Copom reduz Selic para 11,75% ao ano em quarto corte consecutivo

A inflação desacelerada, mas as expectativas ainda não estão onde precisam estar
O Copom reconhece progresso na desinflação, mas permanece cauteloso com expectativas de inflação desancoradas para períodos mais longos.

Pelo quarto mês consecutivo, o Banco Central brasileiro afrouxou o nó dos juros, reduzindo a Selic de 12,25% para 11,75% ao ano — um gesto unânime que confirma a trajetória de desinflação, mas que carrega, em seu silêncio, a cautela de quem sabe que o caminho ainda não está livre. A decisão, tomada em dezembro de 2023, reflete tanto o progresso real da economia quanto as incertezas fiscais e globais que continuam a pesar sobre o horizonte. O Copom avança, mas com os olhos abertos para o que pode mudar.

  • A Selic cai pela quarta vez seguida, chegando a 11,75% ao ano — um ritmo que confirma a aposta do Banco Central na desinflação, mas que ainda deixa os juros em patamar historicamente elevado.
  • A incerteza fiscal cresceu: a possível revisão da meta de zerar o déficit em 2024 ameaça desancorar as expectativas de inflação e complica o trabalho do Copom.
  • Economistas debatem se o BC deve abandonar a prática de sinalizar com antecedência seus próximos passos, o que daria mais liberdade para ajustar o ritmo conforme a inflação evoluir.
  • A unanimidade dos nove membros do Comitê pode ser passageira: a chegada de novos diretores indicados pelo governo Lula abre espaço para divergências futuras sobre a velocidade dos cortes.
  • O cenário externo arrefeceu levemente, mas os juros longos nos EUA e a inflação global ainda elevada mantêm o ambiente volátil e limitam a margem de manobra do Banco Central brasileiro.

O Banco Central brasileiro deu mais um passo em sua jornada de afrouxamento monetário, reduzindo a Selic de 12,25% para 11,75% ao ano em decisão unânime do Copom. É o quarto corte consecutivo desde agosto de 2023, e chegou exatamente como os economistas esperavam: meio ponto percentual, sem surpresas.

A decisão reflete o avanço da desinflação no Brasil. A inflação ao consumidor segue em queda, e as medidas de inflação subjacente se aproximam da meta. As expectativas para 2024 giram em torno de 3,9% pelo Focus e 3,5% pelas próprias projeções do Copom. Ainda assim, o Comitê não baixa a guarda: a reancoragem das expectativas para prazos mais longos é apenas parcial, e o cenário internacional permanece desafiador.

Dois pontos de atenção marcam o comunicado. O primeiro é a incerteza fiscal — a possibilidade de mudança na meta de zerar o déficit em 2024 preocupa o BC, que reafirma a importância da disciplina fiscal para manter a inflação sob controle. O segundo é justamente o risco de expectativas desancoradas, que poderiam forçar uma pausa ou reversão no ciclo de cortes.

Sobre os próximos passos, há debate. Rafael Ihara, da Meraki Asset, vê consenso no corte atual, mas incerteza à frente. José Francisco de Lima, do Banco Fator, sugere que o Copom pode deixar de sinalizar suas intenções com antecedência, ganhando mais flexibilidade para reagir à dinâmica inflacionária. A unanimidade de hoje pode não se repetir: com a chegada de novos diretores indicados pelo governo Lula, o Comitê pode enfrentar visões divergentes sobre o ritmo ideal de flexibilização nos próximos meses.

O Banco Central brasileiro reduziu a taxa básica de juros pela quarta vez consecutiva nesta quarta-feira, levando a Selic de 12,25% para 11,75% ao ano. O corte de meio ponto percentual, decidido unanimemente pelo Comitê de Política Monetária, segue o padrão de flexibilização iniciado em agosto e confirmou exatamente o que os economistas consultados esperavam.

A decisão reflete o progresso na desinflação da economia brasileira. O Copom observa que a inflação cheia ao consumidor mantém trajetória de queda, com as medidas de inflação subjacente se aproximando da meta estabelecida. As expectativas de inflação para 2024 estão em torno de 3,9%, segundo a pesquisa Focus, enquanto as projeções do próprio Copom apontam para 3,5% no mesmo período. Ainda assim, o Comitê permanece cauteloso: as expectativas de inflação para períodos mais longos mostram reancoragem apenas parcial, e o cenário internacional segue desafiador.

O comunicado do Copom enfatiza dois pontos de preocupação. Primeiro, a incerteza fiscal cresceu recentemente, especialmente com a possibilidade de mudança na meta fiscal de 2024, que atualmente prevê zerar o déficit. Segundo, as expectativas desancoradas para a inflação continuam sendo um fator de atenção. Por isso, o Comitê reafirma a importância da execução firme das metas fiscais já estabelecidas como condição essencial para manter as expectativas de inflação sob controle e permitir a condução adequada da política monetária.

Há, porém, questões em aberto sobre os próximos passos. Rafael Ihara, economista da Meraki Asset, observa que existe consenso sobre o corte desta reunião, mas há discussão sobre as próximas. Ele avalia que o Banco Central provavelmente manterá o ritmo de reduções de meio ponto percentual, embora alguns argumentem que o BC poderia ganhar mais flexibilidade mudando sua comunicação. José Francisco de Lima, economista-chefe do Banco Fator, sugere que o Copom pode deixar de anunciar com antecedência suas intenções para as próximas duas reuniões, uma mudança que daria ao Comitê mais liberdade para ajustar o ritmo de cortes conforme a dinâmica inflacionária evoluir.

O Copom também sinaliza que a magnitude total do ciclo de flexibilização dependerá de como a inflação se comportar nos próximos meses, especialmente os componentes mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica. O ambiente externo, embora menos adverso que na reunião anterior, permanece volátil. As taxas de juros de prazos mais longos nos Estados Unidos arrefeceram, e há sinais iniciais de queda nos núcleos de inflação globais, mas estes ainda permanecem em níveis elevados em diversos países.

Os nove membros do Comitê votaram unanimemente pela redução de meio ponto percentual, incluindo o presidente Roberto de Oliveira Campos Neto e os demais diretores. Essa unanimidade contrasta com possíveis divisões futuras, especialmente após a entrada de dois novos membros indicados pelo governo Lula, que podem trazer perspectivas diferentes sobre o ritmo apropriado de flexibilização. O que vem a seguir dependerá tanto da evolução da inflação doméstica quanto do cenário internacional e da execução das metas fiscais que o próprio Copom considera tão críticas para o sucesso de sua estratégia.

O Comitê reafirma a importância da firme persecução das metas fiscais já estabelecidas para a ancoragem das expectativas de inflação
— Comunicado do Copom
Há consenso sobre o corte desta reunião, mas há discussão sobre as próximas. O Banco Central provavelmente manterá o ritmo de reduções
— Rafael Ihara, economista da Meraki Asset
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que o Banco Central insiste que as metas fiscais são tão importantes para a política monetária?

Model

Porque a inflação é uma questão de confiança. Se as pessoas acreditam que o governo vai gastar sem controle, elas esperam inflação futura e começam a cobrar mais caro hoje. Isso desancora as expectativas. Sem metas fiscais cumpridas, o Banco Central fica remando contra a maré.

Inventor

Mas o Copom está cortando juros mesmo com essa incerteza fiscal. Não é contraditório?

Model

Não exatamente. A inflação está caindo, os números mostram isso. O Copom está aproveitando esse espaço para aliviar a economia. Mas está deixando claro que precisa que o governo faça sua parte.

Inventor

Há algo que preocupa mais o Copom neste momento?

Model

Sim, as expectativas de inflação desancoradas, especialmente para prazos mais longos. Se as pessoas começarem a acreditar que a inflação vai ficar alta, elas mudam comportamento, e aí fica difícil trazer a inflação para baixo.

Inventor

E quanto aos próximos cortes? Vão continuar neste ritmo?

Model

O Copom sinaliza que sim, mas está deixando a porta aberta para mudar. Pode deixar de anunciar com antecedência o que vai fazer, ganhando flexibilidade. Tudo depende de como a inflação se comportar.

Inventor

Qual é o risco maior agora?

Model

O risco é que a inflação desacelere mais lentamente do que esperado, ou que as expectativas não se ancoem. Se isso acontecer, o Banco Central pode precisar parar de cortar ou até voltar a subir juros.

Fale Conosco FAQ