Secretário de Guerra dos EUA cita Pulp Fiction pensando ser Bíblia

Hegseth está a fazer ao cristianismo o que a Al-Qaeda fez ao Islão
Crítico cristão Christopher Hale reagiu à mistura de violência religiosa e militarismo do secretário da Defesa.

Num culto cristão realizado no Pentágono, Pete Hegseth, secretário de Defesa dos Estados Unidos, apresentou como versículo bíblico uma passagem que era, na verdade, o célebre monólogo de Pulp Fiction de Quentin Tarantino — texto proferido por um personagem momentos antes de cometer um homicídio. O equívoco, ocorrido no contexto da guerra com o Irão, não é apenas uma gafe de identificação literária: toca numa questão mais profunda sobre os limites entre fé, poder e violência, e sobre o que acontece quando a linguagem sagrada é moldada ao serviço da guerra.

  • Hegseth leu publicamente um monólogo de Pulp Fiction como se fosse Ezequiel 25:17, adaptando-o com terminologia militar — 'o aviador abatido' no lugar do 'homem justo', e um indicativo de rádio no lugar do nome de Deus.
  • O incidente não foi isolado: semanas antes, o secretário rezara para que as forças armadas recebessem 'alvos claros e justos para a violência', estabelecendo um padrão de fusão entre religião e combate.
  • A reação mais contundente veio de dentro do próprio meio cristão, com um editor católico a comparar as ações de Hegseth ao que a Al-Qaeda fez ao Islão — uma acusação de instrumentalização religiosa.
  • A polémica agrava uma tensão já existente entre a administração Trump e o eleitorado cristão, marcada por declarações agressivas no Domingo de Páscoa, ataques ao Papa e imagens de IA representando Trump como Jesus.
  • O Pentágono permanece em silêncio público, deixando a controvérsia sem resposta oficial e o debate a crescer sem contenção institucional.

Pete Hegseth, secretário de Defesa dos Estados Unidos, protagonizou um momento insólito durante um culto cristão no Pentágono ao apresentar como versículo bíblico — especificamente Ezequiel 25:17 — uma passagem que era, na realidade, o monólogo de Samuel L. Jackson em Pulp Fiction, de Quentin Tarantino. O texto é proferido no filme imediatamente antes de um homicídio.

Segundo Hegseth, a oração — que chamou de 'CSAR 2517' — teria sido transmitida pelo chefe de uma missão de busca e salvamento de tripulantes da Força Aérea abatidos no Irão. A adaptação manteve a estrutura e o tom violento do original, mas substituiu as referências religiosas por termos militares: 'o homem justo' tornou-se 'o aviador abatido', e a frase final foi alterada de 'sabereis que o meu nome é o Senhor' para 'sabereis que o meu indicativo é Sandy 1'.

Este episódio não surgiu no vazio. No mês anterior, Hegseth já tinha rezado para que as forças armadas recebessem 'alvos claros e justos para a violência' — um padrão que gerou críticas severas em meios cristãos. Christopher Hale, editor da newsletter católica Letters from Leo, escreveu no X que Hegseth estava a fazer ao cristianismo o que a Al-Qaeda fez ao Islão.

A controvérsia chega num momento já frágil para Donald Trump junto do eleitorado cristão: nas semanas anteriores, o Presidente enfrentou críticas por declarações agressivas sobre o Irão feitas no Domingo de Páscoa, por ataques ao Papa Leão XIV — que criticou a guerra — e por partilhar imagens geradas por IA em que surgia representado como Jesus. O Pentágono não emitiu qualquer resposta pública ao caso.

Pete Hegseth, secretário da Defesa dos Estados Unidos, citou durante um culto cristão no Pentágono o que acreditava ser um versículo bíblico. A passagem que leu, apresentada como inspirada em Ezequiel 25:17, era na verdade um monólogo do filme Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, interpretado por Samuel L. Jackson imediatamente antes de o personagem cometer um homicídio.

O incidente ocorreu numa cerimónia religiosa promovida por Hegseth no contexto da guerra com o Irão. Segundo o secretário, a oração tinha sido transmitida pelo chefe de uma missão de busca e salvamento em combate, destinada a localizar e resgatar tripulantes da Força Aérea abatidos no Irão. Hegseth afirmou que a oração se chamava "CSAR 2517" e descreveu-a como parcialmente inspirada no versículo bíblico referido. O que o secretário não mencionou foi que o texto tinha sido adaptado quase integralmente do monólogo de Tarantino.

A leitura que Hegseth apresentou ao público diferencia-se consideravelmente da passagem bíblica real. Comparando com a interpretação original do filme, a adaptação mantém a estrutura e o tom violento, mas substitui referências específicas por termos militares. "O caminho do homem justo" tornou-se "o caminho do aviador abatido", e a frase final foi alterada de "sabereis que o meu nome é o Senhor" para "sabereis que o meu indicativo é Sandy 1". Hegseth tinha dito ao público que falara com o almirante Brad Cooper, responsável pelas forças norte-americanas durante o conflito com o Irão, sobre a forma como ensinamentos religiosos influenciam decisões políticas e militares.

Este não foi um caso isolado de Hegseth recorrer a linguagem violenta em cerimónias religiosas relacionadas com a guerra. Num momento anterior, no mês passado, o secretário terá rezado para que a força militar recebesse "alvos claros e justos para a violência". O padrão de misturar violência com religião gerou críticas particularmente duras dentro de meios cristãos. Christopher Hale, editor da newsletter católica Letters from Leo, escreveu na rede social X que "Pete Hegseth está a fazer ao cristianismo o que a Al-Qaeda fez ao Islão".

A controvérsia surge num momento já sensível para Donald Trump e para o seu círculo político junto de parte do eleitorado cristão. Nas últimas semanas, o Presidente norte-americano enfrentou críticas por declarações agressivas sobre o Irão feitas no Domingo de Páscoa, por ataques ao Papa Leão XIV, que criticou a guerra, e por partilhar imagens geradas por inteligência artificial em que surgia representado como Jesus. O episódio de Hegseth adiciona uma nova camada a esta tensão crescente entre a administração Trump e setores significativos da comunidade cristã americana. Até ao momento, o Pentágono não respondeu publicamente ao caso.

Pete Hegseth está a fazer ao cristianismo o que a Al-Qaeda fez ao Islão
— Christopher Hale, editor da newsletter católica Letters from Leo
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como é que alguém na posição de secretário da Defesa confunde Tarantino com a Bíblia?

Model

A questão não é exatamente confusão inocente. Hegseth recebeu a oração de um chefe militar, foi-lhe dito que era inspirada em Ezequiel, e ele apresentou-a como tal. O problema é que ninguém na cadeia de comando aparentemente verificou a origem real.

Inventor

Mas porquê adaptar Pulp Fiction para um contexto militar? Qual é a lógica?

Model

A passagem original é sobre violência justificada, sobre retribuição divina. Num contexto de guerra, faz sentido perverso — substitui-se "homem justo" por "aviador abatido", mantém-se a estrutura de autoridade moral. É uma forma de santificar operações militares.

Inventor

E ninguém na sala percebeu que era ficção?

Model

Talvez alguns tenham percebido e ficaram em silêncio. Talvez a maioria não conheça o filme. Mas o que é mais preocupante é que isto não é um erro isolado — Hegseth tem um padrão de misturar linguagem religiosa com violência militar.

Inventor

Como é que isto afeta a credibilidade de Trump junto dos cristãos?

Model

Adiciona-se a uma série de provocações — as declarações no Domingo de Páscoa, os ataques ao Papa, as imagens de IA. Para muitos cristãos conservadores, isto parece uma instrumentalização da fé para fins políticos e militares.

Inventor

O Pentágono respondeu?

Model

Não. Até agora, silêncio completo. O que pode ser interpretado como aprovação tácita ou como estratégia de deixar passar.

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