A ausência de piora era tudo que o mercado precisava para respirar
Ausência de invasão israelense a Gaza no fim de semana alivia temores de investidores internacionais sobre conflito regional. Petróleo cai 1% e permanece em torno de US$ 90/barril, reduzindo pressão inflacionária global e permitindo retorno ao foco em juros.
- Ibovespa subiu 0,67% para 116.534 pontos; dólar caiu 1,02% para R$ 5,04
- Petróleo caiu 1% e permanecia em torno de US$ 90 por barril
- Quase três mil israelenses e palestinos mortos desde o início do conflito
- Selic em 12,75% ao ano; economistas apontam queda para 9%, investidores precificam 10,75%
Investidores retomam especulação sobre juros após fim de semana sem escalada da guerra Israel-Hamas. Ibovespa sobe 0,67% e dólar cai 1,02% com petróleo contido.
A semana começou com um alívio que os mercados financeiros não esperavam receber. Não porque algo de novo tivesse acontecido — na verdade, nada havia mudado desde sexta-feira. Israel não havia invadido a Faixa de Gaza. O conflito com o Hamas não se havia espalhado pelo Oriente Médio. As bombas continuavam caindo como antes. E foi justamente essa ausência de escalada que devolveu aos investidores o apetite pelo risco que haviam perdido dias antes.
Na segunda-feira, 16 de outubro, o Ibovespa subiu 0,67%, fechando em 116.534 pontos. Das 86 ações que compõem o índice, 59 subiram. O dólar caiu 1,02%, cotado a R$ 5,04. Esses números refletem uma mudança de humor simples mas significativa: o mercado havia acordado para a guerra no Oriente Médio na sexta anterior e, alguns dias depois, havia voltado a dormir. Na última sessão da semana anterior, os investidores haviam realizado lucros sob o temor de uma invasão iminente. A possível escalada da resposta israelense aos ataques do Hamas recomendava cautela. Mas o fim de semana passou sem novidades. O presidente americano Joe Biden havia classificado como um erro uma eventual retomada de Gaza por Israel. O secretário de Estado Antony Blinken percorria países árabes tentando evitar o envolvimento de novos atores no confronto. Os Estados Unidos, principal aliado de Tel Aviv, pareciam trabalhar para esfriar os ânimos — não exatamente em busca da paz, mas ao menos para não piorar ainda mais a situação.
Com a ameaça de ataque por terra, céu e mar não confirmada, e com menores chances de bloqueios na oferta global de alimentos e petróleo, o mercado respirou. O petróleo caiu 1% naquela sessão e permanecia em torno de US$ 90 por barril. Desde o início da guerra, as cotações internacionais do petróleo haviam subido cerca de 7%, mas essa alta simplesmente havia devolvido a queda do começo do mês, quando o dólar mais forte pressionava os preços. Enquanto o petróleo girasse pelos US$ 90, nada deveria mudar na dinâmica de curto prazo de inflação e juros globais.
Com o risco geopolítico contido, os investidores retomaram sua grande obsessão: especular sobre o rumo dos juros nos Estados Unidos. Ou, em outras palavras, sobre qual seria o preço do dinheiro no mundo nos próximos meses. Embora tivessem subido desde quinta-feira as apostas em nova alta dos juros americanos até o fim do ano, essas apostas eram minoritárias. A inflação americana teria a palavra final. Do contrário, haveria um obstáculo a mais para a queda de juros no Brasil, que já contava com seus próprios problemas de natureza fiscal como empecilho.
A maior parte dos economistas brasileiros apontava para uma queda da Selic dos atuais 12,75% ao ano até 9%. Mas os investidores continuavam embutindo à curva de juros futuros os 10,75% como fim da linha. Naquele dia, porém, houve algum alívio. As taxas de Depósito Interfinanceiro para janeiro de 2025 caíram de 11,00% para 10,93%. Para janeiro de 2033, caíram de 11,84% para 11,74%. Quanto mais longo o prazo, maior a influência do que os mercados chamam de risco fiscal — o cheiro de calote do governo.
O conflito entre Israel e Hamas havia deixado quase três mil mortos entre israelenses e palestinos. Mas para os mercados financeiros, o que importava naquele momento era simples: a ausência de piora. Os mercados emergentes, que haviam sido evitados por investidores internacionais na semana anterior, voltavam a ser considerados. O Brasil, com seus problemas internos de juros e fiscal, podia respirar um pouco mais fácil — pelo menos enquanto a guerra não escalasse e o petróleo não disparasse.
Citas Notables
Classificou como um erro a eventual retomada da Faixa de Gaza por Israel— Presidente americano Joe Biden
Percorria países árabes tentando evitar o envolvimento de novos atores no confronto— Secretário de Estado americano Antony Blinken
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que exatamente a falta de novidades foi tão importante para os mercados naquele dia?
Porque a incerteza é o inimigo do investidor. Na sexta anterior, havia a possibilidade real de uma invasão israelense a Gaza. Ninguém sabia como isso se desenrolaria, se outros países entrariam no conflito, se o petróleo dispararia. Quando o fim de semana passou sem escalada, a incerteza diminuiu. E com ela, o medo.
Mas o conflito continuava acontecendo. Pessoas continuavam morrendo. Por que isso não importava?
Importava, mas de uma forma diferente. O que importava era se a situação pioraria ou não. Se o conflito permanecia nos mesmos patamares, era possível precificar o risco. E um risco que você consegue precificar é um risco com o qual você consegue trabalhar.
E o petróleo? Por que ele era tão crucial nessa história?
Porque petróleo é inflação. Se o petróleo sobe muito, a inflação global sobe, e os bancos centrais precisam manter juros altos por mais tempo. Juros altos prejudicam os mercados emergentes, que dependem de capital estrangeiro barato. Quando o petróleo ficou contido em US$ 90, o mercado pôde voltar a especular sobre uma queda de juros.
Os economistas brasileiros esperavam a Selic em 9%, mas os investidores apostavam em 10,75%. Quem estava certo?
Essa era a tensão do momento. Os economistas olhavam para a inflação e viam espaço para cortes. Os investidores olhavam para o fiscal — para o risco de o governo não conseguir pagar suas contas — e viam razão para juros mais altos. Ambos tinham argumentos.
Então o Brasil estava preso entre dois medos: o medo geopolítico global e o medo fiscal interno?
Exatamente. Quando o medo geopolítico diminuiu, o medo fiscal ficou mais visível. O Brasil não podia se dar ao luxo de ignorar nenhum dos dois.