Tensão geopolítica cresce em Svalbard enquanto China e Rússia disputam influência no Ártico

O que importa agora é o poder, não as normas que estabelecemos
Pesquisador do Instituto Fridtjof Nansen reflete sobre como a competição ártica está mudando as regras do jogo internacional.

Svalbard aquece 6-7 vezes mais rápido que a média global, perdendo 60 gigatoneladas de gelo em 2024, atraindo interesse estratégico de potências mundiais. Rússia realiza desfiles militares e questiona soberania norueguesa; China expande presença científica e turística, gerando alarmes sobre intenções geopolíticas.

  • Svalbard aquece 6-7 vezes mais rápido que a média global, perdendo 60 gigatoneladas de gelo em 2024
  • Rússia realizou desfile militar em Barentsburg em 2023 com helicóptero e comboios de motos de neve
  • China levou mais de 100 turistas para Svalbard em 2024, alguns em trajes camuflados com emblemas militares
  • Noruega alterou regras de votação em 2022 para impedir que não noruegueses votassem em Longyearbyen
  • Tratado de 100 anos permite que cidadãos de 50 países signatários vivam em Svalbard sem visto

Enquanto a atenção global se concentra na Groenlândia, Svalbard emerge como foco de disputa entre Noruega, Rússia, China e EUA. A Noruega reforça soberania removendo símbolos estrangeiros em meio ao aquecimento acelerado do Ártico.

Dois leões de granito desapareceram da entrada de um prédio no Círculo Ártico em maio. Ninguém notou muito. Mas aqueles leões guardavam algo maior que uma simples estação de pesquisa — guardavam a questão de quem controla o futuro do topo do mundo.

Os leões ficavam na porta da estação chinesa em Ny-Ålesund, um assentamento em Svalbard, o arquipélago norueguês que fica entre a Noruega continental e o Polo Norte. A empresa estatal norueguesa que administra o local os removeu. Em junho, tirou também a placa que identificava o edifício como "Estação Rio Amarelo". A mensagem era clara: a Noruega estava reassertando sua autoridade sobre esse território remoto enquanto as potências mundiais começavam a disputar influência no Ártico.

Enquanto a atenção global se fixa na Groenlândia — onde o presidente Donald Trump tenta reivindicar o território — uma disputa potencialmente explosiva se desenrola em Svalbard, quase invisível aos olhos do mundo. Svalbard é um lugar singular. Tem apenas cerca de três mil habitantes, nenhuma população nativa, e as mulheres não podem dar à luz lá. Abriga Longyearbyen, a cidade permanentemente habitada mais ao norte do planeta. E está aquecendo mais rápido que qualquer outro lugar na Terra — entre seis e sete vezes acima da média global. No verão de 2024, perdeu mais de sessenta gigatoneladas de gelo, cerca de um por cento de seu total, após temperaturas subirem sete graus Fahrenheit acima do normal. Quatro dos últimos cinco anos estabeleceram novos recordes de derretimento.

Um tratado de cem anos concede à Noruega soberania plena, mas também permite que cidadãos de quase cinquenta países signatários — incluindo China e Rússia — vivam e trabalhem ali sem visto. Durante décadas, Svalbard funcionou como um raro oásis de cooperação internacional. Pesquisadores de todo o mundo, com diferenças culturais enormes, se reuniam para colaborar. Mas essa harmonia está se deteriorando conforme a geopolítica global se infiltra naquele território de maneiras que não aconteciam nas décadas anteriores. A invasão russa da Ucrânia em 2022 abalou profundamente a ideia de que o Ártico era imune às adversidades geopolíticas. De repente, a Rússia tinha um acordo em território da OTAN, a aliança militar ocidental.

A Rússia já tem presença em Svalbard há tempos. Barentsburg, um posto avançado de mineração e pesquisa, é habitado quase inteiramente por russos e vigiado por um enorme busto de Vladimir Lenin. Em 2023, a Rússia realizou um desfile militar ali, com comboios de caminhões e motos de neve ostentando bandeiras russas e um helicóptero voando em baixa altitude — ação que resultou em multa da autoridade de aviação norueguesa. Um parlamentar russo sugeriu que Svalbard fosse renomeada como Ilhas Pomor, em referência a caçadores e exploradores russos que estiveram no arquipélago séculos atrás. O embaixador russo na Noruega afirmou que seu país está apenas "tentando esclarecer" como a Noruega exerce sua soberania, acusando-a de confundir os limites do tratado que proíbe o uso das ilhas para "fins bélicos".

Mas as preocupações não se limitam à Rússia. A China, embora não seja uma potência ártica tradicional, tem ambições crescentes. Em seu documento estratégico para o Ártico de 2018, autodenominou-se um "Estado quase ártico" e fez referências repetidas a Svalbard. Planeja uma "rota da seda polar", um corredor de infraestrutura e transporte marítimo atravessando o extremo norte do planeta. Em 2024, enquanto celebrava o vigésimo aniversário de sua estação de pesquisa, uma empresa de turismo chinesa levou mais de cem turistas para Svalbard. Alguns acenavam com bandeiras; um deles vestia um traje camuflado com o que parecia ser um emblema militar chinês. O incidente gerou alarme na Noruega, onde crescem as preocupações sobre as intenções chinesas. Houve alertas do serviço de segurança da polícia e do serviço de inteligência militar sobre essas intenções.

Svalbard é geograficamente privilegiado. Seu oceano oferece ricas áreas de pesca e minerais essenciais no fundo do mar. Sua localização é ideal para controlar e transferir dados de satélites em órbita polar, usados para ciência, previsão do tempo e defesa. Fica perto da Península de Kola, na Rússia, uma das regiões militares mais importantes do país, onde se encontra grande parte do arsenal nuclear marítimo russo. Dezenas de países têm estações de pesquisa ali — Reino Unido, Itália, Japão, Polônia — e essas estações funcionam como portas de entrada para influência no Ártico, "quase como uma moeda geopolítica", segundo pesquisadores.

A Noruega está respondendo reforçando seu controle. Em 2022, alterou as regras de votação para impedir que pessoas não norueguesas votassem nas eleições de Longyearbyen, a menos que tivessem residido na Noruega continental por três anos. Deixou clara sua ambição de explorar uma vasta extensão do leito marinho do Ártico ao redor de Svalbard em busca de minerais críticos — um plano contestado pela Rússia. E removeu os leões chineses e outros símbolos nacionais de edifícios em Ny-Ålesund. O secretário de Estado norueguês afirmou que "não há nenhuma estação de pesquisa chinesa em Svalbard", apenas "uma estação de pesquisa norueguesa com inquilinos chineses". Essa, disse ele, é "uma distinção importante".

Por enquanto, a Noruega confia que conseguirá manter estabilidade na região. Mas o mundo está mudando rapidamente. À medida que Trump repete afirmações sobre os EUA possuírem a Groenlândia, a aliança da OTAN sofre pressão crescente, e os países se posicionam como potências fortes no Ártico em transformação acelerada. O que importa agora pode ser o poder e a capacidade de exercê-lo — não necessariamente as normas e leis estabelecidas ao longo do último século.

Svalbard faz parte da Noruega; Svalbard faz parte da OTAN; Svalbard faz parte dos planos de defesa noruegueses
— Secretário de Estado norueguês Eivind Vad Petersson
Estamos vendo o contexto geopolítico mais amplo se infiltrar no território de uma forma que não acontecia nas décadas anteriores
— Otto Svendsen, pesquisador associado do CSIS
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que dois leões de granito importam tanto? Parecem um detalhe menor.

Model

Porque símbolos são como bandeiras plantadas. Quando a Noruega os remove, está dizendo: este é meu território, não de vocês. É a linguagem que os países usam quando as palavras não são suficientes.

Inventor

Mas Svalbard não é exatamente norueguês, certo? O tratado permite que russos e chineses vivam lá.

Model

Exato. É por isso que é tão tenso. A Noruega tem soberania, mas não controle total. E conforme o Ártico fica mais valioso — por causa do gelo derretendo, dos minerais, da localização estratégica — todos querem uma fatia.

Inventor

A Rússia está realmente preparada para uma ação militar ali?

Model

Provavelmente não. Ela já tem o que quer em Svalbard e suas forças estão presas na Ucrânia. Mas quer mostrar que não se deixará intimidar. É mais sobre demonstração de força do que ação real.

Inventor

E a China? Parece menos óbvia como ameaça.

Model

Menos óbvia, mas talvez mais preocupante a longo prazo. A China não é uma potência ártica tradicional, mas quer ser. Está construindo presença lentamente — pesquisa, turismo, infraestrutura. É estratégia de longo prazo.

Inventor

O aquecimento do Ártico está realmente abrindo oportunidades econômicas como dizem?

Model

Essa é a narrativa. Mas a realidade é mais complicada. Há décadas se prevê navios atravessando o Oceano Ártico, petróleo, gás, minerais. Ainda não aconteceu. A região continua hostil. Mas o "medo de ficar de fora" está impulsionando todos a marcarem presença de qualquer forma.

Inventor

Então no final, é sobre poder?

Model

É sobre poder e sobre o que acontece quando as regras antigas deixam de funcionar. Durante cem anos, Svalbard foi um lugar onde as potências cooperavam. Agora, conforme o mundo fica mais fragmentado, cada país quer garantir que não será deixado para trás.

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