Menos incerteza significa menos prêmio de risco, o que significa juros mais baixos
Condições financeiras operando em níveis apertados no Brasil, com prêmios de risco elevados na curva longa de juros. Governo eleito deve anunciar medidas fiscais e regras para reduzir incerteza e sinalizar austeridade, abrindo oportunidade de reduzir custos.
- Prêmios de risco elevados na curva longa de juros brasileira
- Projeção de superávit primário de 1% do PIB em 2022 e déficit de 1,4% em 2023
- Possibilidade de ciclo de distensão monetária começar em junho de 2023
Economista-chefe do Santander afirma que redução da incerteza fiscal é essencial para diminuir prêmios de risco nos ativos brasileiros e melhorar condições de financiamento do país.
Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander no Brasil, estava em Madri apresentando uma tese simples mas urgente: o país está preso numa armadilha de sua própria incerteza. Os mercados financeiros brasileiros operam sob pressão, as taxas de juros de longo prazo estão altas, e o custo para o governo e as empresas tomarem dinheiro emprestado segue elevado. A razão, segundo ela, não é mistério. É a falta de clareza sobre o que o próximo governo fará com as contas públicas.
O Brasil mantém um processo de consolidação fiscal em andamento, mas as estruturas subjacentes apontam para um déficit que virá. O Santander projeta um superávit primário de 1% do PIB para 2022, seguido por um déficit de 1,4% do PIB em 2023. Esses números, porém, dependem de suposições. Mude uma variável aqui, outra ali, e a trajetória da dívida muda. Os investidores sabem disso. Por isso exigem prêmios de risco mais altos — essencialmente, cobram mais caro para emprestar ao Brasil porque não sabem exatamente o que esperar.
Vescovi foi direta: "A política fiscal é o nosso grande desafio." O que ela quis dizer é que ninguém sabe ainda quais serão as medidas do governo eleito Luiz Inácio Lula da Silva. Não sabem quais regras fiscais serão adotadas. Essa névoa custa dinheiro real. Os títulos públicos brasileiros estão sendo negociados com prêmios relativamente altos na parte longa da curva de juros — isto é, para prazos mais longos. A dispersão das projeções de dívida futura alimenta essa incerteza, e a incerteza alimenta os prêmios de risco.
Mas há uma saída, na visão da economista. Se o novo governo anunciar claramente seu desenho fiscal e, mais importante, se sinalizar austeridade de verdade, as coisas podem mudar. "Havendo uma redução importante da incerteza e um sinal forte de austeridade fiscal, é possível que tenhamos uma avenida de oportunidades para reduzir esse risco implícito na parte longa da curva," disse Vescovi. Traduzindo: menos incerteza significa menos prêmio de risco, o que significa juros mais baixos, o que significa financiamento mais barato para o Brasil.
O contexto internacional complica tudo. As maiores economias do mundo estão apertando a política monetária — aumentando juros para combater a inflação. Isso torna o Brasil menos atrativo para investidores estrangeiros e aperta as condições financeiras globais. Mesmo assim, Vescovi notou que o Brasil tem visto um processo desinflacionário importante. A inflação está caindo. E se a incerteza fiscal diminuir, o Banco Central pode começar a reduzir juros em junho de 2023.
Mas tudo depende de um passo: o governo eleito precisa falar. Precisa dizer o que vai fazer com a política fiscal. Precisa sinalizar que leva a austeridade a sério. Enquanto isso não acontecer, os prêmios de risco seguem altos, as condições financeiras seguem apertadas, e o Brasil paga mais caro por cada real que toma emprestado. A economia está à espera de um sinal.
Citações Notáveis
A política fiscal é o nosso grande desafio— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander
É muito importante que nós conheçamos o desenho da política fiscal e quais serão as medidas para que a gente reduza a incerteza— Ana Paula Vescovi
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que exatamente a incerteza fiscal custa tanto dinheiro ao Brasil?
Porque os investidores cobram um prêmio — uma taxa extra — para emprestar a um país cujas contas públicas futuras são imprevísiveis. Se você não sabe se o governo vai gastar demais ou controlar as despesas, você exige ser compensado por esse risco. Quanto maior a incerteza, maior o prêmio.
Mas o Brasil já tem uma trajetória de dívida. Por que não é suficiente?
Porque a trajetória depende de escolhas que ainda não foram feitas. O novo governo pode adotar medidas que melhorem as contas ou que as piorem. Os mercados estão esperando saber qual será o caminho. Enquanto esperam, cobram mais caro.
A economista mencionou uma "avenida de oportunidades". O que seria isso?
Se o governo anunciar claramente suas medidas fiscais e sinalizar austeridade, a incerteza cai dramaticamente. Com menos incerteza, os prêmios de risco caem. Com prêmios menores, os juros de longo prazo caem. E aí sim, o Brasil consegue financiar suas contas de forma mais barata.
Isso significa que a inflação deixa de ser o problema principal?
Não exatamente. A inflação ainda importa. Mas a incerteza fiscal é um problema paralelo e igualmente grave. O Brasil está sendo espremido por dois lados: pressões inflacionárias globais e incerteza doméstica sobre as contas públicas.
E se o governo não fizer esse anúncio claro?
Então os prêmios de risco seguem altos, os juros de longo prazo seguem altos, e o custo de financiamento do Brasil segue elevado. A economia fica presa nessa armadilha até que a incerteza se resolva de alguma forma.