Seis razões por trás dos maus resultados escolares das crianças

Crianças em situação de pobreza, vítimas de bullying e abandono familiar sofrem impacto direto no bem-estar e desempenho académico.
Uma criança que não comeu pequeno-almoço não consegue concentrar-se
A pobreza e a carência económica afetam diretamente a capacidade de aprendizagem das crianças.

Quando uma criança falha na escola, a tentação é procurar uma causa única — preguiça, falta de inteligência, desinteresse. A pediatra Joana Martins recusa essa simplicidade e propõe um mapa mais honesto: seis categorias de razões que vão da pobreza ao perfecionismo, do bullying aos distúrbios neurológicos. O mau desempenho escolar é, na maioria das vezes, o sintoma visível de uma dor invisível — e compreendê-lo exige que adultos, escolas e famílias olhem para além das notas.

  • Crianças em situação de pobreza ou luto chegam à sala de aula com a mente ocupada por preocupações que nenhum currículo consegue competir.
  • O bullying — físico ou digital — corrói a autoconfiança de forma silenciosa e persistente, tornando a aprendizagem impossível para quem vive com medo.
  • Distúrbios como dislexia, PHDA e autismo são frequentemente confundidos com preguiça ou falta de esforço, atrasando diagnósticos que poderiam mudar vidas.
  • O perfecionismo, paradoxalmente, pode paralisar alunos capazes durante avaliações, transformando ansiedade em resultados que não refletem o seu potencial.
  • Turmas sobredimensionadas e pouco desafiadoras desmotivam os alunos mais capazes, que se desligam por falta de estímulo e não por falta de capacidade.
  • Apenas numa minoria de casos o problema é mesmo falta de esforço — e só aí faz sentido responder com rigor, acompanhamento parental e apoio ao estudo.

Quando uma criança regressa a casa com más notas, os pais fazem sempre a mesma pergunta. A pediatra Joana Martins, que trabalha com crianças e adolescentes, conhece bem a complexidade da resposta: existem seis grandes categorias de razões para o mau desempenho escolar, e muitas delas não têm nada a ver com inteligência ou esforço.

A pobreza, o abandono e a perda de um familiar destroem a capacidade de concentração antes mesmo de a criança entrar na sala de aula. Uma criança que não sabe se vai ter comida para jantar não consegue pensar em frações. O luto, quando não é tratado com compaixão pelas escolas, transforma-se em penalização académica. O isolamento social agrava o problema: o bullying — incluindo o cyberbullying, que persiste indefinidamente nas redes sociais — coloca os alunos numa fragilidade que impede qualquer aprendizagem. Para os adolescentes, relações amorosas conflituosas têm um impacto igualmente devastador nos resultados.

Há também patologias que exigem diagnóstico cuidadoso: dislexia, disgrafia, discalculia, PHDA e distúrbios do espectro do autismo requerem avaliação multidisciplinar e planos de intervenção específicos. Confundi-los com preguiça é um erro com consequências sérias. Menos óbvio, mas igualmente real, é o perfecionismo: alunos com personalidades perfeccionistas podem ficar com a mente em branco durante os testes por ansiedade de desempenho — um problema que beneficia de psicoterapia e mindfulness, não de mais pressão.

Nas salas de aula, turmas muito assimétricas desmotivam os alunos mais capazes, que se desligam enquanto os professores repetem conteúdos para os que têm mais dificuldades. Por fim, existe uma minoria de casos em que o problema é genuinamente a falta de esforço — maus hábitos de estudo, desorganização, deliberada indiferença. Só aqui faz sentido falar de acompanhamento rigoroso, explicadores e centros de estudo. Mas é um erro começar sempre por aí.

Quando uma criança volta para casa com más notas, a pergunta que os pais fazem é quase sempre a mesma: porque é que isto está a acontecer? A resposta, porém, raramente é simples. Existem tantas razões pelas quais um aluno pode começar a ter dificuldades que é quase impossível apontar uma única culpa. A pediatra Joana Martins, que trabalha com crianças e adolescentes, conhece bem esta complexidade. Nas suas observações, ela identifica seis grandes categorias de problemas que explicam a maioria dos casos de mau desempenho escolar — e algumas delas não têm nada a ver com inteligência ou falta de esforço.

Muitos dos problemas começam muito antes de a criança entrar na sala de aula. A pobreza, o abandono, a morte de um familiar próximo — estas são situações que destroem a capacidade de concentração de qualquer pessoa, independentemente da idade. Uma criança que não sabe se vai ter comida para jantar não consegue pensar em frações ou em história. A sua mente está ocupada com preocupações muito mais urgentes. No Reino Unido, algumas escolas reconheceram isto e começaram a fornecer refeições aos alunos durante o fim de semana, uma admissão silenciosa de que a pobreza é um problema real mesmo num dos países mais ricos do mundo. Quando uma criança perde um pai ou uma mãe, o luto é legítimo e merecia ser tratado com compaixão nas escolas — não com penalizações académicas que apenas aumentam o sofrimento.

Outro problema que afeta muitas crianças é o isolamento social. O bullying, seja na forma tradicional ou através das redes sociais, destrói a concentração e a autoconfiança. Uma criança que é constantemente ameaçada, gozada ou humilhada não consegue aprender porque está numa posição de fragilidade extrema. O cyberbullying tornou-se particularmente insidioso: é fácil insultar alguém a partir da segurança de casa, e um comentário cruel numa rede social pode perdurar indefinidamente, ao contrário de uma palavra dita cara a cara que desaparece no ar. Para os adolescentes, há ainda a questão das relações amorosas. Uma rapariga com boas notas que de repente começa a descer nas classificações porque arranjou namorado é um padrão que os pais reconhecem bem. Se a relação é saudável e feliz, isso é uma experiência natural. Mas quando é conflituosa, turbulenta e infeliz, o impacto nos resultados escolares é devastador.

Há também problemas que ninguém escolhe e que exigem diagnóstico cuidadoso. Os distúrbios de aprendizagem — como a dislexia, que afeta a leitura, a disgrafia, que afeta a escrita, ou a discalculia, que afeta o cálculo — são patologias específicas que requerem avaliação multidisciplinar e planos de intervenção muito precisos. A perturbação de hiperatividade e défice de atenção é frequentemente mal compreendida e alvo de preconceito, mas quando diagnosticada corretamente, o tratamento traz benefícios enormes. Os distúrbios do espectro do autismo variam muito em gravidade e apresentação — desde o Síndrome de Asperger, onde a cognição pode ser normal ou acima da média, até apresentações mais graves associadas a défice cognitivo significativo. Estes casos exigem apoio de psicólogos, terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas. Há ainda os défices cognitivos graves e generalizados, que afetam a comunicação e a capacidade de autocuidado.

Um problema menos óbvio é o perfecionismo. Parece contraditório, mas crianças e adolescentes com personalidades perfeccionistas têm risco aumentado de mau desempenho em momentos de avaliação, precisamente por causa da ansiedade de desempenho. Ficam com a mente em branco durante os testes, ou gastam tanto tempo em detalhes desnecessários que não conseguem responder nem a metade das perguntas. Isto não é falta de preparação ou dificuldade cognitiva — é um tipo muito específico de problema que beneficia de psicoterapia e técnicas de mindfulness.

Em muitas salas de aula, o problema é a falta de estímulo. Quando uma turma é muito assimétrica, com alunos de níveis muito diferentes, os que seriam bons elementos perdem completamente a motivação porque não recebem conteúdos desafiantes. Enquanto os professores repetem incessantemente os mesmos tópicos para os alunos com piores resultados, os mais capazes desligam-se. Turmas sobredimensionadas, com alunos desmotivados, conseguem desmotivar até os professores mais dedicados.

Por fim, há aqueles que simplesmente não estudam. Conhecemos todos alguém que tinha inteligência aparentemente brilhante mas entregava consistentemente resultados medíocres. Estes são os casos em que a responsabilidade recai realmente sobre a criança ou adolescente — por deliberação própria, por falta de atenção que não chega a ser patologia, ou por maus hábitos de estudo e organização. Estudam em cima da hora, esquecem-se do material, não fazem os trabalhos de casa. Aqui, sim, faz sentido falar de acompanhamento parental rigoroso, explicadores e centros de estudo. Muito rigor, mesmo.

É óbvio que uma criança que não comeu pequeno-almoço e que não sabe se terá comida para jantar não vai ter um grande desempenho escolar
— Joana Martins, pediatra
O bullying não é uma coisa de somenos ou de fracos de espírito que não conseguem enfrentar o agressor, visto que estão profundamente isolados
— Joana Martins, pediatra
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Porque é que um pediatra está a escrever sobre resultados escolares? Não é isso trabalho de psicólogos ou educadores?

Model

Um pediatra vê a criança inteira — o corpo, a mente, a vida em casa. Muitos dos problemas que afetam as notas começam no corpo ou na cabeça, não na sala de aula. Precisa de alguém que conheça dislexia, PHDA, autismo, e também pobreza e luto.

Inventor

Então a pobreza é realmente uma das razões principais? Parece óbvio demais.

Model

É óbvio, mas as pessoas não gostam de ouvir. Preferem culpar a criança ou os pais por falta de esforço. Mas uma criança que não comeu pequeno-almoço não consegue concentrar-se. É fisiologia, não preguiça.

Inventor

E o bullying? Porque é que afeta tanto os resultados escolares?

Model

Porque o medo e o isolamento ocupam a mente. A criança está em modo de sobrevivência, não em modo de aprendizagem. O cyberbullying é ainda pior — é anónimo, é permanente, segue a criança para casa.

Inventor

Há algo que a surpreenda nesta lista? Algo que os pais não esperam?

Model

O perfecionismo. As pessoas pensam que é bom, que é sinal de ambição. Mas uma criança perfeccionista pode ficar paralisada de ansiedade durante um teste e não conseguir responder a nada.

Inventor

E quando é realmente culpa da criança? Quando é que podemos dizer que ela simplesmente não quer estudar?

Model

Quando todas as outras coisas foram descartadas. Quando a criança é inteligente, não tem problemas em casa, não sofre bullying, não tem distúrbios de aprendizagem — e mesmo assim não estuda. Aí sim, é uma escolha. Mas é raro ser tão simples.

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