Se o morador sofre, eu sofro junto
Aos 49 anos, a jornalista Susana Naspolini encerrou uma vida marcada tanto pela coragem diante da câmera quanto pela resistência silenciosa diante da doença. Repórter da TV Globo por duas décadas, ela enfrentou três diagnósticos de câncer ao longo de 31 anos, mantendo até o fim a transparência e o afeto que a tornaram próxima do público. Sua morte, anunciada pela filha Julia em 25 de outubro de 2022, lembra que algumas histórias de resiliência não terminam em vitória — mas ainda assim ensinam.
- O câncer diagnosticado na bacia em 2020 evoluiu de forma agressiva, espalhando-se para a medula óssea e o fígado até deixar os médicos sem respostas.
- Semanas antes da morte, a própria filha de 16 anos precisou comunicar ao público a gravidade irreversível do estado da mãe.
- Susana havia enfrentado linfoma aos 18 anos, câncer de mama aos 37 e novamente em 2016 — cada recaída respondida com tratamento, retorno ao trabalho e presença nas redes sociais.
- Julia, que perdeu o pai em 2014 quando tinha apenas 8 anos, foi quem anunciou a morte da mãe com a frase 'ela lutou muito, nossa guerreira'.
- A trajetória de Susana deixa uma filha adolescente órfã e uma audiência que a acompanhou escalar muros, usar fantasias e cobrar autoridades com o mesmo sorriso com que falava sobre quimioterapia.
Susana Naspolini morreu na terça-feira, 25 de outubro de 2022, aos 49 anos. A notícia foi dada por sua filha Julia, de 16 anos, em uma postagem nas redes sociais da mãe. "Ela lutou muito, nossa guerreira", escreveu a adolescente, descrevendo um câncer em metástase avançada que havia se espalhado da bacia para a medula óssea e o fígado. Os médicos, segundo Julia, já não sabiam o que fazer.
Nascida em Criciúma, Santa Catarina, Susana descobriu o primeiro câncer aos 18 anos, enquanto estudava jornalismo e fazia teatro no Rio. Doze sessões de quimioterapia depois, ela não desistiu da profissão — foi contratada pelo SBT ainda durante a faculdade e construiu uma carreira sólida pela RBS e pela Globo. Em 2008, estreou o "RJ Móvel", quadro que se tornaria sua marca: recebia denúncias de moradores, convocava autoridades ao vivo, fixava prazos num calendário e voltava para cobrar. Escalava muros, entrava em buracos, se fantasiava de jacaré. "Se o morador coloca saco plástico no pé para passar pelo esgoto, vou botar também", disse certa vez.
O câncer voltou em 2010, desta vez no seio e na tireoide, exigindo mastectomia total. Em 2016, retornou novamente, afastando-a da televisão por seis meses. Ela voltou com festa nas ruas, cercada de flores e telespectadores. Em 2020, o diagnóstico na bacia reacendeu a luta — e Susana continuou compartilhando o tratamento nas redes com sorriso largo. "A vida ganha mais sentido quando a gente compartilha das histórias felizes às mais difíceis", disse em abril de 2022.
Sua vida pessoal carregava perdas igualmente pesadas. Em 2014, o marido Maurício Torres morreu de infecção pulmonar, deixando Julia com apenas 8 anos. Em 2021, o pai de Susana faleceu após uma queda. Dessas dores nasceram dois livros. Ela deixa a filha Julia e a mãe, Maria Dal Farra Naspolini.
Susana Naspolini morreu na terça-feira, 25 de outubro, aos 49 anos. A notícia foi anunciada por sua filha Julia, de 16 anos, em uma postagem no perfil da mãe nas redes sociais. "Ela lutou muito, nossa guerreira", escreveu a adolescente, explicando que a jornalista havia sucumbido a um câncer em estágio avançado de metástase no osso da bacia.
A repórter da Globo estava internada há mais de uma semana em São Paulo quando faleceu. O diagnóstico que a levou à morte havia sido feito em 2020, mas a doença se mostrou agressiva. Em julho daquele ano, a metástase se espalhou para a medula óssea, forçando os médicos a intensificar o tratamento com quimioterapia venosa mais forte. Semanas antes de sua morte, Julia havia publicado um vídeo explicando a gravidade da situação: a doença havia se disseminado para vários órgãos, incluindo o fígado, que estava severamente comprometido. Os médicos, segundo relato da filha, não sabiam mais o que fazer.
Susana nasceu em 20 de dezembro de 1972, em Criciúma, Santa Catarina. Sua luta contra o câncer começou cedo. Aos 18 anos, enquanto cursava jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina e frequentava um curso de teatro no Rio de Janeiro, foi diagnosticada com linfoma. Fez doze sessões de quimioterapia em São Paulo e perdeu os cabelos durante o tratamento. Mas não desistiu. Aos 19 anos, foi contratada pelo SBT em Florianópolis, onde trabalhou até se formar. Depois passou pela RBS, afiliada da Globo no Sul, onde atuou como editora-chefe e apresentadora de telejornal local.
Em 2001, conheceu Maurício Torres, jornalista que trabalhava no Esporte da Globo no Rio. Ele a indicou para uma vaga de repórter temporária na GloboNews em 2002. Após dois anos, ela se moveu para o Canal Futura e depois para a produção da Editoria Rio da TV Globo. Em 2008, começou a apresentar o "RJ Móvel", um quadro que se tornaria sua marca registrada. A partir de 2013, ela era a principal apresentadora do programa.
No "RJ Móvel", Susana recebia denúncias de moradores sobre problemas urbanos: obras paradas, praças abandonadas, ruas esburacadas. Ela convocava autoridades municipais ou estaduais para prestar esclarecimentos ao vivo e marcava um prazo para a resolução em um grande calendário. No dia designado, voltava para cobrar o cumprimento da promessa. O que distinguia seu trabalho era a disposição de viver os problemas na pele. Escalava muros e árvores, entrava em buracos, andava de bicicleta em pistas acidentadas. Usava fantasias e adereços: uma vez se fantasiou de jacaré para cobrar a reforma de uma ponte; em outra, fez uma "dança da chuva" para protestar contra falta de água. Tudo com bom humor e autenticidade. "Se o morador coloca saco plástico no pé para passar pelo esgoto, vou botar também", disse em entrevista em 2019. Os moradores respondiam com carinho, oferecendo café, churrasco e presentes durante suas entradas ao vivo.
Mas Susana enfrentou o câncer três vezes na vida. Dezenove anos após o primeiro diagnóstico, em 2010, aos 37 anos, descobriu um micronódulo no seio. Fez mastectomia total no seio direito e descobriu também um tumor na tireoide. Em 2016, o câncer de mama retornou. Ficou seis meses afastada da televisão, mas voltou no final do ano com uma festa nas ruas de Campo Grande, na zona oeste do Rio, cercada de flores, bolo e homenagens de colegas e telespectadores. Em 2020, foi diagnosticada com câncer na bacia. Mantinha seus seguidores atualizados sobre o tratamento nas redes sociais, sempre com um sorriso largo. "Acho que a vida ganha mais sentido quando a gente compartilha das histórias felizes às mais difíceis", disse em entrevista em abril de 2022.
Sua vida pessoal foi marcada por perdas. Em 2014, seu marido Maurício Torres morreu aos 43 anos, vítima de uma infecção pulmonar após passar mal em um voo entre Rio e São Paulo. Julia tinha apenas 8 anos. "A morte dele foi tão sofrida. Aprender a não ter ele nas nossas vidas foi tão difícil", disse Susana em 2019. Em 2021, perdeu o pai, Fúlvio Naspolini, que morreu após contrair uma bactéria na UTI depois de fraturar a perna em uma queda. Essas experiências a levaram a escrever dois livros: "Eu escolho ser feliz" e "Terapia com Deus". Susana deixa a filha Julia, de 16 anos, e a mãe, Maria Dal Farra Naspolini.
Citas Notables
Ela lutou muito, nossa guerreira. Agradeço muito pelas orações, mas infelizmente não deu— Julia, filha de Susana Naspolini
Acho que a vida ganha mais sentido quando a gente compartilha das histórias felizes às mais difíceis— Susana Naspolini, em entrevista em abril de 2022
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Como uma pessoa enfrenta o câncer três vezes e ainda consegue fazer um trabalho que exige tanta energia, tanta presença?
Acho que para Susana, o trabalho era parte do tratamento. Não era apesar do câncer, era junto com ele. Ela não se escondia.
Mas havia um risco real em fazer aquilo que fazia — entrar em buracos, escalar muros, se expor fisicamente quando o corpo estava fragilizado.
Sim, mas ela dizia que era obrigação dela mostrar o problema como era. Se o morador sofria, ela sofria junto. Acho que isso a mantinha viva de um jeito que a quimioterapia sozinha não conseguia.
Ela perdeu o marido muito cedo, enquanto criava uma filha sozinha e lutava contra a doença. Como alguém carrega tudo isso?
Escrevendo livros. Compartilhando nas redes sociais. Voltando para o trabalho com flores e bolo nas ruas. Ela transformava o sofrimento em algo que outras pessoas pudessem ver e reconhecer.
E a filha? Julia cresceu vendo a mãe lutar, perdendo o pai aos 8 anos, e agora aos 16 anuncia a morte da mãe para o Brasil inteiro.
Julia aprendeu a coragem com Susana. Aquela postagem dela — "ela lutou muito, nossa guerreira" — não é de uma menina quebrada. É de alguém que viu de perto o que é resistir.
Qual é o legado de alguém assim?
Acho que é a recusa em desaparecer. Susana não virou invisível quando ficou doente. Continuou ocupando espaço, contando histórias, cobrando autoridades, fazendo as pessoas rirem. Isso importa.