Políticas públicas precisam criar condições, não apenas informar
Um retrato nacional revela que um quarto dos brasileiros ignora que o câncer pode ser prevenido — uma lacuna que não é apenas médica, mas cultural e política. Enquanto o tabaco foi cercado por décadas de políticas públicas que moldaram a consciência coletiva, fatores como sedentarismo, obesidade e ultraprocessados permanecem à sombra do desconhecimento, especialmente entre os mais jovens e os mais pobres. Com 781 mil novos casos de câncer projetados por ano entre 2026 e 2028, o estudo lança uma pergunta urgente à sociedade brasileira: o que fazemos com o que não sabemos?
- Um quarto da população brasileira desconhece que o câncer é evitável — e essa ignorância cresce justamente onde as políticas públicas ainda não chegaram com força.
- O sedentarismo é o fator de risco mais invisível: menos da metade dos brasileiros (48,3%) o reconhece como ameaça real, enquanto o fumo é identificado por mais de 90%.
- Jovens até 24 anos lideram o consumo de alimentos ultraprocessados, embutidos e bebidas alcoólicas sem qualquer intenção de mudar — um sinal de alerta para as próximas décadas.
- A desigualdade econômica aprofunda o problema: brasileiros com renda abaixo de R$ 2 mil sabem menos sobre prevenção e agem menos diante do excesso de peso.
- Especialistas apontam o modelo antitabaco como caminho: políticas integradas de comunicação, tributação e restrição podem ampliar a percepção sobre outros fatores de risco.
Um relatório inédito de abrangência nacional, divulgado na última quarta-feira, revelou que 25% dos brasileiros não sabem que o câncer pode ser prevenido. O estudo, conduzido pelas organizações Umane e Vital Strategies com parceria técnica do Instituto Nacional de Câncer (Inca), ouviu 6,5 mil pessoas em todos os estados do país para mapear como a população percebe os principais fatores de risco da doença.
O cenário é de disparidades profundas. O fumo é reconhecido como risco por 90,5% dos adultos — resultado de décadas de políticas públicas, advertências em embalagens e campanhas de comunicação. Mas o sedentarismo, igualmente perigoso, é identificado como fator de risco por menos da metade da população (48,3%). Sobrepeso e obesidade são reconhecidos por apenas 54,1%, e carnes vermelhas por menos de três em cada dez brasileiros.
Os jovens até 24 anos preocupam especialmente: são os que mais consomem alimentos de risco — ultraprocessados, embutidos, bebidas adoçadas e álcool — sem qualquer intenção de reduzir. Metade da população afirma não consumir bebidas alcoólicas, mas entre os jovens que bebem, 16,9% não pretendem parar, proporção muito superior à das faixas etárias mais velhas.
A desigualdade econômica também marca o conhecimento sobre prevenção. Brasileiros com renda abaixo de R$ 2 mil têm menor consciência sobre o sedentarismo como fator de risco e agem menos diante do excesso de peso do que aqueles com rendas mais altas. Para Luciana Grucci Moreira, chefe da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca, a diferença de percepção entre fatores de risco está diretamente ligada à presença — ou ausência — de políticas públicas estruturadas.
O desafio apontado pelos especialistas é claro: replicar para outros fatores de risco o mesmo esforço sistêmico que transformou a percepção sobre o tabaco. Não basta informar — é preciso criar condições reais para que escolhas mais saudáveis sejam possíveis, especialmente para quem tem menos recursos e menos acesso ao conhecimento.
Um em cada quatro brasileiros não sabe que o câncer é uma doença que pode ser prevenida. Essa lacuna no conhecimento emergiu de um relatório nacional divulgado na última quarta-feira, intitulado Mais Dados Mais Saúde – Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer. O estudo, realizado pelas organizações Umane e Vital Strategies com apoio do Instituto Devive e parceria técnica do Instituto Nacional de Câncer (Inca), entrevistou 6,5 mil pessoas em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal para mapear como a população percebe e se relaciona com elementos que aumentam o risco da doença: tabagismo, bebidas alcoólicas, alimentos ultraprocessados e sedentarismo.
O contexto que torna esse desconhecimento particularmente preocupante é a projeção do Inca de 781 mil casos novos de câncer por ano no triênio 2026-2028, um aumento de 10,9% em relação ao período anterior, impulsionado pelo envelhecimento da população e por hábitos de vida. A pesquisa é a primeira edição de abrangência nacional que investiga especificamente o que os brasileiros pensam e fazem sobre prevenção do câncer.
O estudo revela disparidades gritantes na percepção dos fatores de risco. O fumo é amplamente reconhecido como perigoso: 90,5% dos adultos sabem que fumar causa câncer. A herança genética (89,4%) e a exposição solar excessiva (88,3%) também apresentam altos índices de reconhecimento. Mas a percepção cai significativamente para outros fatores. Apenas 71,3% apontam bebidas alcoólicas como risco, 70,7% reconhecem alimentos embutidos como presunto e salsicha, e 65,6% identificam ultraprocessados como macarrão instantâneo e salgadinhos. O sedentarismo, porém, ocupa o pior lugar: menos da metade dos brasileiros (48,3%) acredita que a falta de atividade física favorece o desenvolvimento do câncer. Sobrepeso e obesidade são conhecidos como fatores de risco por apenas 54,1% da população, e a carne vermelha é reconhecida como item que aumenta a chance de câncer por menos de três em cada dez brasileiros, ou 27,5%.
Segundo Luciana Grucci Moreira, chefe da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca, a diferença nos graus de percepção está diretamente ligada às políticas públicas e campanhas informativas. O tabaco é o exemplo mais bem-sucedido: advertências em embalagens, impostos para elevar o preço, ambientes restritos de fumo e décadas de campanhas de comunicação criaram uma consciência coletiva robusta. Para ampliar a percepção sobre outros fatores de risco, Moreira defende que é preciso avançar em ações semelhantes. Ela também ressalta que a população desconhece que o aleitamento materno é um fator de proteção contra o câncer de mama: a cada dez entrevistados, quatro não sabiam dessa informação.
O estudo também mapeou comportamentos reais da população. Cerca de 45% dos indivíduos consomem ultraprocessados e tentaram reduzir o consumo, enquanto 33% não consomem e 15% consomem sem intenção de reduzir. Em relação aos refrigerantes, aproximadamente 53% relataram consumo com tentativa de redução, 27% não consomem e cerca de 15% não querem reduzir. Com a carne vermelha, a proporção é diferente: cerca de 45% consomem sem ter tentado reduzir, aproximadamente 40% consomem e tentam reduzir, e apenas 10% não consomem. Em contrapartida, 86,3% da população afirmou consumir frutas, legumes e verduras.
Os jovens até 24 anos emergem como grupo de risco comportamental. Eles são os que mais consomem alimentos relacionados a fatores de risco sem intenção de reduzir: 32,3% com relação aos ultraprocessados, 24,4% para bebidas adoçadas, 29,5% para embutidos e 49,1% para carne vermelha. Sobre bebidas alcoólicas, substância associada a pelo menos oito tipos de câncer, metade da população (50,1%) relatou não consumir, enquanto 32,5% dos que consomem já tentaram reduzir. Os jovens até 24 anos são maioria entre os que declaram beber sem intenção de reduzir (16,9%), comparado a 8,7% das pessoas de 25 a 59 anos e 7,1% daqueles com mais de 60 anos.
A desigualdade econômica também marca o conhecimento sobre prevenção. Em relação ao sedentarismo, 52,2% disseram que praticam atividade física e 39% manifestaram querer começar. Mas os mais ricos são os que mais sabem da importância da atividade física: cerca de 45% dos que recebiam até R$ 2 mil apresentaram menor proporção de conhecimento sobre sedentarismo como fator de risco em comparação àqueles com renda igual ou superior a R$ 10 mil (59,6%). Quando questionados sobre o peso corporal, 48,8% se declararam com peso saudável. Entre os que reconhecem ter excesso de peso, 31% afirmaram estar fazendo algo a respeito, mas esse número cai para 22,9% entre pessoas com renda menor que R$ 2 mil, contra mais de 40% entre os de renda acima de R$ 3 mil.
Luciana Moreira, gestora do Inca, vê no resultado do estudo uma oportunidade para planejar estratégias de comunicação mais eficazes. Se a população não reconhece que carnes processadas aumentam o risco de câncer, essa informação é crucial para quem trabalha com prevenção e criação de políticas públicas. Luciana Sardinha, da Vital Strategies, acredita que o estudo tem efeito positivo ao despertar interesse pelo assunto e chamar atenção da população para os fatores de risco. O desafio agora é traduzir esse conhecimento em políticas públicas integradas que não apenas informem, mas que criem condições reais para escolhas mais saudáveis.
Citações Notáveis
A rua em que a pessoa mora tem que estar iluminada, com segurança, para ela praticar exercício. A política pública tem esse papel de dar a opção de melhores escolhas para todos esses fatores de risco.— Luciana Grucci Moreira, chefe da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca
Se a população hoje não reconhece que as carnes processadas aumentam o risco de câncer, essa informação é muito importante para nós, que trabalhamos com ações de prevenção e com criação de políticas públicas.— Luciana Grucci Moreira, Inca
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que um em cada quatro brasileiros não saber que câncer pode ser prevenido é tão preocupante?
Porque significa que há um quarto da população operando sem informação básica sobre sua própria saúde. E isso acontece num contexto onde o Inca projeta 781 mil casos novos por ano nos próximos anos. A ignorância não é neutra quando o risco está crescendo.
Mas o estudo mostra que as pessoas conhecem bem o risco do tabaco. Por que não conseguem transferir esse conhecimento para outros fatores?
Porque o conhecimento sobre tabaco não veio do nada. Foram décadas de advertências nas embalagens, impostos, restrições de ambientes, campanhas constantes. É um investimento público massivo. Para sedentarismo ou alimentos ultraprocessados, simplesmente não houve o mesmo esforço.
Os jovens consomem mais alimentos de risco sem querer reduzir. Isso é ignorância ou é algo mais?
Provavelmente é ambos. Há ignorância sobre o risco, sim, mas também há questões de acesso, preço, marketing agressivo direcionado para jovens, e falta de infraestrutura para escolhas saudáveis. Não é só falar "faça atividade física" se a rua não tem iluminação ou segurança.
A desigualdade de renda aparece em vários pontos do estudo. Como isso muda a conversa sobre prevenção?
Muda tudo. Alguém que ganha R$ 2 mil por mês não tem a mesma liberdade de escolha que alguém que ganha R$ 10 mil. Prevenção não é só informação; é acesso a alimentos saudáveis, segurança para se exercitar, tempo livre. Políticas públicas precisam criar essas condições, não apenas informar.
O que você acha que vai mudar depois que esse relatório for divulgado?
Espero que desperte interesse e pressão por políticas integradas. Mas relatórios sozinhos não mudam comportamento. Precisa de ação: campanhas de comunicação, mudanças no preço dos alimentos, investimento em espaços públicos seguros. O tabaco provou que funciona, mas exige vontade política real.