Uber testa assinatura para motoristas com taxa fixa em 12 cidades brasileiras

Motoristas parceiros enfrentam incerteza sobre obrigatoriedade da adesão e possível aumento efetivo de custos operacionais com o novo modelo.
Motorista paga por 24 horas, mas só pode trabalhar 12
Crítica do sindicato sobre o passe por tempo, que mantém limite diário de conexão à plataforma.

Novo sistema oferece duas modalidades: passe por tempo (24 ou 72 horas) ou por ganhos, com valores variáveis conforme mercado local. Sindicato questiona obrigatoriedade da adesão e calcula que taxa efetiva fica em torno de 30%, similar ao sistema atual de percentuais variáveis.

  • Teste em 12 cidades brasileiras, sendo Uruguaiana a única gaúcha
  • Passe de 24 horas custa R$ 35; passe de 72 horas custa R$ 94
  • Sindicato calcula taxa efetiva em torno de 30%, similar ao sistema atual
  • Obrigatoriedade da adesão ainda não foi confirmada oficialmente pela Uber

Uber testa Passe para Motoristas em 12 cidades brasileiras, substituindo taxa percentual por assinatura fixa. Modelo gera questionamentos sobre obrigatoriedade e efetiva economia para parceiros.

A Uber começou a testar em maio um novo modelo de cobrança para seus motoristas parceiros: em vez de descontar uma porcentagem de cada corrida, a plataforma oferece uma assinatura com taxa fixa. O teste acontece em 12 cidades brasileiras, sendo Uruguaiana, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, a única gaúcha selecionada. As demais cidades escolhidas são Divinópolis, Imperatriz, Itabuna, Ilhéus, Porto Velho, Rio Branco, Cascabel, Petrópolis, Juiz de Fora, Teresina e Botucatu — um mix de capitais e municípios do interior com mercados menores que os das grandes metrópoles.

O chamado Passe para Motoristas funciona de duas formas. Na modalidade por tempo, o motorista paga um valor fixo válido por 24 ou 72 horas consecutivas e fica com 100% do que receber nas viagens durante esse período. Exemplos que circularam entre os parceiros indicam custos de R$ 35 para 24 horas e R$ 94 para 72 horas, embora a Uber afirme que os valores variam conforme as características de cada mercado. Na modalidade por ganhos, o motorista paga uma taxa única e roda sem cobrança adicional até atingir um teto de ganhos definido no aplicativo. Uma vez ativado, o passe não pode ser pausado e expira quando o tempo ou o limite é alcançado, renovando-se automaticamente — o que significa que o motorista precisa alterar as configurações do aplicativo se quiser parar de usar a modalidade.

O modelo não é completamente novo para a Uber no Brasil. Desde 30 de março, a plataforma já oferecia o Passe para Motoristas aos motociclistas parceiros em cidades selecionadas. A novidade agora é a chegada do sistema aos motoristas de carro. A assinatura vale apenas para transporte de passageiros, não se aplicando às entregas. Mesmo com o passe ativo, a Uber reserva-se o direito de cobrar taxas adicionais, mas realiza um ajuste semanal para estornar qualquer valor cobrado além do preço do passe — esses estornos ocorrem até a terça-feira da semana seguinte. Passes não utilizados são intransferíveis e não reembolsáveis.

O ponto mais controverso é a obrigatoriedade da adesão. Os termos de uso da Uber descrevem o Passe para Motoristas como uma "taxa de assinatura obrigatória" para realizar viagens nas cidades onde o modelo está disponível. Relatos de motoristas das cidades participantes, segundo o Sindicato dos Motoristas de Transporte Privado Individual de Passageiros por Aplicativo do Rio Grande do Sul (Simtrapli), apontam que a adesão seria necessária para continuar rodando pela plataforma. Porém, o sindicato afirma que ainda não recebeu um comunicado oficial da Uber detalhando o funcionamento da medida. Quando procurada, a empresa não respondeu até a publicação da reportagem. Joe Moraes, diretor financeiro do Simtrapli, observou que a nota enviada pela Uber dá a entender que não se trata de obrigatoriedade, mas como é um teste, permanece a dúvida sobre o que acontecerá depois. "Tem motoristas dizendo que, nas cidades do teste, será obrigatório. Por isso, vamos fazer um questionamento formal à empresa", afirmou.

O sindicato questiona se o novo modelo realmente representa uma inovação ou uma economia para os motoristas. Plataformas regionais que operam no interior do estado já cobram dessa forma há tempos, e Uruguaiana, segundo a entidade, tem poucos motoristas da Uber em um mercado dominado por concorrentes. Uma das críticas principais diz respeito aos limites de tempo conectado: a plataforma mantém o limite de 12 horas por dia mesmo com o passe ativo. No passe por tempo, isso significa que o motorista paga por 24 horas mas só consegue trabalhar 12, pagando pela plataforma sem poder rodar nas outras 12 horas porque precisa descansar.

O sindicato realizou simulações com a ajuda de contadores para avaliar o passe por ganhos. Segundo os cálculos, um teto de R$ 1.050 em ganhos custaria R$ 235 de passe, equivalente a cerca de 23%. Somados outros fatores, o repasse efetivo se aproximaria de um terço do que o motorista fatura. "Pelos cálculos feitos por motoristas e por contadores, a taxa fica em torno de 30%, mesmo sendo cobrada por passe", calcula Moraes. Hoje, a cobrança é variável: costuma começar em 20%, mas há corridas em que a plataforma retém 40% ou 50% do valor. O sindicato defende que o repasse cobrado pelos aplicativos não ultrapasse 30%, sendo o ideal 20%.

A comunicação oficial sobre o Passe para Motoristas foi enviada aos parceiros em 25 de maio por e-mail e pela caixa de entrada do aplicativo Uber Driver. Os termos completos estão disponíveis no site da Uber, e os valores aplicados a cada cidade podem ser verificados na aba específica do aplicativo. O que permanece em aberto é se, após a fase de testes, a adesão se tornará realmente obrigatória e se o modelo trará, de fato, maior previsibilidade de ganhos como a empresa promete.

Tem motoristas dizendo que, nas cidades do teste, será obrigatório. Por isso, vamos fazer um questionamento formal à empresa
— Joe Moraes, diretor financeiro do Simtrapli
O motorista compra o passe de 24 horas, mas só pode trabalhar 12. As outras 12 horas ele está pagando para a plataforma sem poder rodar
— Simtrapli
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que a Uber escolheu justamente essas 12 cidades para o teste?

Model

São mercados menores, longe das grandes metrópoles. Uruguaiana, por exemplo, tem poucos motoristas Uber — a concorrência local é dominada por outras plataformas. É um lugar onde a empresa pode testar sem risco de perder muitos parceiros se algo der errado.

Inventor

A taxa de 30% que o sindicato calcula é realmente diferente do que a Uber cobra hoje?

Model

Não é. Hoje a cobrança é variável, começando em 20% mas chegando a 40% ou 50% em algumas corridas. O passe oferece previsibilidade, mas não necessariamente economia. É mais uma mudança de formato do que de valor.

Inventor

E se o motorista compra o passe de 24 horas mas só pode trabalhar 12?

Model

Exatamente. Ele está pagando por tempo que não consegue usar. A Uber mantém o limite de 12 horas conectado por dia — motoristas precisam descansar. Então metade do passe é desperdiçado.

Inventor

O sindicato sabe se a adesão será obrigatória?

Model

Não. A Uber não confirmou oficialmente. Os termos de uso falam em "taxa obrigatória", e motoristas nas cidades do teste relatam que seria necessário aderir para continuar rodando. Mas a empresa não respondeu quando procurada.

Inventor

Isso muda algo para o motorista que já trabalha com a Uber?

Model

Muda a forma de pagar, não o resultado final. Ao invés de ver a porcentagem descontada a cada corrida, ele paga antecipado e fica com tudo. Mas se a taxa efetiva continua em torno de 30%, o ganho líquido é o mesmo.

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