Estamos ainda longe de concluir o debate
Em meio a um cessar-fogo frágil e ao fechamento do Estreito de Ormuz, os Estados Unidos enviaram uma delegação ao Paquistão para tentar reacender negociações com o Irã — um gesto diplomático acompanhado, paradoxalmente, de ameaças de destruição em larga escala. Oito semanas de guerra no Oriente Médio revelam a distância que separa a linguagem da paz da lógica da força, enquanto 20% do petróleo mundial aguarda, imóvel, numa passagem que o mundo não pode se dar ao luxo de ignorar.
- O Estreito de Ormuz permanece bloqueado, com a Guarda Revolucionária iraniana impedindo petroleiros de passarem e disparando contra embarcações que tentam a travessia.
- Trump ameaça destruir usinas elétricas e pontes iranianas caso Teerã rejeite o acordo, enquanto o Irã acusa o bloqueio naval americano de ser um crime de guerra.
- Ambos os lados trocam acusações sobre quem violou primeiro o cessar-fogo, tornando quase impossível distinguir diplomacia de escalada.
- O negociador iraniano admite 'progressos', mas alerta que divergências profundas persistem — e desmente a afirmação de Trump de que o Irã concordou em entregar seu urânio enriquecido.
- O fechamento renovado do Estreito ameaça provocar turbulências nos mercados financeiros na segunda-feira e pressionar ainda mais os preços do petróleo global.
- No Líbano, um militar francês foi morto em emboscada durante o cessar-fogo, com o Hezbollah negando envolvimento e Israel mantendo tropas em solo libanês.
O Estreito de Ormuz transformou-se em símbolo do impasse: fechado, vigiado, intransitável. Neste domingo, enquanto Donald Trump anunciava o envio de uma delegação ao Paquistão — liderada pelo vice-presidente J.D. Vance — para tentar desbloquear as negociações com o Irã, sua mensagem nas redes sociais deixava pouco espaço para ambiguidade: se Teerã rejeitasse o acordo, os Estados Unidos destruiriam toda a infraestrutura elétrica e as pontes do país.
A retórica refletia a tensão no terreno. Trump acusou o Irã de violar o cessar-fogo ao atacar navios no Estreito no sábado. Teerã respondeu classificando o bloqueio naval americano aos seus portos como crime de guerra. A passagem estratégica, por onde circula cerca de 20% do petróleo mundial, havia sido parcialmente fechada pelo Irã após a manutenção do bloqueio — uma reversão da promessa de reabertura feita na sexta-feira, que havia animado os mercados e derrubado os preços do petróleo. O fechamento renovado ameaçava desfazer esse alívio na segunda-feira.
Apesar do tom beligerante, as negociações não estavam completamente paralisadas. Mohammed Bager Qalibaf, presidente do Parlamento iraniano e principal negociador de Teerã, reconheceu que progressos haviam sido feitos, mas foi cauteloso: muitas divergências persistiam, a confiança nos Estados Unidos era quase inexistente, e a questão nuclear — o direito do Irã ao enriquecimento de urânio — continuava sem solução. Trump havia afirmado que o Irã aceitara entregar seu urânio altamente enriquecido; Teerã desmentiu imediatamente.
No Líbano, um cessar-fogo de dez dias não impediu que um militar francês fosse morto em emboscada no sul do país, com outros três feridos. O ataque foi atribuído ao Hezbollah, que negou envolvimento. Israel mantinha tropas em solo libanês, enquanto o Exército libanês aproveitava a pausa nos combates para reparar estradas destruídas. A guerra, iniciada em 28 de fevereiro, já completava oito semanas e acumulava milhares de mortes — um peso que tornava cada avanço diplomático, por menor que fosse, simultaneamente urgente e insuficiente.
O Estreito de Ormuz permanecia fechado neste domingo, transformado em zona de contenção enquanto negociadores americanos e iranianos trocavam ameaças e acusações sobre quem violava primeiro o cessar-fogo frágil que supostamente deveria trazer paz ao Oriente Médio. Donald Trump anunciou o envio de uma nova delegação ao Paquistão, liderada pelo vice-presidente J.D. Vance, para tentar desbloquear as conversas que vinham patinando há semanas. Mas antes de qualquer otimismo, o presidente americano deixou clara sua mensagem em sua rede Truth Social: o acordo que oferecia era "razoável", e se o Irã o rejeitasse, "os Estados Unidos destruirão todas as usinas elétricas e todas as pontes do país".
A escalada verbal refletia a realidade no terreno. Trump acusou Teerã de violar o cessar-fogo ao atacar navios no Estreito de Ormuz no sábado. Em resposta, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaïl Baghaï, denunciou o bloqueio naval americano aos portos iranianos não apenas como violação do acordo, mas como "crime de guerra e crime contra a humanidade". A passagem estratégica, por onde circula cerca de 20% da produção mundial de petróleo, havia sido parcialmente fechada pelo Irã, e agora permanecia praticamente intransitável.
Apesar da retórica inflamada, havia sinais de que as negociações não estavam completamente paralisadas. Mohammed Bager Qalibaf, presidente do Parlamento iraniano e principal negociador de Teerã, reconheceu que "progressos" haviam sido feitos durante as últimas rodadas de conversas. Mas sua avaliação foi cautelosa: muitas divergências persistiam, pontos essenciais continuavam pendentes, e a confiança nos Estados Unidos era praticamente inexistente. "Estamos ainda longe de concluir o debate", disse. Trump havia afirmado na sexta-feira que os principais obstáculos tinham sido superados, incluindo a suposta aceitação iraniana de entregar seu urânio altamente enriquecido — uma afirmação que o Irã desmentiu imediatamente.
A questão nuclear permanecia no cerne do impasse. O presidente iraniano Massoud Pezeshkian questionou por que Trump acreditava ter o direito de privar o Irã de seus direitos nucleares. A República Islâmica insistia em seu direito ao uso civil da energia nuclear, negando qualquer intenção de desenvolver armas atômicas. Enquanto isso, a Turquia, vizinha do Irã, sinalizava apoio à continuação das discussões, com seu ministro das Relações Exteriores declarando que ambos os lados "esperavam" prosseguir para encerrar a guerra.
No Estreito de Ormuz, a situação se deteriorava. Neste domingo, as Forças Armadas iranianas impediram dois petroleiros de atravessar a área, navegando sob bandeiras de Botsuana e Angola. A Guarda Revolucionária havia abordado e disparado contra outras embarcações no sábado, deixando claro que qualquer aproximação seria considerada "cooperação com o inimigo". O Irã havia recuado de sua promessa de sexta-feira de reabrir o Estreito, revertendo a decisão após a manutenção do bloqueio americano aos seus portos. Trump reagiu acusando o Irã de "dar uma de esperto" e fazer "chantagem".
A guerra, iniciada em 28 de fevereiro, já havia entrado em sua oitava semana, causando milhares de mortes e disparando os preços do petróleo. O anúncio de reabertura do Estreito na sexta-feira havia impulsionado os mercados financeiros e provocado forte queda nos preços do petróleo, mas o fechamento renovado ameaçava causar turbulências nas bolsas na segunda-feira. Segundo o site Marine Traffic, o tráfego no Estreito estava completamente parado.
No Líbano, a instabilidade persistia apesar de um cessar-fogo de dez dias que havia entrado em vigor. Um militar francês foi morto no sábado em emboscada contra capacetes azuis no sul do país, com outros três feridos. O ataque foi atribuído ao Hezbollah pró-Irã, que negou envolvimento. O Exército de Israel permanecia em solo libanês, estabelecendo uma "linha amarela" de demarcação e afirmando ter eliminado uma "célula terrorista". O chefe do Hezbollah, Naïm Qassem, deixou claro que seus combatentes permaneceriam "dedo no gatilho" para responder a qualquer violação. Enquanto isso, o Exército libanês aproveitava a pausa nos bombardeios para reparar estradas e pontes que haviam sido tornadas intransitáveis.
Citas Notables
Se Teerã não aceitar o acordo, os Estados Unidos destruirão todas as usinas elétricas e todas as pontes do país— Donald Trump, via Truth Social
Impor deliberadamente uma punição coletiva à população iraniana equivale a um crime de guerra e a um crime contra a humanidade— Esmaïl Baghaï, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Trump está enviando uma delegação agora, se as conversas já vinham acontecendo?
Porque o impasse está se tornando insustentável. O Estreito de Ormuz fechado afeta os preços globais de petróleo, e nenhum lado quer ser responsabilizado pelo colapso econômico. Vance já esteve lá em 12 de abril e saiu de mãos vazias. Desta vez, Trump está sinalizando que há limite para a paciência americana.
As ameaças de Trump sobre destruir infraestrutura iraniana são reais ou apenas barganha?
São barganha, mas barganha perigosa. Trump está tentando criar pressão psicológica para que o Irã ceda em pontos nucleares. O problema é que o Irã também não pode ceder sem perder credibilidade doméstica. Ambos os lados estão presos em uma dinâmica onde recuar parece fraqueza.
O que exatamente o Irã quer que os Estados Unidos façam?
Principalmente, que levante o bloqueio naval aos seus portos. Para o Irã, isso não é um detalhe — é uma questão de soberania e de capacidade de alimentar sua população. Enquanto os EUA mantêm os portos bloqueados, qualquer acordo sobre energia nuclear soa como capitulação.
E quanto ao Hezbollah no Líbano? Isso complica as negociações?
Muito. O Hezbollah é pró-Irã, então qualquer violação do cessar-fogo no Líbano enfraquece a posição de Teerã nas negociações. Mas o Hezbollah também tem seus próprios interesses e não responde diretamente a Teerã. É um terceiro ator que ninguém consegue controlar completamente.
Se o Estreito permanecer fechado, o que acontece com a economia global?
Os preços do petróleo disparam, a inflação volta, e os mercados financeiros entram em pânico. Nenhum país quer isso, inclusive os EUA. Por isso Trump está pressionando tão duro — ele sabe que o tempo está contra ele também.