Tadalafila como pré-treino em academias cresce, mas carece de comprovação científica

Usuários saudáveis, especialmente jovens, expõem-se a riscos cardiovasculares desnecessários como desmaios e quedas de pressão durante exercício físico intenso.
Não existem atalhos seguros para ganho de massa muscular
Endocrinologista resume a realidade do uso de tadalafila em academias: benefício não comprovado, risco bem documentado.

Tadalafila é usada off-label por frequentadores de academias como pré-treino para aumentar pump muscular, impulsionada por conteúdo viral nas redes sociais. Vendas do medicamento cresceram 15,8% em 2025 no Brasil, mas estudos comprovam que não melhora força, hipertrofia ou desempenho em pessoas saudáveis.

  • Tadalafila vendida 74,9 milhões de caixas em 2025, aumento de 15,8% em relação a 2024
  • Estudos comprovam que medicamento não melhora força, hipertrofia ou desempenho em pessoas saudáveis
  • Riscos incluem quedas de pressão arterial, tonturas, síncope e priapismo durante exercício intenso

Medicamento para disfunção erétil viraliza nas redes sociais como suplemento de desempenho em academias, mas especialistas alertam que não há evidência científica de benefício e riscos incluem quedas de pressão e desmaios.

É 2026 e um homem tira um comprimido do bolso no vestiário da academia. Ninguém sabe ao certo se ele vai treinar ou se tem um encontro marcado depois. A tadalafila, medicamento desenvolvido para tratar disfunção erétil, virou fenômeno nas redes sociais entre frequentadores de musculação. Especialistas confirmam que a prática cresce, impulsionada por vídeos e posts que prometem um atalho para o ganho de massa muscular.

A lógica parece simples e até elegante. O medicamento inibe uma enzima chamada PDE-5, que controla o tônus dos vasos sanguíneos. Sem ela interferindo, as artérias relaxam e mais sangue flui para os músculos. Na academia, a sensação é imediata: os braços incham, aquele pump que todo frequentador conhece. Parece funcionar. Parece fazer sentido. Mas não há nada disso em um estudo científico.

Os números revelam o tamanho do fenômeno. Em 2025, foram vendidas 74,9 milhões de caixas de tadalafila no Brasil, um aumento de 15,8% em relação a 2024, quando o total foi de 64,7 milhões. Uma década antes, em 2015, as vendas somavam apenas 3,2 milhões de unidades. O crescimento é exponencial. O cardiologista Fernando Costa, coordenador da UTI do Hospital Santa Paula, relata que tem visto esse padrão entre seus pacientes mais jovens que procuram check-ups. "Em geral, são indivíduos saudáveis", observa.

Mas a ciência não acompanha a tendência. Pesquisas com atletas saudáveis demonstram que a tadalafila não melhora força, não aumenta hipertrofia muscular e não potencializa o desempenho físico. O endocrinologista Pedro Guilherme Cabral, do Hospital Brasília, é direto: "Um estudo inclusive demonstrou aumento de marcadores de dano muscular. O pump é apenas uma sensação temporária, não um indicador de hipertrofia ou ganho de força." O que parece um ganho é apenas uma ilusão fisiológica.

Os riscos, porém, são reais e bem documentados. A tadalafila causa vasodilatação sistêmica, ou seja, relaxa os vasos sanguíneos em todo o corpo. Durante um treino intenso, especialmente em ambientes quentes onde o corpo já está vasodilatado naturalmente, isso pode resultar em quedas perigosas de pressão arterial. Tonturas, desmaios e síncope são possibilidades concretas. Cabral alerta que o medicamento é contraindicado para pessoas com infarto recente, acidente vascular cerebral recente, angina instável e insuficiência cardíaca grave.

Os sinais de alerta que exigem atendimento médico imediato incluem dor no peito, tontura intensa e desmaio ou sensação de desmaio iminente durante ou logo após o exercício. Existe também o priapismo, uma ereção persistente e dolorosa que dura mais de quatro horas e pode causar danos permanentes se não for tratada rapidamente. Costa é claro: "Pacientes que experimentam dor torácica após tomar tadalafila devem procurar atendimento médico imediato."

O paradoxo é brutal. Não há evidência de benefício para o desempenho esportivo ou ganho de massa muscular, mas há exposição clara a riscos desnecessários. Cabral recomenda que quem busca aumentar massa muscular concentre esforços nas estratégias já consolidadas pela medicina esportiva: treino adequado, nutrição balanceada, descanso apropriado e paciência. "Não existem atalhos seguros", conclui. A tadalafila nas academias é exatamente isso: um atalho sem segurança, uma promessa sem comprovação, um risco sem recompensa.

O pump é apenas uma sensação temporária, não um indicador de hipertrofia ou ganho de força
— Pedro Guilherme Cabral, endocrinologista do Hospital Brasília
Na ausência de evidência de benefício para desempenho esportivo ou ganho de massa muscular, o que resta é apenas a exposição a riscos desnecessários
— Pedro Guilherme Cabral, endocrinologista do Hospital Brasília
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que um medicamento para disfunção erétil virou tendência em academias?

Model

Porque a lógica fisiológica é sedutor. O medicamento relaxa os vasos sanguíneos, aumenta o fluxo de sangue para os músculos, e a pessoa sente um inchaço imediato. Nas redes sociais, isso vira prova de eficácia. Ninguém filma o que não funciona.

Inventor

Mas os estudos não comprovam ganho de força ou hipertrofia?

Model

Não comprovam. E um estudo até mostrou aumento de marcadores de dano muscular. O pump é apenas uma sensação temporária, uma ilusão fisiológica. O sangue está lá, mas não está construindo músculo.

Inventor

Então por que o uso cresceu 15,8% em um ano?

Model

Porque a sensação é imediata e a promessa é fácil de vender. A ciência é lenta, as redes sociais são rápidas. E a maioria dos usuários são jovens saudáveis que não sentem os riscos no curto prazo.

Inventor

Quais são os riscos reais?

Model

Quedas de pressão arterial durante exercício intenso, tonturas, desmaios. Em ambientes quentes, onde o corpo já está vasodilatado, o risco aumenta. E existe o priapismo, uma ereção persistente que pode causar danos permanentes.

Inventor

Pessoas saudáveis correm risco grave?

Model

Raramente eventos graves, mas os sintomas de alerta são sérios: dor no peito, tontura intensa, desmaio. Qualquer um desses durante ou logo após o treino exige atendimento médico imediato.

Inventor

Qual é a alternativa?

Model

Não há atalho. Treino adequado, nutrição balanceada, descanso apropriado e paciência. É chato, é lento, mas é o único caminho que funciona sem expor o corpo a riscos desnecessários.

Fale Conosco FAQ