Sofrimento de Adriana em 'Quem Ama Cuida' pode virar fenômeno como Juliette no BBB 21

Quanto maior a injustiça, maior o desejo de vê-la triunfar
O mecanismo narrativo que pode transformar Adriana em fenômeno de audiência, assim como aconteceu com Juliette.

Em menos de uma semana, Adriana — personagem de Leticia Colin na novela Quem Ama Cuida — acumulou tantas injustiças que a internet a transformou em símbolo de sofrimento coletivo, evocando a trajetória de Juliette Freire no BBB 21. Walcyr Carrasco, coautor da trama, recorre a um arco narrativo tão antigo quanto O Conde de Monte Cristo: quanto mais funda a queda, mais ardente o desejo do público de ver o triunfo. A questão que paira sobre a novela não é apenas de audiência, mas de fé — a fé que uma sociedade deposita na ideia de que a injustiça, um dia, encontra sua conta.

  • Em apenas sete dias de exibição, Adriana já acumula perdas, humilhações e, em breve, uma prisão injusta por um crime que não cometeu.
  • A internet reagiu com ironia e afeto simultâneos, criando memes com a frase 'e ainda vai piorar' e comparando a personagem à trajetória de Juliette Freire, que venceu o BBB 21 com 90,15% dos votos após semanas de isolamento.
  • Walcyr Carrasco e Claudia Souto apostam num padrão já testado em O Outro Lado do Paraíso e Chocolate com Pimenta: o sofrimento inicial como combustível para a identificação e o desejo de redenção do público.
  • Para não afastar telespectadores avessos ao 'mundo cão', os autores intercalam pequenas vitórias na trajetória da protagonista, mantendo a esperança acesa sem aliviar a tensão central.
  • O verdadeiro desafio da novela é calibrar a dose de dor: profunda o suficiente para gerar engajamento, mas não tão pesada a ponto de fazer o público desistir antes da virada.

Uma semana foi suficiente para Adriana, personagem de Leticia Colin em Quem Ama Cuida, tornar-se fenômeno involuntário nas redes sociais. Internautas passaram a criar edições com a frase 'e ainda vai piorar', retirada da música de abertura da novela, diante do volume de desgraças que a personagem acumula em ritmo acelerado. A comparação com Juliette Freire, vencedora do BBB 21, surgiu naturalmente: ambas carregam uma trajetória de injustiça que, bem conduzida, tem o poder de transformar o engajamento do público em fenômeno cultural.

O arco não é acidental. Walcyr Carrasco, que assina a novela ao lado de Claudia Souto, já utilizou essa lógica em produções anteriores. Em O Outro Lado do Paraíso, a personagem Clara viveu uma virada que resgatou a novela do esquecimento. Em Chocolate com Pimenta, Ana Francisca percorreu o caminho da humilhação à exaltação. O padrão remonta a Alexandre Dumas: quanto mais profundo o sofrimento de Edmond Dantès, mais intenso o prazer do leitor ao vê-lo triunfar. Adriana ainda será presa injustamente pela morte de Arthur, um crime que não cometeu — e cada golpe narrativo aprofunda o investimento emocional do telespectador.

Juliette viveu mecanismo semelhante no confinamento do BBB 21. Isolada e votada para sair na primeira semana, foi progressivamente adotada pelo público até vencer com 90,15% dos votos numa final de três candidatos. O desafio de Carrasco e Souto, porém, é não perder quem não tolera o 'mundo cão' na televisão. Por isso Adriana terá pequenas vitórias no caminho — lampejos de esperança que mantêm o público investido sem aliviar a tensão central. A novela, ambientada em São Paulo, está em posição de testar se o Brasil ainda responde, com a mesma intensidade de sempre, a essa narrativa clássica de injustiça e redenção.

Uma semana é tudo o que levou para Adriana virar piada na internet. A personagem de Leticia Colin em Quem Ama Cuida acumulou tantas desgraças tão rapidamente que internautas começaram a fazer edições dela com a frase "e ainda vai piorar", extraída da música que abre a novela. A comparação com Juliette Freire, a vencedora do BBB 21, não é exagero. Ambas carregam uma trajetória de injustiça que, se bem conduzida, pode transformar uma novela inteira.

Adrianainda será presa injustamente pela morte de Arthur, um crime que não cometeu. Essa sequência de golpes narrativos não é acidental. Walcyr Carrasco, que assina a produção ao lado de Claudia Souto, conhece bem o poder desse tipo de arco. Em O Outro Lado do Paraíso, Clara viveu uma virada impressionante que tirou a novela do buraco e a transformou em sucesso quase instantâneo. Em Chocolate com Pimenta, Ana Francisca saiu da humilhação para a exaltação. O padrão é claro: quanto mais profundo o sofrimento inicial, mais intenso o desejo do público de ver a personagem triunfar.

Juliette vivenciou algo semelhante durante o confinamento. Isolada por boa parte do programa, ela foi rapidamente adotada pelo público—o mesmo que, curiosamente, havia votado para eliminá-la na primeira semana. O desfecho foi consagração: vitória com 90,15% dos votos em uma final com três candidatos. Esse mecanismo narrativo não é novo. Remonta ao século 19, quando Alexandre Dumas criou O Conde de Monte Cristo, uma das grandes histórias de injustiça, sofrimento e vingança da literatura ocidental.

No romance, Edmond Dantès é um jovem marinheiro traído por pessoas próximas, preso injustamente e arrancado da vida que estava prestes a construir. Após anos de sofrimento, consegue escapar, descobre uma fortuna e retorna sob nova identidade para se vingar daqueles que destruíram sua trajetória. É exatamente a lógica que Carrasco e Claudia impõem a Adriana: quanto maior a injustiça sofrida, maior tende a ser o desejo do público de vê-la recompensada. Se o telespectador conseguir se conectar à personagem, o Ibope subirá conforme ela derruba cada um dos vilões.

O desafio para os autores, porém, é construir essa primeira fase sem afastar quem não gosta de ver o "mundo cão" na televisão. Por isso Adriana terá pequenas vitórias no caminho—Arthur, por exemplo, conseguirá tirar sua família do abrigo. Essas pequenas luzes mantêm o público investido, esperançoso, sem desistir da personagem. A novela, ambientada em São Paulo e dirigida artisticamente por Amora Mautner, está em posição de testar se o público brasileiro ainda responde a esse tipo de narrativa clássica com a mesma intensidade que respondeu a Juliette.

Quanto maior a injustiça sofrida por Adriana, maior tende a ser o desejo do público de vê-la recompensada
— Análise sobre a estratégia narrativa de Walcyr Carrasco e Claudia Souto
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que comparar uma personagem de novela com alguém de um reality show? Não são formatos completamente diferentes?

Model

São formatos diferentes, mas o mecanismo emocional é o mesmo. Em ambos, o público investe em alguém que sofre injustamente e torce para vê-la vencer. A diferença é que na novela você controla a narrativa; no reality, o público vota.

Inventor

Então o Walcyr Carrasco já sabe que isso funciona?

Model

Ele provou isso duas vezes. Clara em O Outro Lado do Paraíso saiu do fundo do poço e a novela subiu junto. Ana Francisca em Chocolate com Pimenta fez o mesmo. Ele entende que sofrimento bem construído gera identificação.

Inventor

Mas não é arriscado? E se o público cansar de ver Adriana sofrer?

Model

Exatamente. Por isso ela vai ter pequenas vitórias no meio do caminho. Arthur tira a família do abrigo, por exemplo. Você precisa dar ao público esperança, senão ele desiste.

Inventor

O Conde de Monte Cristo é de 1844. Essa história de injustiça e vingança ainda funciona em 2026?

Model

Funcionou com Juliette em 2021. Se funcionou em um reality show moderno, por que não funcionaria em uma novela? O padrão é antigo, mas o público ainda responde a ele.

Inventor

Qual é o verdadeiro teste aqui?

Model

Se Adriana conseguir manter o público conectado durante o sofrimento, sem que as pessoas desistam dela, então a novela sobe. Se o público se desconectar, cai. Tudo depende de quanto sofrimento as pessoas conseguem suportar antes de pedir para mudar de canal.

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