Uma linguagem universal de amor e desespero deixada em objetos
O arquivo contém objetos pessoais deixados por pais junto de bebés abandonados na Roda dos Expostos, desde mechas de cabelo a fotografias e tecidos nobres, permitindo identificação futura. A candidatura é feita em conjunto com Argentina, Bélgica, Florença e Porto, demonstrando uma linguagem universal nos mecanismos de acolhimento de crianças abandonadas em diferentes países.
- 89.929 sinais do arquivo da Roda dos Expostos
- Candidatura conjunta com Argentina, Bélgica, Florença e Porto
- Exposição inaugurada a 17 de novembro de 2025, até 29 de março de 2026
- Desenho de Leonardo da Vinci — única obra do mestre em Portugal
- Resposta da UNESCO esperada em cerca de um ano e meio
A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa candidatou-se à UNESCO com um arquivo de 89.929 sinais da Roda dos Expostos, o maior e mais bem preservado do mundo, em candidatura conjunta com instituições internacionais.
A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa entregou há pouco mais de uma semana a sua candidatura à UNESCO, um dossiê que repousa sobre quase 90 mil objetos — mechas de cabelo, pedaços de fita, cartas rasgadas ao meio, fotografias, fitinhas de seda e tecidos nobres — deixados por pais junto de bebés colocados na Roda dos Expostos. Teresa Nicolau, diretora da Cultura da instituição, explicou que este arquivo não é apenas o maior do mundo em quantidade nesta área, mas também um dos mais bem preservados, resultado de anos de trabalho cuidadoso de digitalização e catalogação.
A Roda dos Expostos era um mecanismo cilíndrico de madeira, instalado em instituições como a Santa Casa, que permitia o abandono anónimo de recém-nascidos. Criada como alternativa ao infanticídio e ao abandono nas ruas, a roda funcionava como um sistema de proteção que oferecia às crianças uma chance de vida e cuidado institucional. Os sinais deixados pelos pais — pequenos objetos pessoais — serviam como marcas de identidade, esperança de um futuro reencontro ou, simplesmente, como testemunho de quem aquela criança tinha sido antes de ser entregue.
A candidatura não é apenas de Lisboa. Envolve uma parceria internacional que inclui instituições da Argentina, três da Bélgica, a cidade de Florença em Itália, e sinais do arquivo da Santa Casa da Misericórdia do Porto. Esta abordagem conjunta, segundo Nicolau, não só reforça o peso da candidatura como demonstra que estes sinais funcionavam como uma linguagem universal nas rodas espalhadas pelo mundo inteiro. A resposta da UNESCO pode levar cerca de um ano e meio.
Mas a candidatura não é apenas arquivo. É também exposição. Intitulada "Filhos de Todos… filhos de quem? Os expostos da roda de Lisboa", abre a 17 de novembro e permanecerá até 29 de março de 2026. A inovação desta mostra está em contar as histórias das pessoas — não apenas através de objetos, mas através de testemunhos reais de descendentes de crianças que foram deixadas na roda e que a Santa Casa acolheu. Um desses casos é particularmente notável: Ana Jorge, que foi provedora da Santa Casa entre maio de 2023 e abril de 2024, é bisneta de uma criança deixada na roda. A bisavó foi criada por uma ama de leite, casou mais tarde na Igreja de São Roque em Lisboa, e a sua linhagem chegou até à liderança da própria instituição que a acolheu.
Outro momento marcou profundamente a instituição. A 15 de janeiro de 2025, exatamente 200 anos depois, abriram uma carta do arquivo datada de 15 de janeiro de 1825. A carta pertencia a uma criança chamada Maria das Dores. Quando a abriram, descobriram que não apenas sobreviveu à roda, como saiu da Santa Casa aos 27 anos para se casar. "Foi absolutamente comovente como esta Maria das Dores sobreviveu e estivemos com ela 200 anos depois", disse Nicolau.
A data escolhida para a inauguração não é casual. Marca os 500 anos da morte da Rainha Dona Leonor, fundadora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. A exposição inclui obras de Paula Rego, Almada Negreiros, Júlio Pomar e Graça Morais. Mas há uma peça que resume a dimensão histórica do projeto: um desenho de Leonardo da Vinci — a única obra do mestre em Portugal — que representa uma mulher a dar banho a uma criança. O desenho, que estava em repouso desde 2021, é Tesouro Nacional. A Santa Casa planeia ainda candidatar o seu Arquivo Histórico ao mesmo estatuto.
Citações Notáveis
Este arquivo, para além de ser o maior do mundo em quantidade nesta área, é também um dos mais bem preservados.— Teresa Nicolau, diretora da Cultura da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa
Foi absolutamente comovente como esta Maria das Dores sobreviveu e estivemos com ela 200 anos depois.— Teresa Nicolau
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Porque é que estes sinais — uma mecha de cabelo, um pedaço de fita — importam tanto agora, 200 anos depois?
Porque são a prova de que alguém se importou. Cada objeto é um gesto de esperança de um pai ou mãe que não podia cuidar da criança mas queria que ela fosse identificada, reconhecida, lembrada.
E a candidatura à UNESCO — é apenas sobre preservação histórica?
Não. É sobre reconhecer que isto foi um sistema humano que funcionou. Que salvou vidas. E que a forma como as pessoas deixavam sinais era a mesma em Lisboa, em Buenos Aires, em Bruxelas. Uma linguagem universal de amor e desespero.
Essa história de Maria das Dores, abrir a carta 200 anos depois no mesmo dia — é coincidência ou foi planeado?
Não foi planeado. Mas talvez seja o tipo de coincidência que só a história permite. Descobrir que ela sobreviveu, que casou, que teve descendência — isso transforma o arquivo de um conjunto de objetos num conjunto de vidas.
E as pessoas como Ana Jorge, que descobrem que a sua bisavó estava na roda?
Mudam a forma como veem a si mesmas. Deixam de ser apenas descendentes de uma história de abandono e tornam-se parte de uma história de cuidado institucional, de integração, de sobrevivência. A Santa Casa não apenas acolheu a criança — acolheu a sua linhagem inteira.