Tadalafila: do remédio para ereção ao pré-treino das academias, os riscos do uso sem orientação

Não é necessário tomar remédio para ganhar músculos
Farmacêutica critica o uso não comprovado de tadalafila como pré-treino em academias.

Um medicamento criado para tratar disfunção erétil tornou-se fenômeno cultural no Brasil, com suas vendas mais que dobrando em três anos e ultrapassando R$ 1,2 bilhão em receita. A tadalafila migrou das prateleiras das farmácias para as academias de musculação, carregada pela promessa não comprovada de ampliar o ganho muscular. Nesse movimento, a fronteira entre tratamento médico e consumo recreativo se dissolve, enquanto especialistas alertam que a familiaridade cultural com um remédio não apaga seus riscos reais.

  • As vendas de tadalafila saltaram de 21,4 milhões para 47,2 milhões de caixas entre 2020 e 2023, impulsionadas por memes, músicas e piadas que normalizaram o medicamento na cultura popular.
  • Jovens saudáveis passaram a usar o remédio como pré-treino em academias, apoiados numa teoria de vasodilatação muscular que nenhum estudo científico robusto conseguiu confirmar.
  • O medicamento é de tarja vermelha e exige receita, mas a ilusão de segurança criada pela popularidade faz com que muitos o consumam sem qualquer orientação médica.
  • Efeitos colaterais vão de dores de cabeça e refluxo a eventos raros e graves como infarto, AVC e priapismo, com risco adicional de interação perigosa com medicamentos à base de nitratos.
  • Especialistas alertam para uma dependência psicológica silenciosa: jovens podem passar a acreditar que só terão desempenho satisfatório com o comprimido, mesmo sem nenhuma necessidade clínica real.

A tadalafila virou fenômeno cultural no Brasil. Músicas a mencionam, memes a celebram, e as vendas refletem esse entusiasmo: de 21,4 milhões de caixas em 2020, o número saltou para 47,2 milhões em 2023, gerando receita superior a R$ 1,2 bilhão em 2024 e colocando o medicamento entre as três moléculas mais vendidas no país.

O remédio foi desenvolvido para tratar disfunção erétil, chegando ao mercado no início dos anos 2000 sob o nome Cialis. Assim como o Viagra, inibe a enzima PDE5, permitindo o relaxamento dos vasos sanguíneos e facilitando a ereção. Sua vantagem é a duração prolongada — cerca de 36 horas — e a possibilidade de uso diário contínuo. Além da disfunção erétil, tem indicações aprovadas para hiperplasia prostática benigna e hipertensão pulmonar.

O problema surge com um quarto uso, completamente não comprovado: como pré-treino em academias. A teoria é que o relaxamento do endotélio arterial permitiria mais sangue chegar aos músculos, estimulando seu crescimento. Mas os poucos estudos existentes envolveram amostras minúsculas, e nenhuma sociedade médica nacional ou internacional recomenda esse uso. Como lembra a farmacêutica Amouni Mourad, do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo, os próprios exercícios já produzem o efeito muscular desejado — sem necessidade de medicamento.

A popularidade criou uma perigosa ilusão de segurança. A tadalafila é medicamento de tarja vermelha, vendável apenas com receita, mas essa barreira tem sido ignorada. Os efeitos colaterais comuns incluem dores de cabeça, refluxo e vermelhidão; os raros chegam a infarto, AVC e priapismo. O risco se agrava para quem usa medicamentos com nitratos, cuja combinação pode causar queda perigosa da pressão arterial.

Há ainda um risco menos visível: a dependência psicológica. Mourad alerta que jovens saudáveis podem desenvolver a crença de que só terão bom desempenho sexual com o comprimido — não uma dependência química, mas emocional, alimentada pelo imediatismo da era atual. Enquanto a tadalafila segue sendo celebrada na cultura popular, a pergunta que fica é se o uso responsável conseguirá acompanhar o ritmo acelerado das vendas.

A tadalafila virou fenômeno cultural no Brasil. Músicas mencionam o nome da droga. Memes circulam pelas redes sociais. Piadas de comédia exploram o tema. E enquanto isso tudo acontecia, as vendas explodiram: em 2020, foram comercializadas 21,4 milhões de caixas. Três anos depois, o número havia saltado para 47,2 milhões. Se a tendência se mantiver, as vendas praticamente triplicaram em quatro anos. No primeiro semestre de 2024, 31,1 milhões de caixas foram vendidas. A receita gerada superou R$ 1,2 bilhão no ano passado, colocando a tadalafila em terceiro lugar entre as moléculas mais vendidas no país, atrás apenas de losartana e metformina.

Mas a tadalafila não começou como uma sensação de redes sociais. O medicamento foi desenvolvido para tratar disfunção erétil, uma indicação que surgiu após a revolução trazida pela sildenafila — o Viagra — em 1998. A tadalafila chegou alguns anos depois, no início dos anos 2000, comercializada sob o nome Cialis. Diferentemente do Viagra, que deve ser tomado horas antes de uma relação sexual, a tadalafila permite uso contínuo diário e possui ação mais prolongada, durando cerca de 36 horas contra as 4 horas do concorrente. O mecanismo é o mesmo: ambas inibem uma enzima chamada fosfodiesterase tipo 5, ou PDE5, que naturalmente bloqueia a ereção. Ao inibir essa enzima, o medicamento permite o relaxamento dos músculos que envolvem os vasos sanguíneos, permitindo que mais sangue chegue aos corpos cavernosos do pênis e produza a ereção. Conforme explica Luiz Otávio Torres, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, os comprimidos são apenas facilitadores — desejo e estímulo ainda são necessários para que a ereção realmente ocorra.

Além da disfunção erétil, a tadalafila possui apenas duas outras indicações médicas aprovadas. A segunda envolve a hiperplasia prostática benigna, um inchaço da próstata que estrangula a uretra e dificulta a passagem de urina — o medicamento traz algum alívio nesse contexto. A terceira indicação é para pacientes com hipertensão pulmonar, o aumento da pressão arterial no pulmão, embora isso exija doses muito mais elevadas. Mas nos últimos tempos, surgiu um quarto uso, completamente não comprovado: como pré-treino em academias para ganho de massa muscular. A teoria por trás dessa prática envolve o relaxamento do endotélio, a camada que reveste a parede interna das artérias, permitindo mais sangue chegar aos músculos e supostamente estimular seu crescimento. Nenhuma evidência científica sustenta essa alegação. Os poucos estudos que avaliaram a tadalafila para ganho muscular envolveram apenas 40 ou 50 voluntários — uma amostra muito pequena. As principais sociedades médicas nacionais e internacionais não recomendam esse uso. Como reforça a farmacêutica Amouni Mourad, assessora técnica do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo, não é necessário tomar remédio para ganhar músculos — os próprios exercícios já produzem esse efeito.

O problema é que a tadalafila é um medicamento de tarja, ou seja, só deveria ser vendida com receita médica. Mas a popularidade cultural criou uma ilusão de segurança. Mourad lamenta que as pessoas percam a noção de que esse não é um remédio recreativo. Cada organismo é diferente, e o que funciona para um vizinho ou irmão pode não funcionar — ou pode prejudicar — outra pessoa. A principal contraindicação é para quem toma medicamentos contendo nitratos, como propatilnitrato, isossorbida, nitroglicerina ou dinitrato de isossorbida. A ação conjunta dessas moléculas pode baixar perigosamente a pressão arterial. Entre os efeitos colaterais mais comuns, que ocorrem em 1 a 10% dos usuários, estão dor nas costas, dor de cabeça, indigestão, vermelhidão no rosto, dor muscular, dor nas extremidades, refluxo gastroesofágico e nariz entupido. Esses incômodos geralmente levam a uma avaliação de custo-benefício — se forem muito intensos, basta interromper o tratamento.

Mas há efeitos colaterais mais graves. Entre as reações incomuns, que afetam entre 0,1 e 1% dos usuários, está a dispneia, ou falta de ar. Nos eventos muito raros, que ocorrem em menos de 0,01% dos consumidores, encontram-se erupções cutâneas, coceira, inchaço no rosto, pressão baixa, visão borrada, priapismo — uma ereção dolorosa que dura mais de quatro horas — e até eventos cardiovasculares graves como infarto e acidente vascular cerebral. Os fabricantes destacam que a maioria dos pacientes que relataram esses eventos graves tinha fatores de risco preexistentes, portanto não se pode determinar definitivamente se estão relacionados diretamente ao medicamento, aos fatores de risco, à atividade sexual ou a uma combinação desses elementos.

Há ainda um risco menos visível mas igualmente preocupante: a dependência psicológica. Mourad aponta que a pessoa pode desenvolver a crença de que só terá uma performance sexual satisfatória se tomar o comprimido — não se trata de dependência química, mas de uma dependência emocional. Vivemos numa era de imediatismo, onde queremos tudo para ontem. E essa preocupação se intensifica quando se observa uma nova geração de adolescentes e jovens adultos saudáveis tomando tadalafila sem nenhuma necessidade médica real. O Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos respondeu que não costuma se pronunciar sobre propriedades terapêuticas e hábitos de consumo, mas reafirmou que todos os medicamentos tarjados devem ser usados com orientação de profissionais de saúde e só devem ser vendidos mediante apresentação de receita médica. A questão agora é se essa orientação será seguida enquanto a tadalafila continua sendo celebrada na cultura popular e suas vendas seguem em trajetória ascendente.

A tadalafila é uma medicação relativamente segura, desde que usada da forma correta
— Luiz Otávio Torres, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia
Não há base nenhuma para essas alegações. Não existe comprovação científica sobre esse uso
— Luiz Otávio Torres, sobre o uso como pré-treino
Me preocupa essa nova geração de adolescentes e jovens adultos saudáveis, que tomam tadalafila sem nenhuma necessidade
— Amouni Mourad, farmacêutica e assessora técnica do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que a tadalafila saiu de um consultório de urologia e virou meme na internet?

Model

Provavelmente foi uma combinação de fatores. O medicamento é real, funciona, e as pessoas começaram a falar sobre ele. Depois vieram as músicas, os memes, as piadas. Mas ninguém sabe ao certo se a cultura pop impulsionou as vendas ou se o aumento do interesse gerou o fenômeno cultural.

Inventor

E essa história de usar como pré-treino? De onde saiu?

Model

A teoria é que o relaxamento dos vasos sanguíneos permitiria mais sangue chegar aos músculos, estimulando o crescimento. Mas não há comprovação científica. Os poucos estudos feitos envolveram amostras muito pequenas. É basicamente uma crença sem base.

Inventor

Se é relativamente seguro para tratar disfunção erétil, por que os especialistas estão tão preocupados?

Model

Porque seguro e adequado são coisas diferentes. Seguro quando usado corretamente, com orientação médica, para a pessoa certa. Mas quando alguém toma por conta própria, sem saber se tem contraindicações — como estar tomando nitratos — os riscos aumentam muito. E há efeitos colaterais graves, ainda que raros.

Inventor

Qual é o risco que mais preocupa os médicos?

Model

Acho que é a dependência psicológica em jovens saudáveis. Não é dependência química, mas a pessoa começa a acreditar que só consegue performance sexual boa se tomar o comprimido. Vivemos numa era de imediatismo, e isso é perigoso.

Inventor

As vendas triplicaram em quatro anos. Isso é um problema de saúde pública?

Model

Definitivamente. Quando um medicamento de tarja vira fenômeno cultural e as pessoas começam a comprar sem receita, algo está errado. O sistema de controle não está funcionando como deveria.

Inventor

O que deveria acontecer agora?

Model

Educação. As pessoas precisam entender que esse não é um remédio recreativo. Cada organismo é diferente. E precisam consultar um médico antes de tomar qualquer coisa.

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