Tenho de parar, refletir e pensar só à minha maneira
Após quinze anos de desfiles sazonais, a designer portuguesa Susana Bettencourt escolheu o Portugal Fashion para apresentar 'Equinócio' — e para anunciar uma pausa que é, na verdade, uma virada. Num tempo em que a instabilidade geopolítica abala certezas e 68% das exportações têxteis portuguesas dependem de malhas que ninguém ensina, Bettencourt recusa deixar morrer um saber herdado de mãos em mãos, de avó a neta. O que ela propõe não é o fim de uma marca, mas a fundação de algo mais duradouro: um espaço onde a memória artesanal e a produção industrial possam coexistir e sobreviver.
- A instabilidade geopolítica global forçou Bettencourt a questionar um modelo de negócio construído ao longo de quinze anos de desfiles regulares.
- O anúncio da pausa surpreendeu o público do M-ODU, no Porto, que assistia ao desfile sem saber que testemunhava o encerramento de um ciclo.
- A designer identifica uma lacuna crítica: 68% das exportações têxteis portuguesas são malhas, mas o conhecimento técnico para as produzir está a desaparecer sem que ninguém o ensine.
- A resposta que Bettencourt propõe é um espaço tridimensional — escola, fábrica e atelier em simultâneo — dedicado a preservar e transmitir o saber-fazer das malhas no Norte do país.
- O projeto depende ainda de investidores, apoios institucionais e da conclusão do seu doutoramento em Design de Moda, sem data de abertura definida.
No último dia da 55.ª edição do Portugal Fashion, Susana Bettencourt apresentou 'Equinócio', uma coleção de 27 coordenados que percorria a transição do preto ao azul profundo e, por fim, a uma explosão de amarelo e rosa. O que a plateia no Porto não sabia era que aquele desfile marcava o fim de quinze anos de apresentações sazonais regulares. Aos 41 anos, a designer anunciava uma pausa — não um encerramento, mas uma transformação profunda.
Bettencourt criou a sua etiqueta de slow fashion em 2011, em Londres, e trouxe-a para Portugal. A instabilidade geopolítica, em particular a guerra no Médio Oriente, forçou-a a repensar o modelo. A marca continuará com cápsulas e coleções, mas em formatos alternativos. "Os meus próximos Portugal Fashion se calhar vão ser de outra forma", admitiu.
O que a move é algo mais antigo do que a moda sazonal. Natural dos Açores, cresceu rodeada de máquinas de tricot e crochet, aprendeu o ofício aos cinco anos com a mãe e a avó, e herdou da tia Mariazinha técnicas raras como bordados de Santo Cristo e bordado a ouro. Sente que tem obrigação de continuar esse legado.
Essa responsabilidade tomou a forma de um projeto ambicioso: um espaço que funcione simultaneamente como escola, fábrica e atelier, dedicado à investigação e à preservação do saber-fazer das malhas no Norte do país. O argumento é direto — 68% da exportação têxtil portuguesa são malhas, mas ninguém as está a ensinar. "Quem é que vai programar as máquinas?", questiona.
A coleção 'Equinócio' foi ela própria uma demonstração desse compromisso: praticamente todas as peças passaram pelas mãos de oito estagiários aprendizes, e os motivos florais em crochet foram feitos por idosos de um lar em Vila Boa de Quires, com um fio inovador trazido da Alemanha que brilha ao flash. A pausa nos desfiles não é um recuo — é o espaço que Bettencourt precisa para construir algo mais enraizado e duradouro.
No último dia da 55.ª edição do Portugal Fashion, Susana Bettencourt apresentou "Equinócio" ao som de "Bitter Sweet Symphony", uma coleção de 27 coordenados que explorava a transição do escuro para a luz — do preto ao azul profundo, depois uma explosão de amarelo e rosa. Quem estava na plateia do M-ODU, no Porto, não sabia que aquele desfile marcava o encerramento de um ciclo de 15 anos de apresentações sazonais regulares. A malheira portuguesa, aos 41 anos, anunciava uma pausa nos desfiles, uma mudança que não significa o fim da marca, mas sim uma transformação profunda na forma como ela funciona.
Susana Bettencourt criou a sua etiqueta de slow fashion em 2011, em Londres, e a trouxe para Portugal. Tem uma clientela fiel, reconhecimento nacional e internacional, mas a instabilidade geopolítica — particularmente a guerra no Médio Oriente — forçou-a a repensar tudo. "Tenho de parar, refletir e pensar só à minha maneira e ver se, de outra forma, vai resultar melhor", explicou. A pausa nos desfiles não é um encerramento. Continuará a fazer cápsulas, coleções, mas "os meus próximos Portugal Fashion se calhar vão ser de outra forma, noutra modalidade".
O que a move agora é algo mais profundo do que a moda sazonal: a preservação de um conhecimento que está a desaparecer. Natural dos Açores, Bettencourt cresceu rodeada de máquinas de tricot e crochet. Aos cinco anos, pegou nas agulhas para aprender o ofício que a mãe e a avó praticavam. Hoje, detém um know-how raro — bordados de Santo Cristo, bordado a ouro, escamas — ensinado pela sua tia Mariazinha, uma artesã que lhe transmitiu um legado que sente obrigação de continuar. "Eu sinto que tenho de continuar esse legado", diz.
Essa responsabilidade transformou-se num projeto ambicioso. Já tem uma loja-atelier em Guimarães, mas o sonho é criar algo que nunca foi feito: um espaço tridimensional que funcione simultaneamente como escola, fábrica e atelier, dedicado à investigação, parcerias com escolas e ao uso de máquinas ao serviço do design. Ainda não tem data definida, mas o objetivo é abrir portas no Norte do país, perto da indústria têxtil. Antes disso, precisa de investidores, apoios, e de completar com sucesso o doutoramento em Design de Moda que está a desenvolver em parceria entre a Universidade do Minho e a Universidade da Beira Interior.
O argumento é simples e urgente: 68% da exportação têxtil portuguesa são malhas, mas ninguém as está a ensinar. "Quem é que vai programar as máquinas? Quem é que vai saber trabalhar aquilo? Primeiro tem de se perceber [o trabalho] à mão, para depois se perceber à máquina", sublinha. Quando questionada se as novas gerações têm interesse em aprender, responde afirmativamente. "Eu conheço as malhas e consigo explicar as malhas como poucas pessoas conseguem."
A coleção "Equinócio" é prova disso. Praticamente todas as peças passaram pelas mãos de oito estagiários aprendizes que, como Bettencourt, recusam deixar morrer o saber-fazer artesanal. O desfile começava com a escuridão — preto dominante — seguindo-se a transformação para o azul profundo, muito reconhecido como assinatura da marca através de prints gráficos. Depois vinha a explosão de cor, amarelo e rosa combinados. À semelhança do ano anterior, contou com a contribuição dos idosos do Lar e Centro Social de Vila Boa de Quires, que fizeram flores em crochet colorido para adornar tops, saias e malas. Todos os motivos florais foram feitos com um fio inovador trazido da Alemanha, que brilha quando exposto ao flash. "Quando passado com o flash, brilha", conclui.
O que Bettencourt está a fazer é reposicionar a marca não como um negócio de moda rápida, mas como guardiã de um conhecimento técnico que corre risco de extinção. A pausa nos desfiles não é um recuo — é um passo para trás para correr mais longe, para construir algo mais sólido, mais enraizado, mais significativo do que coleções sazonais.
Citas Notables
Eu não vou fechar a marca. Vou continuar a fazer cápsulas. Vou continuar a fazer coleções. Os meus próximos Portugal Fashion se calhar vão ser de outra forma, noutra modalidade.— Susana Bettencourt
Eu conheço as malhas e consigo explicar as malhas como poucas pessoas conseguem.— Susana Bettencourt
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Porque é que uma designer que tem sucesso internacional decide parar agora?
Porque o sucesso não era suficiente. Ela tinha uma marca reconhecida, clientes fiéis, mas sentia que estava presa a um ciclo — uma coleção por estação, sempre a correr. A instabilidade internacional foi o gatilho, mas o verdadeiro motivo é que percebeu que tinha algo mais importante para fazer.
E esse algo é ensinar?
É preservar. Há uma diferença. Ela não quer apenas ensinar malhas — quer impedir que um conhecimento artesanal desapareça completamente. Aprendeu com a mãe, com a avó, com uma tia. Agora sente-se responsável por passar isso adiante.
Mas porque é que isso é urgente agora?
Porque 68% das exportações têxteis portuguesas são malhas, mas ninguém as está a ensinar. Quem vai programar as máquinas daqui a dez anos se ninguém souber o que as máquinas estão a fazer? Tem de se aprender à mão primeiro.
A coleção que apresentou — "Equinócio" — foi feita por aprendizes?
Praticamente toda. Oito estagiários aprendizes trabalharam em quase todas as peças. E até envolveu idosos de um lar que fizeram flores em crochet. Não é apenas um desfile — é uma demonstração de como o conhecimento pode passar entre gerações.
Qual é o próximo passo?
Precisa de investidores, de apoios, de terminar o doutoramento que está a fazer. Depois quer abrir uma fábrica-escola-atelier no Norte, perto da indústria têxtil. Mas não é um projeto de curto prazo. É uma visão.
E a marca? Morre?
Não. Continua, mas de forma diferente. Sem a obrigação dos desfiles sazonais. Cápsulas, coleções, mas no seu próprio ritmo. Ela está a dar-se permissão para respirar.