Sérgio Figueiredo abandona presidência do Conta Lá em reestruturação

Aproximadamente 100 trabalhadores, incluindo 40 jornalistas, enfrentam atrasos salariais de dois meses e risco de suspensão temporária de contratos ou redução de horário.
Tornou-se insuportável viver sem respostas
Sérgio Figueiredo explicou sua saída da presidência do Conta Lá após um ano de dificuldades financeiras.

CEO abandona projeto após 12 meses de operação, citando incapacidade de responder às dificuldades financeiras e atrasos salariais dos trabalhadores. Canal televisivo enfrenta subcapitalização, atrasos de dois meses em salários e subsídios, afetando cerca de 100 colaboradores, incluindo 40 jornalistas.

  • CEO abandona projeto após 12 meses de operação
  • Cerca de 100 trabalhadores, incluindo 40 jornalistas, com dois meses de salários em atraso
  • Assembleia-geral de acionistas convocada para fim de julho para aprovar reestruturação
  • Canal de televisão por cabo com programação regional, autorizado há quase um ano

Sérgio Figueiredo, presidente executivo do canal Conta Lá, anuncia sua saída após um ano de dificuldades financeiras, com trabalhadores em atraso salarial e reestruturação iminente.

Sérgio Figueiredo saiu do Conta Lá numa quarta-feira de julho, comunicando aos trabalhadores por e-mail antes de um plenário que já não seria o rosto executivo do canal de televisão. A sua partida marca o fim de um ano de tentativas que terminaram em frustração — salários atrasados, investimentos que nunca chegaram, e uma equipa de cerca de cem pessoas, quarenta delas jornalistas, pendurada numa incerteza que se tornou insuportável.

O presidente executivo anunciou que uma assembleia-geral de acionistas seria convocada ainda antes do final do mês para aprovar um plano de reestruturação e nomear uma nova Comissão de Gestão que assumiria a condução do projeto. Figueiredo, que entrara no Conta Lá "com a força de quem sonha transformar o mundo", reconheceu na sua carta aos trabalhadores que aquele ano fora simultaneamente muito e muito pouco — muito pelo que se conseguiu fazer, muito pouco pelo tempo decorrido, mas pesado demais pelo peso do fracasso.

O canal, transmitido no cabo desde o ano anterior, enfrentava uma crise de capital que nenhuma gestão conseguira contornar. Figueiredo descreveu um cenário onde tudo o que estava ao seu alcance fora tentado para trazer o dinheiro necessário, mas os números nunca fecharam. Não se gastou mais do que o planeado; conseguiu-se apenas menos do que se precisava. Entretanto, investimentos que tinham sido contratualizados nunca se realizaram, contratos assinados não foram cumpridos. "Falhei, mas também me falharam", escreveu.

Os trabalhadores, reunidos em plenário naquele mesmo dia, aprovaram um pedido de esclarecimento sobre a situação da empresa. Dois terços deles compareceram, e a realidade que enfrentavam era concreta: dois meses de salários em atraso, com o risco de entrar num terceiro mês sem receber se julho não trouxesse pagamentos. Os que ganhavam menos, cerca de trinta pessoas, tinham recebido o salário em maio, mas sem o subsídio de refeição. O Sindicato dos Jornalistas já havia considerado a situação inaceitável, pedindo à empresa uma posição clara e transparente.

Figueiredo reconheceu também que a transparência que tentara manter com os trabalhadores degenerou nalguns momentos em fugas de informação que geraram notícias falsas e maldosas. Isso agravou uma situação já difícil, criando uma crise de confiança junto dos fornecedores, investidores, autarcas e bancos — exatamente aqueles de quem o projeto mais precisava. Na formação de equipas, nem tudo correra bem; pessoas certas ocuparam cargos errados, adicionando instabilidade a um projeto que já sofria de subcapitalização.

O Conta Lá havia nascido com ambições grandes. Há quase um ano, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social autorizara a atividade de quatro canais regionais — Sul, Centro, Norte e Rural — com um projeto que previa a criação de duzentos e cinco postos de trabalho, cento e trinta e três deles na área de informação. Seria uma cobertura descentralizada de norte a sul do país, incluindo as ilhas, com vários polos regionais. Jornalistas como Ana Sofia Vinhas, que regressava ao jornalismo após dezassete anos, integraram a operação.

Mas um ano depois, o projeto enfrentava uma reestruturação que incluiria suspensão temporária de contratos ou redução de horário. Figueiredo saía de cena, juntamente com Maurício Ribeiro e Jorge Santos, assim que a assembleia aprovasse o novo plano e a nova Comissão de Gestão. "Não é o fim do projeto, é simplesmente o meu fim nele", escreveu. Esperava que novos acionistas trouxessem novos líderes, gente com energia renovada, que pudesse finalmente dar ao Conta Lá os meios que precisava. O que restava era desejar que não faltasse esse chão na caminhada única que o canal ainda tinha para percorrer.

Não é o fim do projeto, é simplesmente o meu fim nele
— Sérgio Figueiredo, presidente executivo do Conta Lá
Falhei, mas também me falharam. Quando nos falham com a palavra dada, não há gestão danosa: ficam só os danos dos quais nunca mais nos recompusemos
— Sérgio Figueiredo, na carta aos trabalhadores
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

O que levou Sérgio Figueiredo a sair agora, depois de apenas um ano?

Model

Ele diz que se tornou insuportável viver sem respostas. Tinha prioridades claras — estabilidade acionista, capacidade de gestão, um projeto inovador — mas nenhuma delas se concretizou como era preciso. Os salários atrasados dos trabalhadores tornaram a situação insustentável.

Inventor

Mas ele não tinha controlo sobre os investimentos que não chegaram?

Model

Parcialmente. Figueiredo reconhece que falharam com ele — contratos assinados que não foram cumpridos, investimentos contratualizados que nunca se realizaram. Mas também assume responsabilidade pela forma como a equipa foi formada e como a transparência se transformou em fugas de informação.

Inventor

Como é que cem pessoas chegam a estar dois meses sem salário?

Model

O projeto estava subcapitalizado desde o início. Não era questão de má gestão dos recursos existentes — era que os recursos nunca foram suficientes. E quando a confiança desaparece, os fornecedores, bancos e investidores afastam-se ainda mais.

Inventor

O que acontece agora ao Conta Lá?

Model

Uma nova Comissão de Gestão vai assumir, esperando que novos acionistas tragam capital fresco. Mas os cem trabalhadores, quarenta deles jornalistas, enfrentam uma reestruturação que pode incluir suspensão de contratos ou redução de horário. O projeto continua, mas transformado.

Inventor

Figueiredo parece genuinamente arrependido.

Model

Sim. A carta dele não é uma defesa — é uma confissão de impotência. Diz que entrou com sonhos de transformar o mundo e saiu incapaz de responder ao desespero de quem o olhava à espera de respostas. Isso é pesado.

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