Susanna Lira lança série sobre Covid-19 e documentário sobre PrEP no Globoplay e GNT

Série documenta sofrimento de pacientes internados por Covid-19, alguns com mais de três meses de hospitalização, e morte de amigos e colegas da cineasta pelo coronavírus.
Quando uma mãe diz 'salva meu filho', é como levar uma facada
Relato de uma infectologista sobre o peso emocional de atender pacientes graves de Covid-19 no hospital.

Em meio a uma pandemia que já havia ceifado mais de 170 mil vidas no Brasil, a cineasta Susanna Lira escolheu a câmera como instrumento de consciência coletiva. Com quase três décadas de carreira, ela lança simultaneamente uma série documental sobre os bastidores humanos da Covid-19 em um hospital público do Rio de Janeiro e um documentário sobre a PrEP, medicação preventiva do HIV ainda cercada de preconceito. Suas obras partem de uma convicção simples e urgente: quando os números deixam de tocar as pessoas, são as histórias que salvam vidas.

  • O Brasil ultrapassava 100 mil mortos quando as câmeras começaram a rodar — e já somava 170 mil no lançamento da série, tornando cada depoimento uma corrida contra o esquecimento.
  • Médicos entrevistados temiam que a população simplesmente abandonasse máscaras e distanciamento, enquanto pacientes completavam três meses internados sem certeza de sobreviver à noite seguinte.
  • No segundo documentário, usuários de PrEP relatam que o preconceito de quem desconhece o método pode ser tão prejudicial quanto a própria ausência de tratamento — e a moralização de decisões médicas custa vidas.
  • Susanna perdeu amigos e colegas durante as gravações e se transformou, em suas próprias palavras, em militante da prevenção — a obra deixou de ser apenas cinema e passou a ser posicionamento.
  • As duas produções chegam ao público como resposta direta à desinformação: uma no Globoplay, outra no GNT no Dia Mundial de Combate à Aids, apostando que a narrativa humana alcança onde os dados já não chegam.

Susanna Lira lança duas obras quase simultaneamente, cada uma enfrentando um silêncio diferente em torno de crises de saúde pública. A série documental 'Por um respiro' chega ao Globoplay com seis episódios gravados no Hospital Universitário Pedro Ernesto, em Vila Isabel, no Rio de Janeiro. As gravações começaram em agosto, quando o Brasil ultrapassava 100 mil mortos por coronavírus — número que já passava de 170 mil no momento do lançamento.

Sem narrador, a série entrega a palavra a médicos, enfermeiros, pacientes e familiares. Uma infectologista abre o primeiro episódio descrevendo o peso de ouvir uma mãe implorar pela vida do filho. Susanna, que perdeu amigos e colegas durante a produção, descreve o projeto como o mais desafiador de sua carreira. Nenhum membro da equipe se infectou, mas o contato diário com a angústia de quem não sabia se pioraria de uma noite para outra deixou marcas. Ela passou a ligar para parentes e amigos ao sair de cada reunião de edição.

Sua crítica é direta: os dados já não sensibilizam. O Rio ficou lotado durante a pandemia enquanto médicos temiam que as pessoas simplesmente parassem de usar máscaras. Para Susanna, mostrar a pior face da doença é uma forma de devolver às pessoas a noção de que vivem em coletivo.

O segundo trabalho, 'Prazer em conhecer', estreia no GNT no Dia Mundial de Combate à Aids. O documentário aborda a PrEP — profilaxia pré-exposição ao HIV, com mais de 90% de eficácia quando usada corretamente e disponível gratuitamente pelo SUS. Em vez de especialistas, o filme dá voz aos próprios usuários, que relatam tanto a experiência do tratamento quanto o preconceito que enfrentam. Onze anos depois de 'Positivas', Susanna volta ao tema da prevenção do HIV com a mesma convicção: moralizar tratamentos médicos por ignorância é uma escolha que mata.

Susanna Lira está lançando duas obras que enfrentam, cada uma à sua maneira, o silêncio que envolve crises de saúde pública. A primeira, uma série documental chamada "Por um respiro", chega ao Globoplay nesta sexta-feira. A segunda, um documentário intitulado "Prazer em conhecer", estreia terça-feira de madrugada no GNT, justamente no Dia Mundial de Combate à Aids.

"Por um respiro" nasceu de um impulso que Susanna teve em março, logo quando o país entrou em quarentena, mas as câmeras só começaram a rodar em agosto — o mês em que o Brasil ultrapassava a marca de 100 mil mortos por coronavírus. Hoje esse número já passa de 170 mil. A série foi filmada no Hospital Universitário Pedro Ernesto, em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, um espaço que aparece em produções ficcionais como "Sob pressão". São seis episódios sem narrador. Quem fala são os próprios médicos, enfermeiros, pacientes e familiares — alguns deles já completando o terceiro mês internados. Uma infectologista abre a série com um desabafo que resume o peso do trabalho: quando uma mãe implora "salva meu filho, doutora", é como levar uma facada.

A cineasta, que tem quase 30 anos de carreira, perdeu amigos e colegas para o coronavírus enquanto produzia a série. Ela descreve o trabalho como o mais desafiador de sua vida. Os protocolos de segurança foram rigorosos — ninguém da equipe se infectou — mas as marcas das máscaras e dos protetores faciais nos rostos dos cinegrafistas são nada comparadas ao contato direto com a angústia de adultos, idosos e crianças sabendo que seu estado poderia piorar de uma noite para outra. Susanna diz que acabava de revisar um episódio ou sair de uma reunião com os diretores e imediatamente ligava para parentes e amigos. Virou, em suas palavras, uma militante da prevenção.

Para Susanna, mostrar a pior face da Covid-19 não é apenas documentar — é sensibilizar além dos números. Ela critica a falta de consciência coletiva que levou o Rio a ficar lotado durante a pandemia. Os dados, ela observa, já não tocam as pessoas. Os médicos que ela entrevistou durante as gravações expressavam medo de que a população simplesmente parasse de usar máscaras e fazer distanciamento social. "As pessoas precisam pensar no coletivo", diz ela.

O segundo trabalho de Susanna que chega agora é "Prazer em conhecer", um documentário sobre a PrEP — profilaxia pré-exposição, uma medicação diária que impede a infecção pelo HIV. Onze anos atrás, ela havia dirigido "Positivas", um documentário sobre mulheres heterossexuais infectadas com HIV por seus maridos. Agora volta ao tema da prevenção do HIV por outro ângulo. O filme foi exibido no 28º Festival Mix Brasil em novembro e entra na programação do GNT em 1º de dezembro.

Em vez de trazer especialistas, o documentário prioriza as vozes dos próprios usuários de PrEP. Eles relatam como é o tratamento e, principalmente, o preconceito que enfrentam de quem ainda desconhece o método. A PrEP oferece mais de 90% de taxa de eficácia quando usada corretamente, mas seu uso não substitui o preservativo — a única forma de evitar outras infecções sexualmente transmissíveis. A medicação atua apenas contra o HIV. O SUS disponibiliza a combinação de pílulas para pessoas que frequentemente deixam de usar camisinha, que apresentam outras ISTs ou que fazem uso de PEP. O Ministério da Saúde considera populações-chave os homens que se relacionam sexualmente com outros homens, trabalhadores do sexo e pessoas trans.

Susanna é direta sobre o que vê como o problema central: as pessoas moralizam qualquer tratamento médico por ignorância, e isso custa vidas. Ela insiste que a PrEP é uma questão de saúde pública, não de moral. Sua conclusão é que vivemos uma guerra na saúde pública, e levar informação é uma luta. Mas quando o serviço público de saúde funciona, você salva vidas.

Os dados já não tocam as pessoas. As pessoas precisam pensar no coletivo
— Susanna Lira, cineasta
Vivemos uma guerra na saúde pública, e levar informação é uma luta. Mas, quando o serviço público de saúde funciona, você salva vidas
— Susanna Lira
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que você acha que as pessoas ainda moralizam tanto a PrEP, mesmo com a eficácia comprovada?

Model

Porque a PrEP está ligada a sexualidade, a práticas que a sociedade ainda vê como tabu. Quando você tira o preservativo da equação, as pessoas veem como promiscuidade, não como prevenção. Mas é exatamente o oposto — é medicina.

Inventor

E na série sobre Covid, você filmou pessoas que sabiam que podiam morrer a qualquer momento?

Model

Sim. Alguns estavam internados há três meses. Você vê a exaustão dos médicos tentando fazê-los respirar, e vê a angústia das famílias. Não é abstrato. É muito real.

Inventor

Você perdeu pessoas próximas durante as gravações?

Model

Perdi amigos e colegas. E enquanto isso, via o Rio lotado, as pessoas sem máscara. Os dados não tocam mais ninguém. Precisava mostrar os rostos, as histórias.

Inventor

O que mudou em você depois de fazer esses dois filmes?

Model

Virei uma militante. Não consigo mais separar o trabalho da vida. Quando você vê uma mãe implorando para que salvem seu filho, você não volta a ser a mesma pessoa.

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