Sinopense morto na Ucrânia havia gravado vídeo comemorando derrubada de drone russo

Fernando Pereira Lisboa, 40 anos, morreu atingido por ataque com drone na região de Zaporizhzhya após 32 dias na linha de frente, deixando mãe e irmã no Brasil.
Ele ficou muito feliz em chegar lá. Estava no lugar certo.
A irmã de Fernando descreve como ele se sentia ao chegar na Ucrânia e ser recebido pela população local.

Em três meses, Fernando Pereira Lisboa, um homem de 40 anos do interior do Mato Grosso sem qualquer experiência militar, percorreu o caminho da convicção pessoal até a morte em combate nas trincheiras de Zaporizhzhya. Ele chegou à Ucrânia em março movido não por remuneração, mas pelo que descrevia como uma missão — a visão de crianças órfãs e cidades devastadas que o convenceu de que estava no lugar certo. Seu corpo permanecerá em solo ucraniano, e apenas as cinzas retornarão ao Brasil quando a guerra terminar, deixando mãe e irmã como únicas testemunhas de uma escolha que ele fez com os olhos abertos.

  • Um civil sem treinamento atravessou o mundo para uma guerra que não era a sua, e em 32 dias na linha de frente foi morto por um drone russo em Zaporizhzhya.
  • Na madrugada anterior à sua morte, Fernando ligou desesperado para a irmã descrevendo ondas incessantes de drones e bombas, sem saber para onde correr — um presságio que ela só compreendeu no dia seguinte.
  • Apesar dos rumores sobre motivação financeira que circulavam sobre voluntários brasileiros, a família insiste que ele rejeitava essa narrativa com veemência, descrevendo sua presença como um sacrifício consciente pela vida de pessoas mais jovens.
  • O corpo não voltará ao Brasil: as dificuldades logísticas do conflito tornam o translado impossível, e as cinzas só serão enviadas pelas autoridades ucranianas após o fim da guerra.
  • A irmã, agora sozinha com a mãe, recebeu a notícia pelo sargento de Fernando numa manhã de sábado em que havia tentado ligar para ele duas vezes sem resposta.

Fernando Pereira Lisboa tinha 40 anos e morava em Sinop, no Mato Grosso, quando desembarcou na Ucrânia em março sem nunca ter tocado em uma arma. Logo nos primeiros dias, o frio o derrubou com pneumonia. Recuperado, passou por um treinamento intenso e rápido — aprendeu a atirar, a se mover em trincheira, a reconhecer os drones russos que sobrevoavam Zaporizhzhya. Revelou uma habilidade natural: tinha pontaria, precisão, o reflexo certo para derrubar os aparelhos.

No dia 8 de maio, pouco após concluir o treinamento, gravou um vídeo segurando os destroços de um drone FPV que havia abatido com um tiro de fuzil. Sorria para a câmera e mandava abraços para os amigos de Sinop. Era um troféu, e ele queria que soubessem em casa.

Sua irmã conta que Fernando via tudo como missão. Havia rumores de que voluntários brasileiros iam pela remuneração, mas ele rejeitava isso com veemência. Dizia que tinha 40 anos, que estava no lugar certo, que precisava dar sua vida pela vida de pessoas mais jovens. As cidades devastadas, as crianças sem pai, as mães sozinhas — tudo aquilo o tocou profundamente. Disse à irmã que ficaria lá até o último dia de sua vida.

Trinta e dois dias na linha de frente. Na madrugada de quinta-feira, véspera de sua morte, ligou para a irmã desesperado: a Rússia mandava muitos drones, muita bomba, tiros de toda parte, e ele não sabia para onde correr. Pediu orações e bênçãos. Na sexta-feira à noite, um ataque com drone atingiu Fernando e outros dois soldados. Ele morreu no local.

A notícia chegou no sábado, pela voz do sargento. A irmã havia tentado ligar para ele duas vezes naquela manhã sem conseguir. Quando atendeu e ouviu a voz do sargento, soube imediatamente. Havia perdido seu único irmão. Restavam apenas ela e a mãe.

O corpo permanecerá na Ucrânia — os custos e as dificuldades logísticas do conflito tornam o translado impossível. Após o fim da guerra, as autoridades ucranianas enviarão as cinzas ao Brasil. Três meses. De março a junho. A irmã diz que cada dia vencido era um dia para comemorar, porque era muito difícil. Ela não imaginava que seria tão breve.

Fernando Pereira Lisboa tinha 40 anos quando chegou à Ucrânia em março, sem nunca ter tocado em uma arma. Morador de Sinop, no Mato Grosso, ele desembarcou em um país em guerra sem qualquer preparo militar, apenas com uma convicção pessoal de que precisava estar lá. Poucos dias depois de chegar, o frio que seu corpo não conhecia o derrubou com pneumonia. Internado, recuperou-se. E então começou.

O treinamento foi intenso e rápido. Aprendeu a atirar, aprendeu a se mover em trincheira, aprendeu a reconhecer os drones russos que sobrevoavam a região de Zaporizhzhya, no sudeste ucraniano. Algo nele era bom nisso — tinha pontaria, tinha precisão, tinha o reflexo certo. No dia 8 de maio, pouco depois de completar o treinamento, Fernando gravou um vídeo para os amigos e familiares em Sinop. Nele, segurando os destroços de um drone FPV que havia derrubado, ele sorria para a câmera. "E aí, rapaziada de Sinop, um abraço aí para todos os meus amigos", começava, antes de descrever em detalhes técnicos como havia acertado a carga explosiva do aparelho com um tiro de fuzil. Era um troféu de guerra, e ele queria que soubessem em casa que Sinop também derrubava drone.

Sua irmã, a única pessoa próxima que lhe restava além da mãe, conta que Fernando via tudo aquilo como uma missão. Não era dinheiro — havia rumores na internet de que voluntários brasileiros iam pela remuneração, mas ele rejeitava isso com veemência. Ele dizia que tinha 40 anos, que estava no lugar certo, que precisava dar sua vida pela vida de pessoas mais jovens, por mulheres, por crianças. Quando chegou à Ucrânia, foi bem recebido. As mulheres, as crianças, os civis o acolheram. Ele viu cidades devastadas, crianças sem pai porque seus pais já tinham morrido na guerra, mães sozinhas tentando sobreviver. Aquilo o tocou profundamente. Ele disse à irmã que realmente estava no lugar certo, que ficaria lá até o último dia de sua vida.

Trinta e dois dias na linha de frente. Trinta e dois dias em uma trincheira, vendo drones russos chegarem em ondas cada vez mais densas. Na quinta-feira, véspera de sua morte, Fernando ligou para a irmã de madrugada. Disse que as coisas estavam muito difíceis. A Rússia estava mandando muitos drones, muito drone, muita bomba para todos os lados, tiros vindo de toda parte, e ele não sabia para onde correr. Pediu que orassem por ele, que pedissem a bênção de Deus. Ele também olharia para o céu e pediria proteção para a família no Mato Grosso.

Na sexta-feira à noite, um ataque com drone atingiu Fernando e outros dois soldados na região de Zaporizhzhya. Ele morreu no local. A notícia chegou à irmã no sábado, quando o sargento dele ligou. Ela estava em casa, organizando o serviço doméstico, e havia tentado ligar para ele duas vezes naquela manhã, mas não conseguiu. Quando atendeu o telefone e ouviu a voz do sargento, soube imediatamente. Era a notícia mais difícil, mais triste de sua vida. Havia perdido seu único irmão, filho do mesmo pai e da mesma mãe. Restavam apenas ela e a mãe.

O corpo de Fernando permanecerá na Ucrânia. As dificuldades logísticas e os custos de translado em meio ao conflito tornaram impossível trazê-lo de volta ao Brasil. Segundo as informações repassadas à família, após o término da guerra, suas cinzas serão encaminhadas ao país pelas autoridades ucranianas. Três meses. De março a junho. Do desembarque sem experiência à morte em combate, passando por pneumonia, treinamento acelerado, uma derrubada de drone celebrada em vídeo, e 32 dias em uma trincheira vendo a guerra se intensificar a cada dia. A irmã diz que cada dia vencido era um dia para comemorar, porque era muito difícil. Ela não imaginava que seria tão breve.

Ele foi para lá porque disse que tinha que cumprir uma missão, ele deveria cumprir a missão dele e a dele seria essa, dar a vida dele por alguém.
— Irmã de Fernando Pereira Lisboa
Lá chegava a dar dó de ver as crianças, crianças sem pai, que os pais já tinham morrido na guerra. A cidade estava bem devastada.
— Irmã, relatando o que Fernando disse sobre a situação na Ucrânia
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que você acha que Fernando decidiu ir para a Ucrânia sem nenhuma experiência militar?

Model

Sua irmã diz que ele via aquilo como uma missão pessoal, quase espiritual. Não era sobre dinheiro — ele rejeitava essa narrativa com força. Era sobre estar no lugar certo, no momento certo, dando sua vida por pessoas que precisavam.

Inventor

E quando ele chegou lá, o que mudou em relação a como ele falava sobre a guerra?

Model

No começo, ele estava feliz de ter sido bem recebido, de estar ajudando. Mas conforme os dias passavam, especialmente nos últimos, ele começou a relatar a intensificação dos ataques. Na quinta-feira, véspera de sua morte, ele soava diferente — assustado, pedindo orações.

Inventor

Você acha que ele sabia que estava em perigo?

Model

É difícil dizer. Ele estava em uma trincheira há 32 dias vendo drones chegarem em ondas cada vez maiores. Provavelmente sabia que o risco era real. Mas continuou lá.

Inventor

Por que a família decidiu deixar o corpo na Ucrânia?

Model

Não foi exatamente uma decisão. Foi uma realidade imposta pela guerra — os custos, a logística, o conflito ainda em andamento. Mas há algo simbólico nisso também. Ele disse que ficaria lá até o último dia de sua vida. De certa forma, cumpriu a palavra.

Inventor

O vídeo do drone que ele derrubou — o que aquilo significava para ele?

Model

Era prova de que ele era bom naquilo, de que sua presença ali importava. Ele queria que os amigos em Sinop soubessem que ele estava fazendo diferença, que estava vencendo. Cada drone derrubado era uma vitória em um lugar onde vitórias eram raras.

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