Agora será propriedade de grandes patriotas americanos
Após anos de batalhas regulatórias entre Washington e Pequim, a ByteDance chegou a um acordo que redefine a presença do TikTok nos Estados Unidos: uma joint venture de controle majoritariamente americano, desenhada para responder às inquietações sobre soberania de dados e segurança nacional. O arranjo revela como plataformas digitais tornaram-se territórios de disputa geopolítica, onde algoritmos e dados de 200 milhões de usuários pesam tanto quanto tratados diplomáticos. A solução encontrada é menos uma vitória clara de qualquer lado do que um compromisso pragmático — um espelho da era em que tecnologia, política e capital global se entrelaçam de formas cada vez mais difíceis de separar.
- O TikTok esteve à beira da proibição total nos EUA após a Suprema Corte manter uma lei de 2024 que exigia a venda dos ativos americanos da ByteDance até janeiro de 2025.
- A tensão entre segurança nacional americana e os interesses comerciais chineses criou uma crise que ameaçava cortar o acesso de mais de 200 milhões de usuários ao aplicativo.
- Trump optou por não aplicar a lei de proibição, abrindo espaço para uma negociação que envolveu diretamente os governos dos EUA e da China na aprovação do acordo.
- A solução estruturada — a TikTok USDS Joint Venture LLC, com Oracle, Silver Lake e MGX como gestores e 80,1% nas mãos de investidores ocidentais — tenta satisfazer as exigências legais sem eliminar a ByteDance do quadro.
- Cruciais detalhes operacionais, como a relação comercial entre a joint venture e a ByteDance e os mecanismos reais de proteção de dados, ainda não foram divulgados, deixando dúvidas sobre a eficácia prática do arranjo.
A ByteDance anunciou a criação da TikTok USDS Joint Venture LLC, uma estrutura de controle majoritariamente americano pensada para encerrar anos de disputas regulatórias e afastar a ameaça de proibição do aplicativo nos Estados Unidos. Investidores norte-americanos e globais deterão 80,1% do empreendimento, enquanto a ByteDance manterá 19,9% — limite que busca cumprir a lei aprovada pelo Congresso em abril de 2024.
A história dessa crise remonta a agosto de 2020, quando Trump tentou banir o TikTok pela primeira vez alegando riscos à segurança nacional. A batalha escalou até a Suprema Corte, que manteve a exigência de desinvestimento. Desta vez, porém, Trump escolheu não aplicar a proibição, preferindo negociar — e o resultado foi um acordo que ele celebrou nas redes sociais, descrevendo o TikTok como propriedade de 'grandes patriotas americanos' e agradecendo ao presidente Xi Jinping pela aprovação chinesa.
Três gestores dividirão 15% cada do capital: a Oracle, o fundo Silver Lake e a MGX, empresa de investimentos de Abu Daabi. A joint venture promete proteger dados de usuários e algoritmos por meio de medidas robustas de segurança cibernética. Trump, que possui mais de 16 milhões de seguidores no TikTok e atribui ao aplicativo papel relevante em sua reeleição, tem razões pessoais para querer a plataforma funcionando — a Casa Branca inclusive abriu uma conta oficial na rede em agosto.
Ainda assim, o acordo deixa questões fundamentais sem resposta. Como a joint venture se relacionará comercialmente com a ByteDance? Quais são as responsabilidades específicas de cada investidor? Os mecanismos que garantiriam o isolamento real dos dados americanos da influência chinesa permanecem opacos, e a falta de transparência mantém vivo o debate sobre se o arranjo cumpre, de fato, o espírito da lei que o motivou.
A ByteDance, empresa chinesa proprietária do TikTok, anunciou na quinta-feira que finalizou um acordo para criar uma joint venture de controle majoritariamente americano. A estrutura foi desenhada para proteger os dados dos usuários americanos e evitar a proibição do aplicativo, que conta com mais de 200 milhões de usuários nos Estados Unidos.
O acordo marca o fim de uma luta regulatória que se estende por anos. Tudo começou em agosto de 2020, quando o presidente Donald Trump tentou banir o aplicativo alegando preocupações com segurança nacional. A batalha se intensificou quando o Congresso aprovou uma lei em abril de 2024 exigindo que a ByteDance vendesse seus ativos americanos até janeiro de 2025 ou enfrentasse uma proibição — uma decisão que a Suprema Corte manteve. Trump, porém, optou por não aplicar essa lei, abrindo espaço para a negociação que resultou no acordo anunciado agora.
A estrutura da joint venture, chamada TikTok USDS Joint Venture LLC, prevê que investidores norte-americanos e globais detenham 80,1% do empreendimento, enquanto a ByteDance manterá 19,9%. Três gestores principais compartilharão o controle: a Oracle, gigante da computação em nuvem, o fundo de private equity Silver Lake e a MGX, empresa de investimentos sediada em Abu Daabi. Cada um desses três investidores deterá 15% do capital. A empresa afirmou que a joint venture protegerá os dados dos usuários, os aplicativos e os algoritmos por meio de medidas robustas de privacidade e segurança cibernética, embora tenha divulgado poucos detalhes adicionais sobre como o desinvestimento será executado.
Trump celebrou o acordo em publicação nas redes sociais, descrevendo o TikTok como agora sendo "propriedade de um grupo de grandes patriotas e investidores americanos, os maiores do mundo". Ele agradeceu ao presidente chinês Xi Jinping por "trabalhar conosco e, finalmente, aprovar o acordo", reconhecendo que a China poderia ter tomado outra decisão. Uma autoridade da Casa Branca confirmou à Reuters que os governos dos EUA e da China assinaram o acordo, embora a Embaixada da China em Washington não tenha feito comentários imediatos.
O presidente tem razões pessoais para apoiar a plataforma. Ele possui mais de 16 milhões de seguidores em sua conta pessoal no TikTok e creditou ao aplicativo o papel que desempenhou em sua reeleição. Em dezembro, recebeu um documento do TikTok destacando sua popularidade na plataforma, conforme mostrou uma foto publicada pelo New York Times neste mês. A Casa Branca também lançou uma conta oficial no TikTok em agosto, sinalizando uma mudança de postura em relação à plataforma.
Ainda assim, muitos detalhes permanecem obscuros. As partes interessadas não divulgaram elementos cruciais do acordo, incluindo como a joint venture se relacionará comercialmente com a ByteDance e quais serão as responsabilidades específicas de cada investidor. Trump afirmou no ano passado que o acordo cumpria os termos dos requisitos de desinvestimento previstos na lei de 2024, e em setembro a Casa Branca disse que o empreendimento operaria o aplicativo nos EUA. Mas a falta de transparência sobre os mecanismos operacionais deixa em aberto como essa estrutura funcionará na prática e se realmente isolará os dados americanos da influência chinesa da forma prometida.
Citações Notáveis
O TikTok agora será propriedade de um grupo de grandes patriotas e investidores americanos, os maiores do mundo— Donald Trump, em publicação nas redes sociais
Agradecemos ao presidente chinês Xi Jinping por trabalhar conosco e, finalmente, aprovar o acordo— Donald Trump
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a China concordou com isso? Parece uma derrota para a ByteDance.
Não é tão simples. A ByteDance mantém 19,9% e continua gerando receita. A alternativa era perder tudo — a proibição total. Trump também sinalizou que não aplicaria a lei, o que deu espaço para negociar. Xi Jinping tinha margem para dizer não, mas escolheu permitir.
E quanto aos dados? Como uma joint venture americana realmente protege os dados dos usuários?
Essa é a pergunta que ninguém consegue responder ainda. A ByteDance disse que haverá "medidas de privacidade e segurança cibernética", mas os detalhes não foram divulgados. É possível que os dados fiquem nos servidores americanos, isolados da China, mas ninguém sabe ao certo.
Trump parece estar ganhando muito com isso politicamente.
Está. Ele tem 16 milhões de seguidores no TikTok, creditou a plataforma à sua reeleição e agora pode dizer que "salvou" o aplicativo para os americanos. A Casa Branca até abriu uma conta oficial. É uma vitória narrativa, independentemente de como a estrutura funcione.
E se a joint venture não funcionar? Se os dados ainda vazarem?
Aí a história muda completamente. Mas por enquanto, todos têm incentivo para que funcione — Trump quer manter a plataforma, a ByteDance quer manter a receita, e os investidores americanos querem lucrar. O acordo é mais sobre agradar a todos do que resolver o problema de segurança.