Hoje dizem uma coisa e amanhã dizem outra
Produtos têxteis que pagavam menos de 15% passam agora a pagar essa taxa, enquanto os que já pagavam mais mantêm as taxas anteriores, criando incerteza no setor. Portugal exportou 435 milhões de euros em têxteis para os EUA em 2024, representando 8% das exportações do setor, tornando o mercado norte-americano crucial.
- Tarifas de 15% dos EUA entraram em vigor em 1 de setembro de 2025
- Portugal exportou 435 milhões de euros em têxteis para os EUA em 2024 (8% das exportações do setor)
- Produtos que pagavam menos de 15% passam agora a pagar essa taxa; os que pagavam mais mantêm as tarifas anteriores
- 4,6 mil milhões de encomendas asiáticas de baixo valor entraram na Europa no ano passado sem controlo
Novas tarifas de 15% dos EUA sobre produtos europeus entram em vigor, deixando o setor têxtil português confuso sobre a aplicação real das taxas e esperançoso em renegociar com a administração Trump.
As tarifas de 15% dos Estados Unidos sobre produtos europeus entraram em vigor nesta segunda-feira, deixando o setor têxtil português numa situação de incerteza quase total. O acordo negociado entre Bruxelas e Washington deveria trazer clareza, mas a realidade mostrou-se bem mais confusa: produtos que antes pagavam taxas inferiores a 15% passam agora a pagar exatamente isso, enquanto artigos que já enfrentavam tarifas superiores continuam com os mesmos encargos. Ninguém sabe ao certo como isto vai funcionar na prática.
Ana Dinis, diretora-geral da Associação Têxtil de Portugal, explica o dilema com precisão. Os produtos que pagavam abaixo de 15% passam todos a pagar 15%, e os que já pagavam taxas superiores continuam a pagar o que pagavam. Esta é também a interpretação da Euratex, a associação europeia que representa o setor. Mas Dinis não esconde a frustração: as negociações com os EUA são um processo difícil porque "hoje dizem uma coisa e amanhã dizem outra". Ainda assim, reforça que as conversas continuam e que o setor poderá ter novidades a qualquer momento, para o bom ou para o mau.
César Araújo, presidente da Associação Nacional das Indústrias do Vestuário e Confecção e dono da Calvelex, é ainda mais direto: o setor sente-se perdido. Só quando os clientes começarem a enviar encomendas para os EUA é que saberão qual a taxa realmente aplicada, porque neste momento ainda não há certeza sobre o valor. Araújo aponta para várias interpretações em circulação e admite que ainda não é seguro se os produtos que pagavam taxas superiores a 15% vão pagar mais ou manter o mesmo. Esta incerteza paralisa as operações.
Para além da confusão imediata, o setor teme consequências maiores. Dinis alerta que as tarifas recíprocas aplicadas a um conjunto alargado de países vão originar o "desvio de tráfego". Os fornecedores asiáticos, que têm um grande peso nos EUA, vão ter mais dificuldades em exportar para o mercado norte-americano e vão acabar por inundar a Europa, o principal mercado das exportações portuguesas. Araújo concorda: os países que não conseguem exportar para os EUA vão virar as armas para a Europa. O mercado europeu vai ter que repensar a forma como se relaciona com os países terceiros.
Esta preocupação não é teórica. No ano passado entraram na Europa 4,6 mil milhões de encomendas de baixo valor sem qualquer controlo, oriundas dos países asiáticos. Araújo insiste que a Europa não consegue absorver a quantidade de mercadoria que os países terceiros exportam para o mercado europeu. O caminho passa por regular, tal como os EUA estão a fazer. "Podemos não gostar do caminho e da fórmula, mas o Trump pôs em cima da mesa o que os políticos ao longo destes anos atiraram com a barriga para a frente", afirma.
O contexto comercial torna tudo isto ainda mais urgente. Em 2024, Portugal exportou 435 milhões de euros em produtos têxteis e de vestuário para os Estados Unidos, sendo que o mercado norte-americano representa 8% do total das exportações do setor. É um volume significativo que agora enfrenta incerteza tarifária. Araújo lamenta ainda que a Europa só esteja empenhada em salvar o setor automóvel. "Queremos o mesmo empenho e tratamento para o setor do têxtil e vestuário", afirma.
O acordo entre Bruxelas e Washington, fechado a 21 de agosto após intensas negociações entre Ursula von der Leyen e Donald Trump, estabelece um teto único de 15% para a grande maioria dos produtos que os Estados Unidos compram à União Europeia. Mas a forma como este teto interage com as tarifas de Nação Mais Favorecida já existentes criou a confusão atual. Quando a tarifa NMF americana for igual ou superior a 15%, apenas essa taxa continua a ser aplicada, sem acréscimo. Quando for inferior, aplica-se o teto de 15%. Alguns produtos têxteis portugueses estão nesta segunda categoria, o que significa uma subida de custos.
O setor está agora à espera de novidades. As negociações continuam, e há esperança de que a administração Trump possa corrigir o acordo para baixar os produtos com taxas acima dos 15%. Mas enquanto isso não acontece, as empresas operam no escuro, incapazes de calcular com precisão o custo real das suas exportações.
Citações Notáveis
O setor sente-se perdido porque só quando os clientes começarem a enviar encomendas para os EUA é que vamos saber qual a taxa aplicada— César Araújo, presidente da Anivec
A negociação com os EUA está a ser um processo difícil porque hoje dizem uma coisa e amanhã dizem outra— Ana Dinis, diretora-geral da ATP
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como é que um acordo que deveria trazer clareza criou tanta confusão?
O acordo estabelece um teto de 15%, mas interage com tarifas já existentes de formas diferentes. Se um produto pagava 8%, agora paga 15%. Se pagava 20%, continua a pagar 20%. Ninguém sabe ao certo qual é qual até começar a enviar encomendas.
E o setor têxtil português está particularmente vulnerável?
Muito. Portugal exportou 435 milhões de euros em têxteis para os EUA em 2024. É 8% de tudo o que o setor exporta. Uma tarifa mal aplicada afeta centenas de milhões.
Mas há algo mais profundo aqui, não é? Não é apenas sobre tarifas.
Exato. O setor teme que os fornecedores asiáticos, bloqueados nos EUA, inundem a Europa. No ano passado entraram 4,6 mil milhões de encomendas asiáticas de baixo valor sem controlo. A Europa não consegue absorver mais.
Então Trump, ao apertar os EUA, está a forçar a Europa a fazer o mesmo?
É o que o setor espera. Araújo diz que Trump "pôs em cima da mesa o que os políticos atiraram com a barriga para a frente". A Europa precisa de regulação, mas ainda não a tem.
E enquanto isso, as empresas fazem o quê?
Esperam. Não conseguem calcular custos reais. Só quando os clientes enviarem encomendas é que vão saber qual a taxa aplicada. É paralisante.
Há alguma esperança?
As negociações continuam. O setor espera que Trump corrija o acordo para baixar as tarifas acima de 15%. Mas ninguém sabe quando ou se isso vai acontecer.