Sete cidades concentram expansão de data centers; energia é fator decisivo

Energia deixou de ser diferencial, passou a ser requisito básico
A transformação reflete como a demanda por data centers redefiniu o que torna uma cidade atrativa para investimento tecnológico.

No silêncio das decisões corporativas, sete cidades brasileiras emergem como os novos pilares da infraestrutura digital do país — não por acaso, mas por eletricidade. Um estudo da Allrea revela que a disponibilidade de energia deixou de ser vantagem e tornou-se condição de existência para quem deseja atrair data centers, redesenhando o mapa do poder digital brasileiro. Nova Iguaçu lidera essa geografia invisível, enquanto Brasília observa com inquietação a concentração crescente de um recurso que, em caso de falha, poderia comprometer a soberania digital da nação.

  • A corrida por data centers no Brasil não é distribuída — está se consolidando em apenas sete municípios, criando uma hierarquia territorial difícil de reverter.
  • Energia elétrica confiável e abundante tornou-se o único critério inegociável: cidades sem subestações adequadas ficam automaticamente fora do jogo, independentemente de outros atrativos.
  • Construir nova infraestrutura energética leva mais de dois anos, o que transforma a vantagem atual dessas sete cidades em uma barreira quase intransponível para concorrentes.
  • A Anatel alerta que essa concentração geográfica expõe o Brasil a riscos sistêmicos — um ataque cibernético ou desastre natural poderia derrubar grande parte da infraestrutura digital nacional de uma só vez.
  • O conflito entre a lógica do investimento privado, que segue a infraestrutura existente, e a visão estratégica do Estado, que preza pela resiliência territorial, ainda não tem resolução à vista.

Sete cidades brasileiras estão se tornando o epicentro silencioso da infraestrutura digital do país. Um estudo inédito da Allrea mapeou onde as empresas pretendem construir seus próximos data centers — e a concentração surpreende. Nova Iguaçu lidera com nove terrenos viáveis identificados. Joinville e Ponta Grossa aparecem em seguida, com oito áreas cada. Queimados, Sorocaba, o Rio de Janeiro e Araraquara completam a lista.

Por trás dessa geografia existe um fator que se tornou absolutamente inegociável: energia. Thomaz Brancati, CEO da Allrea, resume bem a mudança — há alguns anos, a disponibilidade de eletricidade era um diferencial competitivo. Hoje, é simplesmente o preço de entrada. Data centers funcionam como máquinas sedentas, consumindo volumes enormes de eletricidade para manter servidores operando ininterruptamente.

A infraestrutura energética existente cria uma barreira praticamente intransponível. Construir uma subestação capaz de suportar a demanda de um data center moderno leva mais de dois anos — do projeto à energia fluindo de fato. Investidores não querem esperar. Logística, disponibilidade de grandes terrenos e zoneamento urbano também pesam, mas quando há conflito entre esses fatores, a energia sempre vence.

A tendência é que essa concentração se aprofunde. A computação em nuvem, a inteligência artificial e a explosão na demanda por armazenamento continuarão direcionando investimentos para essas mesmas cidades. Empresas globais escolherão onde a infraestrutura já existe e onde o risco é menor.

Essa dinâmica, porém, preocupa a Anatel. A agência enxerga um problema de segurança nacional: com o processamento de dados concentrado em poucos centros urbanos, o Brasil fica vulnerável a falhas em cascata, ataques cibernéticos ou desastres naturais. Uma distribuição mais equilibrada aumentaria a resiliência do sistema — mas essa visão entra em conflito direto com a lógica do capital privado, que segue a infraestrutura existente, não o planejamento estratégico de longo prazo.

Sete cidades brasileiras estão se tornando o epicentro de uma transformação silenciosa na infraestrutura digital do país. Um estudo inédito da Allrea, empresa especializada em inteligência territorial, mapeou onde as empresas querem construir seus próximos data centers — e a resposta é surpreendentemente concentrada. Nova Iguaçu, na região metropolitana do Rio, lidera com nove terrenos identificados como viáveis. Joinville em Santa Catarina e Ponta Grossa no Paraná aparecem em seguida, cada uma com oito áreas. Queimados também no Rio tem cinco opções. Sorocaba e a capital fluminense possuem quatro cada. Araraquara, em São Paulo, fecha a lista com apenas duas.

Por trás dessa geografia está um fator que se tornou absolutamente inegociável: energia. Thomaz Brancati, CEO da Allrea, resume a mudança de forma clara. Há alguns anos, a disponibilidade de eletricidade era um diferencial competitivo entre cidades. Hoje, é simplesmente o preço de entrada. Sem acesso confiável e abundante a energia, um município pode ter o melhor terreno do mundo e ainda assim não atrairá investimento em data centers. Os centros de processamento de dados funcionam como máquinas sedentas — consomem quantidades enormes de eletricidade para manter servidores rodando 24 horas por dia, armazenando e processando a informação que move a economia digital.

A infraestrutura energética existente é tão determinante que cria uma barreira praticamente intransponível para cidades que não a possuem. Construir uma nova subestação elétrica capaz de suportar a demanda de um data center moderno leva mais de dois anos — desde a aprovação do projeto até o momento em que a energia realmente flui. Isso significa que as sete cidades identificadas no estudo já têm uma vantagem competitiva que seus concorrentes não conseguem replicar rapidamente. Investidores sabem disso. Quando uma empresa decide onde instalar um data center, ela não quer esperar anos pela infraestrutura ficar pronta. Quer começar a operar logo.

Mas energia não é o único critério. A Allrea observou que logística, disponibilidade de terrenos de grande porte e compatibilidade com zoneamento urbano também pesam nas decisões. Uma cidade pode ter eletricidade de sobra, mas se não tiver acesso rodoviário adequado ou se a legislação local não permitir esse tipo de empreendimento, o investimento não sai do papel. Ainda assim, quando há conflito entre esses fatores, energia vence. É o requisito que não pode ser negociado.

A tendência é que essa concentração se aprofunde nos próximos anos. A computação em nuvem, a inteligência artificial e a explosão na demanda por armazenamento de dados continuarão empurrando investimentos para essas sete cidades. Empresas globais que precisam de presença no Brasil vão escolher onde a infraestrutura já existe, onde podem começar rápido, onde o risco é menor.

Mas essa concentração geográfica está gerando alarme em Brasília. A Agência Nacional de Telecomunicações vê um problema de segurança nacional nessa dinâmica. Se o processamento de dados do Brasil está concentrado em poucos centros urbanos — principalmente São Paulo e Rio de Janeiro — o país fica vulnerável. Uma falha em cascata, um ataque cibernético coordenado, um desastre natural: qualquer um desses cenários poderia derrubar uma porção significativa da infraestrutura digital brasileira. A Anatel acredita que uma distribuição mais equilibrada dos data centers pelo território nacional aumentaria a resiliência do sistema, espalhando o risco, fortalecendo as redes estratégicas. Mas essa é uma visão que entra em conflito direto com a lógica dos investimentos privados, que seguem a energia e a infraestrutura existente, não a segurança nacional de longo prazo.

Energia deixou de ser apenas um diferencial e passou a ser um requisito básico para viabilizar esse tipo de empreendimento
— Thomaz Brancati, CEO da Allrea
A distribuição mais equilibrada dos data centers pelo território brasileiro aumentaria a resiliência da infraestrutura digital
— Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel)
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que exatamente energia se tornou tão crítica? Não era sempre importante?

Model

Era importante, mas era negociável. Dez anos atrás, uma empresa podia escolher um lugar com energia mediana e investir em geradores de backup, em soluções alternativas. Hoje, com a escala dos data centers, isso não funciona mais. Um único servidor moderno consome o que uma casa inteira consumia há vinte anos. Multiplicado por milhares de máquinas, você precisa de uma subestação robusta, não de improviso.

Inventor

E por que leva dois anos para construir uma subestação?

Model

Porque não é só cavar um buraco e ligar um fio. Envolve aprovação regulatória, planejamento da rede elétrica regional, impacto ambiental, negociação com distribuidoras. É infraestrutura pesada. Enquanto isso, as cidades que já têm subestações prontas ganham dois anos de vantagem — dois anos em que um concorrente poderia estar operando, gerando receita.

Inventor

Isso significa que as outras cidades estão condenadas a ficar para trás?

Model

Não condenadas, mas em desvantagem real. Uma cidade poderia investir em expandir sua infraestrutura energética, mas isso é caro e leva tempo. Enquanto isso, os investimentos vão para onde já existe. É um ciclo que se reforça a si mesmo.

Inventor

E a preocupação da Anatel com segurança — é legítima?

Model

Completamente. Se você concentra o processamento de dados de um país inteiro em sete cidades, você cria um ponto único de falha. Mas a Anatel está pedindo algo que vai contra os incentivos do mercado. Nenhuma empresa privada vai escolher uma cidade com infraestrutura pior só porque ajuda a segurança nacional. Elas vão para onde é mais eficiente, mais rápido, mais barato.

Inventor

Então há uma tensão real entre o que é bom para o negócio e o que é bom para o país?

Model

Exatamente. E por enquanto, o negócio está vencendo. A menos que o governo intervenha — com incentivos, com investimento em infraestrutura em outras regiões — essa concentração vai continuar crescendo.

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