Selic a 7,75%: poupança rende mais, mas continua perdendo para inflação

Treze meses seguidos de perda de poder de compra
A poupança brasileira enfrenta seu pior período em três décadas, com rendimento real negativo mesmo após aumento da Selic.

O Banco Central do Brasil elevou a Selic para 7,75% ao ano, num movimento que ecoa pelas carteiras de milhões de brasileiros e reacende o debate sobre onde guardar o dinheiro em tempos de inflação persistente. A poupança, símbolo de segurança para gerações, ganha alguns décimos a mais — mas segue perdendo para uma inflação que corrói o poder de compra há mais de um ano. Num país onde o equilíbrio entre proteção e rendimento nunca foi simples, a alta dos juros não resolve, mas redistribui as escolhas possíveis.

  • A Selic sobe para 7,75% ao ano, mas a inflação projetada em 8,96% para 2021 garante que a poupança continue no vermelho em termos reais.
  • Treze meses consecutivos de perda de poder de compra revelam que o aumento de 0,08 ponto percentual na poupança é insuficiente para reverter a sangria.
  • Os brasileiros já sacaram mais de 23 bilhões de reais a mais do que depositaram na poupança em 2021, sinalizando uma migração silenciosa em curso.
  • CDBs, Tesouro Direto e debêntures incentivadas lideram as buscas em outubro, enquanto a bolsa perde atratividade com a deterioração econômica.
  • Especialistas alertam contra títulos prefixados e recomendam pós-fixados, que acompanham o ciclo de juros e oferecem proteção real contra a inflação.
  • Com a Selic podendo chegar a 9,5% em 2022, o cenário ainda é de incerteza — e a poupança, mesmo rendendo um pouco mais, deixou de ser o refúgio que um dia foi.

O Banco Central elevou a Selic para 7,75% ao ano, e a caderneta de poupança passou a render 0,44% ao mês — ou 5,43% ao ano. É um aumento concreto: quem tinha mil reais aplicados receberá 54,30 reais em um ano, contra 43,80 reais antes. Mas a inflação acumulada em setembro já havia corroído 7,46% do poder de compra do poupador, e a projeção para 2021 é de 8,96%. O ganho some quando se desconta o custo real de vida.

O pano de fundo é de pressão econômica. A proposta de flexibilizar o teto de gastos alimentou temores de inflação acima dos dois dígitos, e o mercado projeta a Selic chegando a 8,75% até o fim de 2021 e a 9,5% em 2022. Quando ultrapassar 8,5%, a poupança mudará de regime e chegará a 6,17% ao ano — ainda insuficiente para vencer a inflação. Quem aplicou antes de abril de 2012 já recebe esse percentual, mas também perde em termos reais.

O comportamento dos investidores reflete esse desconforto. Em 2021, os saques na poupança superaram os depósitos em mais de 23 bilhões de reais. Em outubro, CDBs, LC/RDB e Tesouro Direto lideraram as buscas. A bolsa, por sua vez, sofre com a deterioração econômica e a migração do capital para a renda fixa. Um CDB de banco médio pode render 7,96% ao ano líquido com a Selic a 7,75%; uma debênture incentivada projeta rendimento real positivo de 2,38% — a exceção entre as aplicações analisadas.

A recomendação dos especialistas é clara: evitar títulos prefixados enquanto o teto do ciclo de alta de juros for incerto, e preferir pós-fixados, que acompanham a Selic e protegem contra a inflação. A diversificação continua essencial, e maiores rentabilidades seguem atreladas a maiores riscos e prazos mais longos. O que a alta da Selic deixa evidente é que a poupança, embora um pouco mais generosa, perdeu definitivamente seu papel de porto seguro.

O Banco Central elevou a taxa básica de juros, a Selic, para 7,75% ao ano na quarta-feira, uma decisão que reverbera imediatamente nas carteiras de milhões de brasileiros. A caderneta de poupança, aquela aplicação que gerações aprenderam a considerar como porto seguro, passa agora a render 0,44% ao mês — ou 5,43% ao ano. É um aumento, sim, mas insuficiente. Treze meses seguidos de perda de poder de compra não se revertem com um ajuste de alguns décimos percentuais.

Até a semana anterior, com a Selic em 6,25%, a poupança rendia 0,36% ao mês e 4,38% ao ano. Quem tinha mil reais aplicados recebia 43,80 reais de rendimento em um ano. Agora receberá 54,30 reais. A diferença é real, mas quando se desconta a inflação — que em setembro acumulava uma queda de 7,46% no poder de compra do poupador — o ganho desaparece. A inflação projetada para 2021 está em 8,96%, segundo as expectativas do mercado financeiro. A poupança não acompanha.

O cenário que se desenha é de uma economia sob pressão. O ministro da Economia havia proposto flexibilizar o teto de gastos, o principal mecanismo de controle fiscal do país, e isso alimentou preocupações com a inflação acima dos dois dígitos. O mercado agora projeta que a Selic chegue a 8,75% ao final de 2021 e a 9,5% no término de 2022. Quando a taxa ultrapassar 8,5%, a poupança mudará de regime: passará a render 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial, chegando a 6,17% ao ano. Mas mesmo isso não será suficiente para vencer a inflação.

Há uma exceção: quem depositou dinheiro na poupança até abril de 2012, na chamada "poupança velha", continua recebendo 0,50% ao mês e 6,17% ao ano. Esses poupadores estão em melhor situação, embora também percam para a inflação. O estoque total depositado pelos brasileiros em poupança ainda somava 1,031 trilhão de reais em setembro, mas em 2021 os saques já superavam os depósitos em mais de 23 bilhões de reais. As pessoas estão sacando mais do que colocando.

A elevação da Selic abre portas para outros investimentos. Títulos do Tesouro Direto, CDBs, LCI, LCA e debêntures incentivadas ganham rentabilidade. Um levantamento mostra que com a Selic a 7,75%, um CDB de banco médio pode render 9,95% ao ano bruto, ou 7,96% descontado o imposto de renda. Uma debênture incentivada chega a 11,55% bruto. Mesmo assim, quase todas essas aplicações continuam perdendo para a inflação quando se desconta o imposto de renda. A exceção é a debênture incentivada, que projeta um rendimento real positivo de 2,38%.

O que muda no comportamento dos investidores é visível. Em outubro, os CDBs lideraram as buscas, seguidos por LC/RDB, LCI/LCA e Tesouro Direto. A bolsa de valores, por sua vez, sofre descontos. Com a economia se deteriorando e os juros subindo, o capital migra de ações para títulos de renda fixa. Bernardo Pascowitch, CEO do Yubb, uma plataforma de investimentos, explica que "com o cenário de alta dos juros brasileiros e deterioração econômica, a bolsa tende a sofrer descontos e perda de interesse". O capital dos grandes investidores flui para títulos públicos e privados.

Mas há um aviso importante: não se sabe ainda qual será o teto deste ciclo de alta de juros. Pascowitch recomenda cautela com investimentos prefixados, aqueles cuja rentabilidade é definida no momento da aplicação. "Tem-se como mais seguro optar por títulos pós-fixados, porque acompanharão o ciclo de juros e protegerão o pequeno investidor da alta da inflação." A diversificação continua sendo fundamental. Maiores rentabilidades costumam estar associadas a maior risco e a prazos de vencimento mais longos. O que fica claro é que a poupança, embora renda um pouco mais, não é mais o refúgio que foi um dia.

Com o cenário de alta dos juros brasileiros e deterioração econômica, a bolsa tende a sofrer descontos e perda de interesse. O capital dos grandes investidores migra para títulos de renda fixa públicos e privados.
— Bernardo Pascowitch, CEO do Yubb
Tem-se como mais seguro optar por títulos pós-fixados em vez de prefixados, porque os pós-fixados acompanharão o ciclo de juros e protegerão o pequeno investidor da alta da inflação.
— Bernardo Pascowitch, CEO do Yubb
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que a poupança continua perdendo para a inflação mesmo com a Selic subindo?

Model

Porque a regra que governa a poupança limita seu rendimento a 70% dos juros básicos quando a Selic está abaixo de 8,5%. Enquanto a inflação está em dois dígitos, a poupança não consegue acompanhar.

Inventor

Então quando a Selic passar de 8,5%, a situação muda?

Model

Muda um pouco. A poupança passará a render 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial. Mas mesmo assim, com a inflação projetada em 8,96% para este ano, o ganho real continua negativo.

Inventor

Para onde está indo o dinheiro que sai da poupança?

Model

Para títulos de renda fixa: CDBs, Tesouro Direto, LCI, LCA. São aplicações que oferecem rentabilidade melhor, embora também percam para a inflação quando se desconta o imposto de renda.

Inventor

E por que as pessoas não estão comprando ações?

Model

Porque a bolsa está sofrendo descontos com a deterioração econômica. Quando os juros sobem e a economia piora, o risco de ações fica menos atrativo. O capital migra para o que parece mais seguro.

Inventor

Qual é o investimento que realmente ganha da inflação neste cenário?

Model

A debênture incentivada, que projeta um rendimento real de 2,38% descontada a inflação e o imposto de renda. Mas é um investimento mais complexo, não é para qualquer um.

Inventor

E a poupança velha, de antes de 2012, está melhor?

Model

Está um pouco melhor porque rende 0,5% ao mês fixo, não 0,44%. Mas continua perdendo para a inflação também. É apenas uma desvantagem menor.

Quer a matéria completa? Leia o original em G1 ↗
Fale Conosco FAQ