe — porque esses produtos nunca passaram por inspeção regulatória.

Inventor

Se o princípio ativo é o mesmo, por que não é seguro usar?

Model

Porque segurança não é só sobre ter a molécula certa. É sobre saber se há contaminantes, se a dose está realmente correta, se o produto foi armazenado direito. A Eli Lilly gastou dez anos testando tirzepatida. Esses fabricantes paraguaios não fizeram nada disso.

Inventor

E se alguém tiver um efeito colateral grave? Pode processar?

Model

Teoricamente sim, mas na prática é quase impossível. Quem você processa? O vendedor no TikTok? A plataforma? O fabricante no Paraguai? Não há registro, não há responsabilidade clara. Você fica sozinho.

Inventor

As plataformas dizem que removem esse conteúdo. Por que continua aparecendo?

Model

Porque é um jogo de gato e rato. Removem um anúncio, aparecem dez novos. Os vendedores usam contas falsas, mudam de perfil constantemente. E a demanda é enorme — as pessoas querem emagrecer rápido e não conseguem acesso legal.

Inventor

O que a Anvisa deveria fazer?

Model

Isso é complicado. Não é só regulação. É educação, é oferta legal de medicamentos, é combate ao contrabando. Mas enquanto isso, pessoas estão se injetando com produtos que ninguém fiscalizou.

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