A aliança não discute mais apenas Rússia e Irã. Precisa administrar Trump.
Na sede da Otan, Donald Trump voltou a desafiar os limites da aliança atlântica com críticas à Espanha, apelos à anexação da Groenlândia e questionamentos sobre o valor da proteção militar americana — enquanto líderes europeus, conscientes das guerras que cercam o continente, escolheram a diplomacia do silêncio em vez do confronto. É uma cena que se repete: a maior aliança militar da história sendo administrada, mais do que liderada, por aqueles que dependem dela para sobreviver. O que está em jogo não é apenas o orçamento de defesa, mas a pergunta mais antiga da geopolítica — até onde vai a lealdade quando o preço sobe?
- Trump anunciou a suspensão das relações comerciais com a Espanha após o país recusar elevar gastos militares para 5% do PIB, transformando uma divergência interna da Otan em crise diplomática bilateral.
- O presidente americano pressionou Zelensky sobre ataques ucranianos a alvos russos, classificando-os como escalada, e chegou a perguntar se o líder ucraniano estaria disposto a ir a Moscou encontrar Putin.
- Líderes europeus responderam com uma coreografia de unidade: Rutte anunciou 27 bilhões de euros em infraestrutura militar, Starmer declarou a aliança mais forte, e Merz recorreu a uma frase quase surrealista — 'O amor está no ar'.
- Sanchez minimizou o atrito com Trump, descrevendo a conversa como 'amigável e cordial', enquanto Meloni defendeu sua aposta política de manter o diálogo aberto com Washington apesar das críticas recentes.
- Na volta aos Estados Unidos, Trump suavizou o tom sobre a Espanha sem clareza sobre o que mudou — deixando os europeus, mais uma vez, a interpretar sinais ambíguos e a preparar o próximo round de contenção.
A cúpula da Otan terminou como começou: com Donald Trump no centro da tensão e os líderes europeus ao redor, sustentando a aparência de controle. O presidente americano criticou a Espanha por recusar elevar seus gastos militares para 5% do PIB, anunciou a suspensão das relações comerciais com o país, voltou a defender o controle americano sobre a Groenlândia e reclamou, mais uma vez, do custo da proteção militar à Europa. Ninguém o confrontou diretamente.
Enquanto o secretário-geral Mark Rutte defendia os ataques americanos ao Irã como 'absolutamente necessários' e Macron pedia calma nas negociações, Trump pressionava Zelensky sobre os recentes ataques ucranianos a alvos russos — classificando-os como escalada, mas reconhecendo que poderiam abrir caminho para negociações — e chegou a perguntar se o presidente ucraniano iria a Moscou encontrar Putin.
O primeiro-ministro espanhol Pedro Sanchez descreveu sua conversa com Trump como amigável, mas a tensão era visível. Os europeus responderam com gestos de coesão: Rutte anunciou 27 bilhões de euros em infraestrutura militar, Starmer insistiu que a aliança saía fortalecida, e Merz ofereceu uma frase que soava quase desesperada — 'O amor está no ar'. Meloni, recentemente criticada por Trump, disse não se arrepender de ter mantido o diálogo aberto com Washington.
A lógica por trás da estratégia europeia era clara: diante das guerras em curso na região, romper com os Estados Unidos seria um risco maior do que tolerar as excentricidades do presidente americano. Todos sabiam o que estava acontecendo. Todos preferiram não dizer em voz alta.
Na viagem de volta, Trump voltou a falar da Espanha — desta vez com tom mais ameno, dizendo que o país havia sido 'muito generoso', sem detalhar o que mudou. Era o tipo de declaração que deixava tudo em aberto. Os europeus, por sua vez, continuavam seu trabalho de manutenção da aliança, cientes de que teriam de repeti-lo em breve.
A cúpula da Otan terminou como começou: com Donald Trump no centro da tensão, e os líderes europeus ao redor dele, tentando fingir que tudo estava sob controle. Desta vez, o presidente americano criticou a Espanha por se recusar a elevar seus gastos militares para 5% do produto interno bruto, anunciou a suspensão das relações comerciais com o país, voltou a defender que a Groenlândia passasse ao controle dos Estados Unidos, e reclamou mais uma vez do custo da proteção militar americana à Europa. Ninguém o confrontou diretamente.
O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, começou a reunião defendendo os ataques americanos contra o Irã, dizendo que eram absolutamente necessários como resposta à violação do cessar-fogo. O presidente francês, Emmanuel Macron, concordou e pediu que as negociações prosseguissem com calma e paciência. Mas enquanto isso, Trump estava em outro lugar, pressionando o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky sobre os recentes ataques ucranianos contra alvos russos, classificando-os como uma escalada do conflito, embora reconhecesse que poderiam abrir caminho para negociações. Perguntou a Zelensky se ele iria a Moscou para se encontrar com Vladimir Putin.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sanchez, minimizou o confronto com Trump, descrevendo sua conversa com o americano como amigável e cordial. Mas a tensão estava ali, visível, e os europeus sabiam que precisavam fazer algo para preservar a imagem de unidade da aliança. Rutte anunciou um novo investimento de 27 bilhões de euros em infraestrutura militar. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, insistiu que a Otan saía mais forte da cúpula. O chanceler alemão, Friedrich Merz, ofereceu uma frase que soava quase desesperada: "O amor está no ar". A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que havia sido criticada recentemente por Trump, disse que não se arrependia do investimento político que havia feito para manter aberto o diálogo com Washington.
O que estava acontecendo era claro para qualquer observador: a aliança não estava mais discutindo apenas Rússia, Irã ou Ucrânia. Agora precisava administrar as posições do próprio presidente americano. Os europeus escolheram a estratégia da coesão performática porque, diante das guerras em curso na região, romper com os Estados Unidos seria um risco ainda maior do que tolerar as excentricidades de Trump. Ninguém tinha ilusões sobre o que estava acontecendo. Todos apenas preferiram não dizer em voz alta.
Na noite de quarta-feira, durante a viagem de retorno aos Estados Unidos, Trump voltou a falar sobre a Espanha. Sem dar detalhes específicos, disse que ainda tinha divergências com o governo espanhol, mas que o país se havia reaproximado e havia sido, nas suas palavras, "muito generoso". Era o tipo de declaração que deixava em aberto se havia realmente uma mudança ou se era apenas mais uma reviravolta retórica. Os europeus, por sua vez, continuavam seu trabalho de manutenção da aliança, sabendo que teriam de fazer isso novamente em breve.
Citações Notáveis
Foi absolutamente necessário— Mark Rutte, secretário-geral da Otan, defendendo os ataques americanos contra o Irã
Nunca vi tanta unidade entre os países-membros— Mark Rutte, sobre a coesão da aliança durante a cúpula
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que os líderes europeus não confrontaram Trump diretamente sobre suas críticas?
Porque o custo de romper com os Estados Unidos neste momento é maior do que o custo de tolerar suas excentricidades. Com guerras acontecendo na região, a aliança é mais necessária do que nunca.
Mas isso não enfraquece a Otan a longo prazo? Se Trump consegue ditar termos sem resistência?
Talvez. Mas no curto prazo, os europeus estão apostando que a coesão visível — o investimento de 27 bilhões de euros, as declarações de unidade — é mais importante do que uma briga que não podem vencer.
A Espanha realmente se "reaproximou" ou Trump apenas disse isso?
Provavelmente ambas as coisas. Pedro Sanchez minimizou o confronto publicamente, o que é uma forma de reaproximação. Trump, por sua vez, declarou vitória. Ninguém perdeu a face completamente.
E a Groenlândia? Trump realmente quer anexá-la?
Ele continua falando sobre isso, mas ninguém sabe se é uma posição real ou uma tática de negociação. O que importa é que os europeus não estão levando isso como uma ameaça existencial — ainda.
Merz disse "O amor está no ar". Isso é sincero?
Não. É uma tentativa de desarmamento através do humor. Uma forma de reconhecer a tensão sem nomeá-la diretamente. Os europeus estão tentando manter a temperatura baixa.