Ucrânia emerge como grande vencedora da cimeira da NATO em Ancara

Conflito na Ucrânia continua a causar perdas civis e militares, com mísseis balísticos russos a atingir populações civis que carecem de proteção adequada.
Uma Europa mais forte numa NATO potencialmente mais fraca
A dinâmica emergente em Ancara revela uma transformação fundamental na segurança transatlântica.

Em Ancara, a cimeira da NATO revelou uma aliança em metamorfose: Trump partiu proclamando vitória enquanto a Ucrânia — ainda fora da Aliança — saía com as promessas mais concretas, incluindo autorização para fabricar intercetores Patriot e perspetivas de coprodução de drones. Os europeus demonstraram compromisso crescente com a defesa coletiva, mas a ausência de uma liderança americana clara e constante lança uma sombra sobre o futuro da segurança transatlântica. O que Ancara revelou não foi apenas o estado da NATO, mas a reconfiguração silenciosa do equilíbrio de poder que a sustenta.

  • Putin tentou, por telefone a 4 de julho, travar os compromissos americanos com a Ucrânia — e falhou: Zelensky saiu de Ancara com apoio militar concreto que Moscovo queria impedir.
  • A campanha ucraniana de drones na primavera criou escassez crítica de combustível na Crimeia e na Rússia, alterando a dinâmica da frente de batalha e reforçando a posição de Kiev junto de Trump.
  • Os aliados europeus e canadianos chegaram com números: um aumento de 20% nos gastos militares e 50 mil milhões de dólares em contratos de defesa, respondendo à pressão persistente de Washington.
  • A NATO anunciou 70 mil milhões de euros em financiamento para a Ucrânia em 2026 e comprometeu-se a manter níveis equivalentes em 2027, sinalizando continuidade mesmo em contexto de incerteza.
  • Analistas identificam uma contradição crescente: uma Europa mais forte nas suas próprias defesas, mas uma NATO potencialmente mais fraca pela ausência de liderança americana clara e consistente.

Donald Trump chegou a Ancara na terça-feira com críticas aos aliados e frustração visível com a Aliança. Partiu na quarta-feira proclamando um "tremendo sucesso". Entre estes dois momentos, a cimeira produziu uma declaração final de compromisso coletivo, 50 mil milhões de dólares em contratos de defesa entre aliados, e um conjunto de promessas que surpreenderam pela sua concretude.

O maior beneficiário não era membro da NATO. Volodymyr Zelensky saiu de Ancara com compromissos americanos que Putin tinha tentado bloquear numa longa chamada telefónica com Trump a 4 de julho. A campanha ucraniana de drones lançada na primavera — que criou escassez crítica de combustível na Crimeia e perturbou o abastecimento das tropas russas — havia reforçado a posição de Kiev junto do presidente americano. Trump anunciou a autorização para a Ucrânia fabricar intercetores Patriot, respondendo diretamente à vulnerabilidade mais grave do país: a proteção de civis contra mísseis balísticos russos. Sinalizou ainda abertura para coprodução de drones.

Para os aliados europeus e canadianos, Ancara foi uma oportunidade de mostrar progressos tangíveis. Depois de terem acordado uma meta de 5% do PIB em gastos militares na cimeira de Haia, chegaram com um aumento de 20% nos gastos e contratos concretos. Os 50 mil milhões em acordos industriais representavam sobretudo negócios entre europeus e canadianos — um sinal de autonomia crescente.

Mas analistas do Atlantic Council identificaram uma tensão mais profunda a emergir de Ancara: uma Europa que se fortalece nas suas próprias defesas, numa NATO que pode estar a enfraquecer pela falta de liderança americana clara. Esta reconfiguração da segurança transatlântica estava, em Ancara, apenas a dar os seus primeiros passos.

Donald Trump saiu de Ancara na quarta-feira, 8 de julho, proclamando que a cimeira da NATO tinha sido um "tremendo sucesso". Era uma reviravolta notável em relação ao tom da sua chegada um dia antes, quando havia criticado duramente os aliados pelos gastos em defesa e expressado frustração com a Aliança. Durante aqueles dois dias na capital turca, o presidente americano também tinha reaberto a questão do controlo da Gronelândia e sugerido uma possível intensificação do conflito com o Irão.

Mas quando a poeira assentou, o que emergiu foi uma declaração final que reafirmava o compromisso coletivo de defesa e anunciava 50 mil milhões de dólares em contratos de defesa entre os aliados. Trump elogiava a "unificação" da NATO. No entanto, o grande vencedor desta reunião não era sequer membro da Aliança — era a Ucrânia, que deseja ardentemente sê-lo. Volodymyr Zelensky, o presidente ucraniano, saiu de Ancara com promessas concretas de apoio militar americano que Putin tinha tentado bloquear através de uma longa conversa telefónica com Trump a 4 de julho. Segundo John Herbst, diretor sénior do Centro para a Eurásia do Atlantic Council e antigo embaixador dos EUA na Ucrânia, Putin falhou nessa tentativa.

O momentum de Kiev junto do presidente norte-americano foi alimentado em grande medida pela bem-sucedida campanha de drones que a Ucrânia lançou na primavera. Estes ataques criaram uma escassez crítica de combustível na Crimeia e em partes da Rússia, prejudicando o abastecimento das tropas russas ao longo de grande parte da linha da frente. Trump respondeu anunciando que estava disposto a autorizar a Ucrânia a fabricar intercetores Patriot — uma decisão que aborda diretamente a maior vulnerabilidade ucraniana na guerra: a capacidade limitada de proteger civis contra os mísseis balísticos russos. O presidente americano também sinalizou disponibilidade para avançar na coprodução de drones.

Além destes entendimentos com Washington, Kiev viu os 32 líderes da NATO reiterarem na declaração final o seu "apoio inabalável" e anunciarem um financiamento de 70 mil milhões de euros para este ano, comprometendo-se a manter níveis "pelo menos equivalentes" em 2027. Herbst resumiu o resultado de forma clara: Putin esperava que a cimeira reduzisse a pressão que tem enfrentado nos últimos três meses. Aconteceu exatamente o oposto.

Para os europeus e canadianos, Ancara foi uma oportunidade de demonstrar a um Trump insatisfeito que tinham feito progressos nos gastos com defesa. Depois de terem acordado numa nova meta de 5% do PIB em gastos militares na cimeira de Haia do ano anterior, os aliados chegaram a Ancara com números concretos: um aumento de 20% nos gastos, como Mark Rutte, secretário-geral da NATO, sublinhou tanto na sua visita à Casa Branca no final de junho como na semana anterior na capital turca. Os 50 mil milhões de dólares em acordos da indústria de defesa anunciados representavam principalmente contratos entre europeus e canadianos.

Mas Torrey Taussig e Philippe Dickinson, diretora e diretor adjunto da Iniciativa de Segurança Transatlântica do Atlantic Council, identificaram uma dinâmica mais complexa emergindo de Ancara. Os acordos anunciados representavam um início promissor, mas Rutte sabia que era necessário manter esse ímpeto. O que se estava a desenvolver era uma Europa mais forte numa NATO potencialmente mais fraca — uma Europa mais forte graças aos avanços europeus no reforço das suas próprias defesas, mas uma NATO mais fraca devido à falta de um compromisso claro e de liderança por parte dos Estados Unidos. Esta transformação na segurança transatlântica estava apenas a começar.

Putin esperava que a cimeira da NATO reduzisse a pressão que tem enfrentado nos últimos três meses. Aconteceu exatamente o oposto.
— John Herbst, diretor sénior do Centro para a Eurásia do Atlantic Council
Assistimos ao desenvolvimento de uma Europa mais forte numa NATO mais fraca: uma Europa mais forte graças aos avanços dos europeus no reforço das suas próprias defesas, e uma NATO mais fraca devido à falta de um compromisso claro e de liderança por parte dos Estados Unidos.
— Torrey Taussig e Philippe Dickinson, Iniciativa de Segurança Transatlântica do Atlantic Council
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Porque é que a Ucrânia é considerada a grande vencedora quando nem sequer é membro da NATO?

Model

Porque saiu de Ancara com promessas concretas de apoio militar americano que Putin tinha tentado bloquear. Não é apenas retórica — são intercetores Patriot, coprodução de drones, e 70 mil milhões de euros em financiamento. Isso muda a realidade no terreno.

Inventor

Trump chegou criticando a NATO e saiu elogiando-a. O que mudou realmente?

Model

Nada mudou nos números — os europeus já tinham aumentado os gastos em 20%. O que mudou foi Trump ver que os aliados estavam a fazer o trabalho e que a Ucrânia estava a ganhar momentum. Isso foi suficiente para ele mudar de tom.

Inventor

A campanha de drones da Ucrânia parece ser o ponto de viragem aqui.

Model

Exatamente. Quando a Ucrânia começou a atacar o abastecimento de combustível russo na primavera, criou uma escassez que prejudicou toda a linha da frente. Isso mostrou a Trump que a Ucrânia podia vencer com as ferramentas certas.

Inventor

Mas há uma preocupação subjacente aqui sobre a liderança americana, certo?

Model

Sim. Os analistas notam que está a emergir uma Europa mais forte nas suas próprias defesas, mas uma NATO potencialmente mais fraca porque os EUA não estão a fornecer liderança clara. É uma mudança fundamental.

Inventor

O que Putin esperava que acontecesse em Ancara?

Model

Esperava que a cimeira reduzisse a pressão sobre ele — que os aliados se dividissem ou que Trump o apoiasse. Aconteceu o contrário. A pressão aumentou.

Inventor

Estes acordos de defesa de 50 mil milhões de dólares — são suficientes?

Model

São um começo, mas Rutte sabe que é preciso manter o ímpeto. Ninguém sabe se isto é sustentável ou se é apenas uma resposta a Trump estar insatisfeito.

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