Politicamente, Trump está numa situação mais difícil
Trump adiou ataque ao Irã novamente, desta vez alegando fragmentação do regime iraniano e pedido de Paquistão, mas sem fixar novo prazo para decisão. Irã critica mensagens contraditórias dos EUA; Guarda Revolucionária ameaça destruir produção de petróleo do Golfo se guerra retomar; vice de Trump cancelou viagem a negociações.
- Trump estendeu cessar-fogo com Irã pela sexta vez desde 28 de fevereiro, sem fixar novo prazo
- Bloqueio naval ao Estreito de Ormuz mantido; Irã exige suspensão como pré-condição para negociações
- Popularidade de Trump em 36% de aprovação, a mais baixa desde janeiro de 2025
- No Líbano: 2.454 mortos, mais de 7 mil feridos, mais de 1 milhão deslocados desde março
Trump estende cessar-fogo com o Irã pela sexta vez, exigindo proposta unificada do regime, enquanto mantém bloqueio naval ao Estreito de Ormuz e sinais de fragmentação interna iraniana.
Donald Trump anunciou na terça-feira à tarde, através de sua rede social Truth Social, que havia estendido o cessar-fogo com o Irã pela sexta vez desde o início da guerra em 28 de fevereiro. Desta vez, o presidente americano justificou a decisão argumentando que o governo iraniano estava seriamente fragmentado e que havia recebido um pedido do marechal de campo Asim Munir e do primeiro-ministro Shehbaz Sharif, do Paquistão, para suspender o ataque até que os líderes iranianos apresentassem uma proposta unificada. Mas Trump não estabeleceu um novo prazo para sua decisão final, deixando em aberto quando poderia retomar as operações militares.
O presidente republicano também ordenou que as Forças Armadas dos Estados Unidos mantivessem o bloqueio naval ao Estreito de Ormuz e permanecessem em prontidão. A extensão do cessar-fogo, porém, ocorreu em um contexto de sinais claros de que ambos os lados estavam relutantes em negociar. O vice-presidente J.D. Vance cancelou sua viagem a Islamabad, onde comandaria a delegação americana em uma nova rodada de conversações. Do lado iraniano, Esmaeil Baqaei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, criticou duramente a postura dos Estados Unidos, afirmando que o país enfrentava mensagens e comportamentos contraditórios dos americanos. A Guarda Revolucionária Iraniana foi além, ameaçando destruir a produção de petróleo de países do Golfo Pérsico caso Trump decidisse retomar a guerra.
Especialistas em relações internacionais apontam que o impasse diplomático é profundo. Kai Enno Lehmann, professor da Universidade de São Paulo, observou que o Irã havia sinalizado que não participaria das negociações em Islamabad, e que Trump não queria gastar capital político em uma negociação que poderia fracassar. Segundo Lehmann, o fechamento do Estreito de Ormuz representa um problema significativo para a economia mundial e para os próprios Estados Unidos, tendendo a exercer pressão política sobre Trump. O professor questionou o que os americanos ganharam com a guerra: os mortos, o preço da gasolina, tudo isso valeu a pena por quê? Politicamente, argumentou, Trump está em uma situação mais difícil do que o regime iraniano, que não precisa se preocupar com sua população.
Cristina Soreanu Pecequilo, professora da Universidade Federal de São Paulo, considerou exagerado usar o termo "definitivo" para qualquer acordo de cessar-fogo que Trump pudesse defender. Ela avalia que os dois lados precisam chegar a um termo em comum e que as coisas parecem caminhar para um novo formato de negociações, possivelmente envolvendo mais interlocutores iranianos menos ligados ao regime anterior. Pecequilo não vê Trump desmoralizado com o novo adiamento, sugerindo que ele pode até interpretá-lo como uma vitória relativa, comprovando sua tese de que o regime dos aiatolás está enfraquecido. Ela alertou, porém, para o perigo de um conflito recorrente apesar dos altos custos para Trump, especialmente considerando que os interesses de Israel no Irã, no Líbano e na Faixa de Gaza nem sempre convergem.
Habib Malik, professor aposentado de história da Universidade Libanesa Americana, identificou o principal entrave para um acordo: o bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos ao Irã. Os iranianos querem que a medida seja suspensa como pré-condição para as conversações, mas Trump não está disposto nem a considerar tal possibilidade. Enquanto isso, a popularidade de Trump atingiu seu ponto mais baixo desde o início de seu segundo mandato em janeiro de 2025. Uma pesquisa da Reuters e do instituto Ipsos mostrou que apenas 36% dos americanos aprovam seu governo, com uma taxa de desaprovação de 62%.
Paralelamente às negociações com o Irã, o conflito no Líbano continua a causar sofrimento humano em larga escala. Israel voltou a atacar o sul do Líbano na terça-feira em resposta a disparos de foguetes do Hezbollah contra o norte israelense. Um cessar-fogo de dez dias havia sido acertado entre Israel e o governo libanês, mas sem a participação do grupo pró-iraniano. Desde o reinício das hostilidades em março, autoridades libanesas contabilizavam 2.454 mortos e mais de 7 mil feridos. Israel registrava 13 soldados mortos e menos de dez civis. A ofensiva israelense provocou o deslocamento de mais de 1 milhão de moradores das áreas atingidas, principalmente dos subúrbios do sul de Beirute e do sul e leste do país, redutos da comunidade xiita e do Hezbollah.
O governo libanês se vê pressionado para estabelecer uma trégua mais segura e durável. O presidente Joseph Aoun, um cristão maronita, defendeu a opção diplomática contra acusações de que estava capitulando frente a Israel, afirmando que as negociações não eram sinal de fraqueza. O Hezbollah, porém, rejeitou qualquer negociação, equiparando a atual ofensiva israelense com a ocupação mantida no sul do país entre 1982 e 2000. O secretário-geral do movimento, xeque Naim Qassem, declarou que ninguém tinha o direito de levar o Líbano em direção a um acordo sem consenso interno entre as comunidades que compõem o país — e esse consenso não havia sido construído. A região permanece em um equilíbrio precário, com negociações diplomáticas ocorrendo simultaneamente em múltiplas frentes, mas sem garantias de que qualquer acordo durará.
Citações Notáveis
Considerando que o governo do Irã está seriamente fragmentado, fomos solicitados a suspender nosso ataque até que seus líderes apresentem uma proposta unificada— Donald Trump, em anúncio na Truth Social
O motivo desta situação é que estamos enfrentando mensagens contraditórias, comportamentos contraditórios e ações inaceitáveis por parte dos Estados Unidos— Esmaeil Baqaei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã
Rejeitamos qualquer negociação fútil com a entidade ocupante. Ninguém tem o direito de levar o Líbano nessa direção sem um consenso interno— Xeque Naim Qassem, secretário-geral do Hezbollah
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que Trump continua estendendo o cessar-fogo se ambos os lados parecem relutantes em negociar?
Porque ele está preso em uma armadilha política. Se retomar a guerra agora, como vende isso para o povo americano? Mas se aceita um acordo fraco, parece que perdeu. Então ele adia, esperando que algo mude.
E o que muda com essas extensões?
Teoricamente, o Irã deveria se fragmentar mais, suas lideranças deveriam se unificar, alguém deveria piscar primeiro. Mas na prática, cada lado usa o tempo para se fortalecer ou para justificar sua próxima ação.
O bloqueio naval parece ser o ponto de ruptura real.
Exatamente. O Irã não pode vender petróleo. Trump não pode soltá-lo sem parecer fraco. É um impasse que nenhuma extensão de cessar-fogo resolve.
E a popularidade de Trump caindo para 36%? Isso o força a negociar?
Deveria, mas também o força a não parecer que está negociando de um lugar de fraqueza. É por isso que ele fala em fragmentação iraniana — para manter a narrativa de que está vencendo.
No Líbano, as pessoas estão morrendo enquanto isso acontece.
Sim. Mais de um milhão deslocadas. E o Hezbollah diz que não negocia sem consenso interno libanês. Então você tem três guerras acontecendo ao mesmo tempo, cada uma com sua própria lógica, nenhuma resolvida.
Isso termina em acordo ou em escalada?
Os especialistas não sabem. Existe pressão econômica real sobre Trump pelo bloqueio. Mas também existe pressão política para não parecer que cedeu. Tudo depende de qual pressão vence primeiro.