Se vocês não têm vontade ou capacidade, não há sentido em continuar
No limiar de um acordo que prometia encerrar meses de guerra regional, Israel bombardeou Beirute — e o gesto, pequeno em escala mas imenso em consequências diplomáticas, fez tremer a arquitetura frágil da paz. Trump, que esperava celebrar seu aniversário de 80 anos com a assinatura de um memorando histórico, voltou-se contra Netanyahu com uma franqueza rara entre aliados. O Irã, por sua vez, fechou seu espaço aéreo e deixou a pergunta sem resposta: assinar ou não assinar. Entre a vontade de paz e a lógica da guerra, a região permanece suspensa.
- Um bombardeio israelense em Beirute, horas antes da assinatura prevista de um acordo de paz regional, matou ao menos três pessoas e colocou em risco semanas de negociações delicadas.
- Trump rompeu publicamente com Netanyahu, afirmando que Israel 'não tem bom senso' e que o ataque foi 'muito pequeno e insignificante' para justificar o estrago diplomático causado.
- O principal negociador iraniano respondeu com ceticismo cortante, questionando se os EUA têm 'vontade ou capacidade' de cumprir seus compromissos — e Teerã fechou seu espaço aéreo prometendo resposta 'iminente'.
- O acordo em jogo era ambicioso: reabertura do Estreito de Ormuz, desbloqueio de 24 bilhões de dólares em fundos congelados, gestão do programa nuclear iraniano e garantias sobre o Líbano.
- Ao fim do domingo, o Irã ainda não havia confirmado a assinatura, um assessor catariano chegou a Teerã para 'analisar os últimos acontecimentos', e a paz seguia suspensa sobre um fio.
Donald Trump passou o domingo de seu aniversário de 80 anos não celebrando um acordo de paz, mas desabafando contra Benjamin Netanyahu. Horas antes de um memorando regional estar pronto para ser assinado, Israel bombardeou os subúrbios de Beirute, matando ao menos três pessoas. Trump não escondeu a irritação: disse ao Axios que ficou "muito p..." com o ataque, descreveu-o como "muito pequeno e insignificante" e afirmou ter adiado a confirmação do memorando por algumas horas. No Truth Social, pediu que todos os lados recuassem. "Este pode ser o início de uma paz longa e bela — não vamos estragar tudo!", escreveu.
Do lado iraniano, a resposta foi de ceticismo afiado. O principal negociador publicou no X que os EUA "não têm vontade ou capacidade de cumprir seus compromissos" e questionou o sentido de continuar pelo mesmo caminho. Teerã fechou o espaço aéreo no oeste do país e prometeu resposta "iminente". O secretário do Conselho de Segurança Nacional iraniano foi direto: "O Líbano é a nossa vida e a violação das linhas vermelhas da República Islâmica não será tolerada".
O acordo em discussão era de grande alcance. Após semanas de ataques recíprocos desde o início do conflito — deflagrado em 28 de fevereiro com o assassinato do aiatolá Khamenei —, o texto previa a reabertura do Estreito de Ormuz, o fim do bloqueio naval aos portos iranianos, o desbloqueio de 24 bilhões de dólares em fundos congelados e uma nova gestão do programa nuclear. O primeiro-ministro do Paquistão, mediador no processo, havia garantido na sexta e no sábado que a assinatura eletrônica ocorreria em 24 horas. Trump também havia cravado o domingo como data.
Mas os detalhes divergiam entre os negociadores, e o bombardeio adiou tudo. Ao fim do dia, a agência Fars citou fonte próxima à equipe iraniana: Teerã "ainda não tomou nem anunciou sua decisão final". Um assessor catariano chegou à capital iraniana para avaliar os últimos acontecimentos. O colunista Gideon Levy, do Haaretz, sugeriu que Israel tentava derrubar o acordo ou, ao menos, manter opções abertas no Líbano — país que acumula mais de 3.700 mortes desde o início da guerra. A região permanecia à beira de uma nova escalada, com a paz tão perto e tão distante quanto antes.
Donald Trump desabafou contra Benjamin Netanyahu no domingo, acusando o primeiro-ministro israelense de sabotagem diplomática. Horas antes de um acordo de paz regional estar pronto para ser assinado — coincidindo com o aniversário de 80 anos de Trump — Israel bombardeou Beirute, matando pelo menos três pessoas nos subúrbios da capital libanesa. Trump não poupou palavras. "Por que Bibi teve que fazer um ataque, caramba? Eu fiquei muito p....", disse ao portal Axios, descrevendo o bombardeio como "muito pequeno e insignificante" e afirmando que havia adiado a confirmação do memorando em "algumas horas".
O ataque israelense reacendeu as tensões que as negociações tentavam apaziguar. Do lado iraniano, o principal negociador respondeu com ceticismo cortante. Os Estados Unidos, escreveu ele na rede social X, ou não têm vontade de cumprir seus compromissos ou não têm capacidade para fazê-lo. "Se vocês não têm vontade ou capacidade de cumprir seus compromissos, então não há sentido em falar sobre continuar por esse caminho." Simultaneamente, autoridades iranianas fecharam o espaço aéreo no oeste do país e prometeram uma resposta "iminente" de seus combatentes. Mohamad Baqer Zolqadr, secretário do Conselho de Segurança Nacional iraniano, foi direto: "O Líbano é a nossa vida e a violação das linhas vermelhas da República Islâmica não será tolerada".
O acordo em discussão era ambicioso. Após semanas de ataques recíprocos e ameaças existenciais, Trump havia anunciado com pompa que um texto para encerrar o conflito — que começou em 28 de fevereiro com o assassinato do aiatolá Ali Khamenei — estava próximo. O memorando deveria abordar a reabertura do Estreito de Ormuz, o fim do bloqueio naval aos portos iranianos, o programa nuclear do Irã e as bases de segurança para evitar a retomada da guerra. Na sexta-feira, a agência iraniana Mehr havia publicado um rascunho em 14 pontos que incluía o direito ao enriquecimento de urânio e o desbloqueio de 24 bilhões de dólares em fundos iranianos congelados no exterior — uma demanda crucial para uma economia asfixiada pelas sanções e pelo bloqueio naval.
Mas os detalhes variavam conforme o interlocutor. Trump afirmava que os Estados Unidos recuperariam o material enriquecido "no momento oportuno", diferente da posição anterior de Washington, que exigia o "desmantelamento" completo do programa nuclear. Não havia garantias sobre a liberação imediata dos fundos congelados ou sobre a retirada gradual das sanções. O ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, confirmou que o texto previa o fim do bloqueio americano aos portos iranianos e uma nova gestão do Estreito de Ormuz, controlado por Teerã desde o início da guerra. Quanto ao Líbano — ponto crucial para Teerã — um funcionário de alto escalão do governo americano indicou que o país estava, sim, incluído no acordo.
O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, atuando como mediador, havia afirmado na sexta e no sábado que o memorando seria assinado por via eletrônica nas próximas 24 horas, com detalhes a serem discutidos depois. Trump também havia cravado que a assinatura aconteceria no domingo. Mas o bombardeio em Beirute adiou tudo. E no domingo à noite, a agência Fars, próxima a círculos conservadores iranianos, publicou um comunicado citando "uma fonte bem informada próxima à equipe negociadora iraniana": "A República Islâmica do Irã ainda não tomou nem anunciou sua decisão final em relação ao memorando de entendimento proposto durante as negociações". Um assessor do ministro das Relações Exteriores do Catar chegou à capital iraniana naquele mesmo dia para "analisar os últimos acontecimentos relacionados ao processo diplomático".
O colunista do Haaretz Gideon Levy ofereceu uma leitura cética do comportamento israelense. Em entrevista à al-Jazeera, sugeriu que Israel estava tentando derrubar o acordo ou, pelo menos, agradar seu público político interno e deixar o máximo de possibilidades em aberto na questão libanesa. Trump, por sua vez, pediu parcimônia de todos os lados. "Estamos muito perto de um acordo que trará paz à região, incluindo ao Líbano, e todos os lados devem recuar. Não deve haver mais ataques de Israel em qualquer lugar do Líbano, mas também não deve haver mais ataques de qualquer outra parte, incluindo o Hezbollah, contra Israel. Este pode ser o início de uma paz longa e bela — não vamos estragar tudo!", escreveu no Truth Social.
Mas a paz estava longe de ser certa. O conflito havia deixado um rastro de destruição: mais de 3.700 mortes no Líbano segundo o governo local, com os bombardeios de domingo adicionando pelo menos três vidas à conta. A guerra começou em 28 de fevereiro com o ataque israelense e americano que matou Khamenei. O Irã respondeu com bombardeios contra alvos americanos nos países do Golfo e fechou o Estreito de Ormuz. Em 2 de março, o Líbano entrou na guerra com os ataques do Hezbollah contra Israel, que respondeu com uma ofensiva militar devastadora. Uma trégua em 8 de abril interrompeu a maior parte dos ataques diretos entre Irã e Estados Unidos, mas não incluiu Israel nem paralisou a guerra no Líbano — exatamente o que Teerã exigia. Agora, com o acordo em suspenso e as promessas de resposta iraniana ecoando, a região permanecia à beira de uma escalada.
Citas Notables
Por que Bibi teve que fazer um ataque, caramba? Eu fiquei muito p.... Ele não tem o menor bom senso.— Donald Trump, ao portal Axios
Os Estados Unidos ou não têm vontade de cumprir seus compromissos, ou não têm capacidade para fazê-lo.— Principal negociador iraniano, na rede social X
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Trump está tão furioso com Netanyahu especificamente neste momento?
Porque Netanyahu bombardeou Beirute literalmente horas antes de Trump poder assinar um acordo que ele havia anunciado com pompa. Para Trump, era uma questão de timing político e de controle — ele queria ser o homem que trouxe paz no seu aniversário de 80 anos.
Mas Israel tem o direito de se defender, certo? Trump mesmo disse isso.
Sim, Trump reconheceu esse direito. Mas chamou o ataque de "muito pequeno e insignificante" — ou seja, não era uma ameaça existencial. Para Trump, foi um gesto desnecessário que prejudicou a diplomacia.
E o Irã? Por que não confirmam o acordo?
Porque o Irã vê o bombardeio como prova de que os americanos não conseguem controlar Israel. Se os EUA não conseguem fazer Netanyahu parar, por que o Irã deveria confiar em qualquer promessa que Washington faça?
Então o acordo está morto?
Não está morto, mas está em coma. O Paquistão ainda está tentando mediar, o Catar enviou um assessor para conversar. Mas o Irã fechou seu espaço aéreo e prometeu uma resposta "iminente". Isso não é linguagem de quem está pronto para assinar um tratado de paz.
Qual é o prêmio real aqui? O que cada lado quer de verdade?
O Irã quer 24 bilhões de dólares em fundos desbloqueados para respirar economicamente, e quer que o Hezbollah no Líbano seja protegido. Israel quer segurança e quer que o Irã não tenha armas nucleares. Os EUA querem estabilidade regional. Ninguém quer ceder o suficiente para que os outros ganhem.